"À Moi Seule" desenha relação complexa entre sequestrador e garota

Filme narra a história de uma menina que é mantida em cativeiro por oito anos

Mariane Morisawa, enviada especial a Berlim |

O Festival de Berlim 2012 enfileirou três dos quatro filmes franceses em competição logo nos dois primeiros dias. "À Moi Seule", de Frédéric Videau, foi apresentado oficialmente na tarde desta sexta-feira (10) em sessão de imprensa.

Acesse o especial Festival de Berlim

Divulgação
Cena de 'À Moi Seule'

Logo de cara, o diretor deixa claro que não está se baseando na história da austríaca Natascha Kampusch , estudante sequestrada em 1998 e mantida presa oito anos em uma cela sob a garagem da casa de Wolfgang Priklopil. Sua Gaëlle (Margot Couture quando criança e Agathe Bonitzer na versão adolescente), porém, também passa oito anos sequestrada por um homem, Vincent (Reda Kateb), dos dez aos 18 anos.

Divulgação
Cena de 'À Moi Seule'
Quando ela foge, como é mostrado no início, reencontra mãe, pai, amigos, mas ninguém sabe muito o que fazer com ela – nem a própria garota, acostumada como está a conviver apenas com aquele homem.

O tema é polêmico, bem ao gosto de Berlim, mas ainda mais porque Gaëlle não é uma vítima. Ela percebe logo que precisa estabelecer algum tipo de relação com seu capturador, que jura jamais maltratá-la, estuprá-la ou transformá-la num objeto.

É como se Vincent quisesse mesmo criar uma pessoa – o componente sexual não é evidente, pelo menos até um ponto em que ela vira o jogo, começando por reclamar de seus horários e exigir passeios noturnos.

O assunto está em evidência no cinema, como mostrou "Michael", de Markus Schleinzer, exibido no Festival de Cannes 2011. Mas, aqui, o diretor é mais bem-sucedido em tornar o capturador um homem complexo, cheio de nuanças, assim como a protagonista. Falta-lhe, porém, atenção a detalhes como a música – pavorosa – e uma coleção de imagens mais fortes.

Na coletiva de imprensa que se seguiu à exibição, o diretor falou sobre o equilíbrio de poder entre o sequestrador e a garota. "O equilíbrio de poder se alterna todo o tempo. Ela não tem força para enfrentá-lo fisicamente, ela tem de fazer com que ele entenda por que é tão importante para Vincent, para poder sair daquela prisão", disse.

Segundo ele, a motivação de Vincent não é igual à de Wolfgang Priklopil, sequestrador de Natascha Kampusch. "Ele arma um projeto criminoso para criar uma criança sozinha, longe do mundo. É um pouco como um conto de fadas, há momentos ternos e outros muito violentos. E isso sempre está presente em relacionamentos", explicou o cineasta.

Leia também: Em biografia, Natascha Kampusch acusa polícia de negligência

Videau disse que não fez pesquisa para escrever o roteiro. "A história veio de mim mesmo. O que me chamou a atenção não foram as notícias, mas a vitalidade de Natascha Kampusch. Essa era a história que queria contar", disse. A atriz Agathe Bonitzer contou que não fez pesquisa também. "Achei que não havia necessidade. Quis recriar essa vontade de viver que a leva em frente", afirmou.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG