Símbolo do declínio cubano, porto revive com investimento brasileiro

Parceria entre Brasil e Cuba pretende transformar Mariel, local de êxodo há 3 décadas, em um dos maiores portos da América Latina

BBC Brasil |

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Uma parceria entre Brasil e Cuba pretende transformar o Porto de Mariel, a 40 km de Havana, em um dos maiores da América Latina. A presidente Dilma Rousseff visita nesta terça-feira o local, que deve se tornar o principal símbolo do recente processo de abertura econômica da ilha.

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Objetivo de obras da Odebrecht é transformar Porto de Mariel, em Cuba, em um dos maiores da América Latina
Diplomacia: Dilma chega a Cuba em sua primeira visita de Estado ao país

Em quatro anos, serão investidos US$ 957 milhões, dos quais US$ 682 milhões (71%) financiados pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social). Trata-se da maior obra em Cuba desde que, em 1959, Fidel Castro liderou a revolução que o levou ao poder e instaurou o socialismo no país.

Três décadas atrás, o Porto de Mariel foi o local de partida de cerca de 125 mil cubanos que deixaram a ilha caribenha rumo aos Estados Unidos em 1980 atrás de melhores condições de vida e acabou tornando-se um símbolo da derrocada da economia cubana.

O êxodo precedeu o declínio do então maior parceiro econômico de Cuba, a União Soviética, e teve o dedo do presidente Fidel Castro, que, diante de uma onda de invasões da embaixada peruana por cubanos ansiosos por emigrar, declarou que todos que quisessem abandonar a pátria poderiam fazê-lo.

A migração em massa dos "marielitos", como ficaram conhecidos, prejudicou as ambições de reeleição do então presidente americano Jimmy Carter quando se descobriu que parte do grupo era integrada por presos e doentes mentais cubanos.

'Zona Especial de Desenvolvimento'

A viagem de Dilma a Cuba ocorre uma semana após a liberação da última parcela do empréstimo à obra, executada pela empresa brasileira Odebrecht, iniciada em 2010 e prevista para terminar em 2014. Em visita ao porto em setembro, o presidente Raúl Castro, que sucedeu ao irmão Fidel em 2008, afirmou: "Esta obra tem uma importância econômica extraordinária, não só para o desenvolvimento presente do país, mas também para o futuro."

O empreendimento inclui uma "zona especial de desenvolvimento" de 400 quilômetros quadrados, que abrigará indústrias voltadas à exportação e ao mercado cubano. Segundo diplomatas brasileiros, além de ajudar Cuba em sua missão de "atualizar" o socialismo e diversificar suas fontes de receitas, a ampliação do porto abrirá oportunidades de negócios para empresas brasileiras interessadas em se instalar ou expandir as operações na América Central.

E caso os Estados Unidos suspendam seu embargo econômico à ilha, as empresas instaladas no porto terão acesso privilegiado ao maior mercado global, uma vez que Mariel está a apenas 160 km do Estado americano da Flórida.

Fábrica de vidro

Por ora, uma companhia brasileira - a fabricante de vidro Fanavid - já se prepara para abrir uma unidade no local em associação com o governo cubano. Cerca de 80% da produção da fábrica deverá se destinar à exportação.

As obras em Mariel incluem também ações para facilitar o acesso de produtos ao porto, como a reforma de mais de 30 km de estradas e a construção de 18 km de rodovias, 63 km de estrutura para ferrovias e quase 13 km de vias ferroviárias.

Com a dragagem do porto, que permitirá seu uso por navios de grande calado, ele poderá movimentar 1 milhão de contêineres por ano. Comparado com portos brasileiros, Mariel só terá capacidade inferior ao de Santos, que em 2011 movimentou 2,7 milhões de contêineres.

Também serão construídos 700 metros de cais para o terminal de contêineres, um centro de carga, pátios, redes de abastecimento de água e tratamento de resíduos, além de toda infraestrutura para o fornecimento de energia elétrica. Atualmente 2,7 mil trabalhadores atuam nas obras; após a conclusão do porto, espera-se que ele gere 3 mil empregos diretos e 5 mil indiretos.

Notoriedade histórica

Com a reabertura de Mariel, o porto deve recuperar a notoriedade que experimentou há décadas, mesmo antes do êxodo dos "marielitos" rumo à Flórida, em 1980. Em 1962, auge da Guerra Fria e no caso que ficou conhecido como a Crise dos Mísseis de Cuba, aviões americanos fotografaram sete barcos lança-mísseis Komar, de fabricação soviética, ancorados no porto.

A descoberta desatou temores nos Estados Unidos de que os soviéticos estivessem se preparando para um ataque nuclear às terras americanas, suspeita reforçada após a divulgação de imagens que mostravam cerca de 40 silos para abrigar armas atômicas em Cuba.

Em discurso, o presidente americano John F. Kennedy ameaçou atacar Cuba caso o país se tornasse uma base militar soviética. Uma semana depois, o Senado americano aprovou o uso da força para garantir a segurança dos Estados Unidos diante da ameaça das instalações russas.

Já Nikita Kruschev, à época o primeiro-ministro soviético, disse que os mísseis visavam apenas a defender Cuba de eventuais invasões. A precaução se justificava por acontecimento do ano anterior, quando cubanos residentes na Flórida patrocinados pelos Estados Unidos fracassaram após tentar invadir Cuba pela Baía dos Porcos.

Os temores de que a Crise dos Mísseis poderia desencadear uma guerra nuclear, porém, jamais se concretizaram.

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