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Helena Ignez abraça cinema de sentidos em "Canção de Baal"

11/08 - 09:44 - Marco Tomazzoni, enviado a Gramado

GRAMADO – A exibição de “Canção de Baal”, que fechou a noite de segunda-feira (10) no Festival de Gramado, comprovou o que se esperava de antemão. Filme adentro, diversas pessoas levantaram-se das cadeiras e deixaram a sala. Mas muita gente seguiu firme no longa experimental de Helena Ignez e, gostando ou não, pôde conferir uma obra de espírito diferente, em desuso no cinema brasileiro.

Divulgação

"Baal" e Simone Spoladore em cena idílica

Adaptado da primeira peça escrita pelo alemão Bertold Brecht, “Canção de Baal” tem o esqueleto do texto original e é fiel à sua maneira – mantém diálogos, personagens e cenas, mas processados pela lente de Ignez, tornando a trama quase que episódica. O roteiro ainda cita a passagem de Albert Einstein pelo Brasil, cujo céu teria “inspirado” o físico a concluir a teoria da relatividade, e o áudio do depoimento de Brecht ao Comitê de Atividades Anti-Americanas por suspeitas de atividade subversiva, no auge do macarthismo.

Carlos Careqa interpreta Baal de forma única. Um misto de hippie e rock star de meia-idade, o protagonista, sempre bêbado, inspira paixão através da voz rouca a la Tom Waits e da música que toca no piano e violão. Irresistível, mulheres e homens sucumbem a seu encanto e se entregam à rotina sem medidas de Baal, repleta de álcool e sexo.

Essa mistura, claro, não resulta em uma história de formato tradicional, longe disso. Helena é ainda mais radical que seu ex-marido, o saudoso Rogério Sganzerla, ícone do cinema marginal, e abraça um cinema de sentidos, em que a força das imagens e da dramaturgia é mais importante do que a compreensão total do espectador. Como diz um personagem na cena inicial, “quando se entende uma história, é porque ela foi mal contada”. A alegoria andava adormecida nas telas brasileiras.

Filmado em suporte digital, “Canção de Baal” surpreende pela belíssima fotografia – coisa rara no formato – e pelo estilo de câmera, que sai do tripé em busca de diferentes enquadramentos. A atuação do restante do elenco, encabeçado pelas excelentes Simone Spoladore, Djin Sganzerla e Beth Golart, só completa uma obra que, se assume suas falhas, se sustenta pela proposta.

A competição brasileira continua nesta terça-feira (11) com o documentário “Cildo”, de Gustavo Moura. Na mostra latina, é a vez do peruano “La Teta Asustada”, ganhador do Urso de Ouro em Berlim. O destaque da noite, porém, deve ser a homenagem ao ator Reginaldo Faria, que receberá o troféu Oscarito pelo conjunto da obra. Antes disso, à tarde, terá início a disputa dos curtas-metragens.

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