Premiação de iraniano é lógica e politicamente relevante

"Acho que pelo cinema posso mudar muito mais", diz o vencedor do Urso de Ouro

Mariane Morisawa, enviada especial a Berlim |

Getty Images
"Tento expressar meus sentimentos pelos filmes. Não sou um herói. Sou um cineasta", disse Asghar Farhadi
Ainda bem que o júri do  61º Festival de Berlim preferiu a lógica. A premiação tripla de “Jodaeiye Nader az Simin” ("Nader e Simin, uma Separação", na tradução livre), do iraniano Asghar Farhadi, que levou o Urso de Ouro, mais os Ursos de Prata de interpretação masculina e feminina, ambos para o trabalho conjunto do elenco, apenas referenda sua superioridade evidente em relação a pelo menos 14 dos seus 15 concorrentes.

Além disso, não deixa de ser uma premiação política: no Irã, onde o governo prendeu e proibiu Jafar Panahi de fazer filmes , há cinema, excelente cinema. “Apoiar Panahi é bom, mas também ficou claro que os atores foram percebidos e as pessoas gostaram muito do filme”, disse Farhadi. Respondendo a uma jornalista iraniana, que pediu que ele se posicionasse mais claramente sobre a questão do pais, ele disse: “Se eu fizer o que você quer, posso entrar em problemas, ser proibido de filmar. E posso dizer o que posso dizer e continuar fazendo meus filmes. Tento expressar meus sentimentos pelos filmes. Não sou um herói. Sou um cineasta. Se tivesse dito algo, o que isso poderia mudar? Acho que pelo cinema posso mudar muito mais.”

Pode até ser que muita gente estranhe o reconhecimento duplo do elenco, mas, na verdade, a interpretação é fundamental e homogeneamente boa. Concedê-los a outros seria apenas para fazer uma política distributiva. A vitória tripla acaba explicitando a falta de opções em geral no festival.

O júri presidido por Isabella Rossellini continuou seguindo a lógica ao conceder o “segundo lugar”, o Grande Prêmio do Júri, para “A Torinói Ló” , de Béla Tarr. Até poderia ter sido o contrário – com “Jodaeiye Nader az Simin” como Grande Prêmio do Júri –, mas o longa do húngaro não é para tantos, até porque procura menos o drama, provoca menos emoções, apesar de ser uma realização cinematográfica impressionante. São 146 minutos de um cotidiano opressor, em que pouco acontece, e que não deixa de intrigar com suas imagens poderosas.

“Sou cineasta. Meu trabalho é mostrar e falar com você com imagens. As palavras para mim não são tão legais. Quero mostrar como sinto, o que vejo, é só isso. O mundo é sombrio, se você olhar em volta, tudo está lindo? Não acho. Talvez alguém tenha mais sorte, mais chance, todos somos diferentes, felizmente”, disse Tarr. Por conta disso, inclusive, também que sua fotografia merecia ser premiada como contribuição artística, um troféu que foi parar nas mãos de “El Premio” – o mexicano ainda embolsou outro Urso de Prata nessa categoria, para sua direção de arte.

Os outros dois longas-metragens premiados eram também os mais obviamente superiores em relação aos competidores. “The Forgiveness of Blood” , de Joshua Marston, foi reconhecido pelo roteiro. Merecia mais. E Ulrich Köhler, de “Schlafkrankheit” , foi eleito melhor diretor. Ele fez um apelo pela libertação de Jafar Panahi. “Minha razão para isso é egoísta, porque amo seus filmes. Sempre pensei que tipo de país cria tanto temor no Ocidente e faz filmes tão incríveis. Peço que o governo do Irã deixe que ele faça filmes, é um erro estratégico não deixá-lo.”

No mais, um destaque para o Urso de Ouro de melhor curta para “Paranmanjang” , de Park Chan-wook e Park Chan-kyong, rodado com iPhones e uma prova de que não importa a câmera, importa o olhar de quem filma. “Park Chan-wook me disse: ‘A diferença é que crianças agora também podem rodar filmes’. Acho que ele tem razão. Você não precisa dessas câmeras enormes, porque não dá mais do que as menores. Essa é a democratização do cinema. O mundo é cheio de diversidade, há muitos ângulos diferentes que você pode captar com uma câmera pequena”, disse o ator Oh Kwang-rok.

A lista dos premiados:

Urso de Ouro
“Jodaeiye Nader az Simin”

Urso de prata de Grande Prêmio do Júri
“A Torinói Ló”

Urso de prata de direção
Ulrich Köhler, por “Schlafkrankheit”

Urso de prata de atriz
Elenco de “Jodaeiye Nader az Simin”

Urso de prata de ator
Elenco de “Jodaeiye Nader az Simin”

Urso de prata para melhor contribuição artística
Wojciech Staron pela fotografia de “El Premio” e Barbara Enriquez pela direção de arte de “El Premio”

Urso de prata de roteiro
Joshua Marston e Andamion Murataj por “The Forgiveness of Blood”

Alfred Bauer
“Wer Wenn Nicht Wir” , de Andres Veiel

Melhor estreante
“On the Ice”, de Andrew Okpeaha MacLean

Menção especial de melhor estreante
“The Guard”, de John Michael McDonagh, e “Die Vaterlosen”, de Marie Kreutzer

Urso de Ouro de melhor curta
“Paranmanjang”, de Park Chan-wook e Park Chan-kyong

Prêmio do júri de melhor curto
“Pu-Seo-Jin Bam”, de Yang Hyo-joo

Menção especial de curta
“Fragen an Meinem Vater”, de Konrad Mühe

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