"A gente precisa repensar o progresso", diz Cao Hamburger em Berlim

Diretor brasileiro levou ao festival o filme "Xingu", sobre criação do parque indígena; leia entrevista

Mariane Morisawa, enviada especial a Berlim |

Marcada para o mesmo horário da exibição de “Bai Lu Yuan”, do chinês Wang Quan’an, vencedor do Urso de Ouro em 2007 com “Tu Ya De Hun Shi” e do Urso de Prata em 2010 com “Tuan Yuan”, a sessão de imprensa de “Xingu”, de Cao Hamburger, no Festival de Berlim , contou com cerca de 50 pessoas.

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Cena de "Xingu", de Cao Hamburger

Mas quem estava presente assistiu a um drama competente sobre a saga dos irmãos Orlando (Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat) Villas-Boas para encontrar uma solução para a questão indígena com o avanço da ocupação branca sobre as regiões central e norte do país, que acabou se transformando no Parque Nacional do Xingu.

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O filme evita santificar os irmãos, mostrando as diferenças e os conflitos entre eles – o mais grave faz com que Leonardo seja mandado de volta a São Paulo depois de engravidar uma índia. Também deixa claro que a criação do parque representou uma mudança de paradigma.

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Joao Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat em "Xingu"
A ideia do governo sempre foi integrá-los à cultura branca, e o Xingu foi projetado para preservar o máximo possível a cultura indígena, que pressupõe a terra e a água. Ao mesmo tempo, era apenas a resposta menos pior para uma derrota inevitável, com o domínio branco sobre a terra indígena.

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Na coletiva de imprensa, Hamburger (“O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias“; 2006) disse que quis fazer a história por ser pouco conhecida. “Ao mesmo tempo, estão acontecendo agora problemas em outras partes do Brasil”, disse.

O diretor também comentou como foi feito o contato. “99% dos atores índios são do Xingu. Chegamos devagar, eles foram ganhando confiança, até porque viram que seu ponto de vista ia ser levado em conta. A Bel (Berlinck, produtora) morou lá, para resgatá-la foi difícil. E os índios tiveram um entendimento imediato do processo.”

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Caio Blat falou sobre a troca com os atores – uma semana das dez de filmagem aconteceu dentro do parque. “Os primeiros dias foram de total encantamento. Parece que a câmera se detém neles e não quer parar. Seus olhos têm tanta tragédia e tanta pureza”, disse. “Hoje em dia, tenho contato com eles pelo Facebook, pelo Skype. Em um segundo, você liga o gerador e está no século 21. Quando desliga, regride cinco séculos, aí acende a fogueira e dorme na rede, com medo de onça.”

João Miguel concordou. “Depois do Xingu, não fui mais o mesmo, não tinha como ser. Me fez entender o Brasil pelo contato, porque o meu país eu não consigo entender racionalmente.”

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Para Cao Hamburger, no momento em que o Brasil alcança mais projeção internacional, é hora de aprender com esses povos. “A gente precisa repensar o paradigma do progresso, saber o que é estar no mundo e a relação do ser humano com o planeta. Essa é a grande diferença entre a visão deles e a nossa.”

Em seu próximo filme, ele pretende aprofundar-se na cultura dos índios, investigando as tribos que fogem da civilização e, em pleno século 21, permanecem sem contato com os brancos.

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