Ao iG, principal dissidente político de Cuba diz que governo se engana ao pensar que sempre controlará cubanos pela força e medo

A verdadeira oposição cubana não está representada nos blogs , diz o ativista Oswaldo Payá , de 58 anos, considerado o mais importante dissidente político de Cuba. Segundo o ganhador de 2002 do Prêmio Sakharov, concedido anualmente pelo Parlamento Europeu àqueles que dedicaram suas vidas aos direitos humanos, há um amplo movimento cívico que luta incógnito juntamente com a população nas províncias do país para reivindicar mudanças pacíficas e reais na Ilha.

"Em Cuba há muitos ativistas de direitos humanos, em nosso movimento e em outros, que não têm blogs, não são famosos, não são notícia. Mas eles estão em todo o país perseguidos, dando testemunho, animando os cidadãos. Os blogs não são ruins, mas não se pode supor que essa seja a oposição", afirmou ao iG em uma tarde de chuva em sua casa no Município do Cerro, na cidade de Havana.

Ativista Oswaldo Payá, considerado o principal dissidente político de Cuba, em sua casa no Município de Cerro, na cidade de Havana
Leda Balbino
Ativista Oswaldo Payá, considerado o principal dissidente político de Cuba, em sua casa no Município de Cerro, na cidade de Havana
Próximo da Igreja Católica, Payá impulsionou em 2002 um projeto de lei para promover, além de liberdades de associação, expressão, imprensa e de religião, eleições multipartidárias, reformas econômicas e anistia para os presos políticos em Cuba.

A iniciativa, conhecida como Projeto Varela , baseou-se no artigo 88 da Constituição de Cuba de 1976, que permite aos cidadãos propor leis se 10 mil pessoas assinarem a petição. Seu Movimento Cristão de Libertação anunciou ter coletado 11.020 assinaturas, mas a proposta foi rejeitada pela Assembleia Nacional, que contra-atacou promovendo um referendo para emendar a Constituição e tornar permanente a natureza socialista do Estado cubano.

Apesar de membros do Projeto Varela terem sido alvo da onda repressiva da Primavera Negra de 2003 que encarcerou 75 ativistas políticos , Payá continua promovendo iniciativas pela mudança em Cuba, que considera improvável que decorra do anúncio do governo de que concederá licenças de trabalho por conta própria. "(O anúncio) foi superdimensionado na publicidade para ocultar o que significa mais de 1 milhão de trabalhadores desalojados , algo impossível de compensar", afirmou.

Com tantas pessoas desempregadas, Payá compartilha a preocupação de muitos cubanos de que deve haver aumento da violência , sugerindo que ela possa até se tornar uma revolta política. "Muitos veem o país como um destino turístico, um negócio, e confiam que a população está dominada e anestesiada, mas se equivocam", disse. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

iG: Muitos no exterior consideram a decisão de Cuba de conceder licenças para atividades particulares como um ensaio para uma abertura econômica. Como o sr. vê essa avaliação?
Oswaldo Payá: Há uma verdadeira corrente muito superficial que diz: ‘Agora os cubanos poderão lavar roupa por conta própria, empurrar carrinhos de mão e abrir uma pequena cafeteria com sua família’. Mas essas são as mesmas condições que se estendem desde a Colônia (espanhola, de 1509 a 1898). Em primeiro lugar, essa medida não foi estabelecida como direito, mas como algo que pode ser concedido a uma pessoa e não a outra. Em segundo, muitas das atividades por conta própria já existiam e foram superdimensionadas na publicidade para ocultar o que significa mais de 1 milhão de trabalhadores desalojados, algo impossível de compensar. Em terceiro, só graduados até 1964 na universidade ou no ensino técnico poderão exercer sua profissão como negócio. Ou seja, são pessoas com pelo menos 70 anos. Em Cuba quem pode ter negócios é um setor privilegiado do governo, uma oligarquia poderosa. Ela tem os filhos no estrangeiro, grandes residências, muitos carros e dólares. Muitos olham para Cuba e só veem Che Guevara, Fidel Castro, a Revolução, e em nenhum momento que há 12 milhões de seres humanos com direito aos direitos. Ainda que haja educação e saúde públicas gratuitas, os cubanos nunca escolhemos viver sem liberdade.

iG: A prosperidade dos ‘contapropistas’ não pode possibilitar uma eventual mudança política?
Payá: Essa avaliação esquece que a economia de mercado pode conviver com a ditadura. Na América Latina há exemplos disso, enquanto a China mostra que é possível abrir a economia com o controle da oligarquia e sem direitos. As atividades por conta própria não significam uma abertura real, porque, para esse regime, os direitos, a possibilidade de que os cubanos possam ter empresas, viajar e expressar-se livremente, ter partidos políticos são incompatíveis com o poder totalitário e absoluto.

iG: Muitos temem o aumento da violência com as demissões . A situação pode sair do controle?
Payá: A tendência vai nessa direção. E é necessário tê-la muito em conta, porque o governo usou o mecanismo da violência, do encarceramento, da coerção nas escolas infantis, nas universidades, no ambiente de trabalho, nas ruas. Somos uma sociedade contida pelo medo, enquanto há grandes diferenças econômicas, muita pobreza e uma grande parte dos cubanos vivendo em condições marginais ou com condutas marginais, ainda que saibam ler, escrever e sejam técnicos. Eles têm essa conduta porque se generalizaram desgraçadamente a falsificação, o contrabando, a busca de meios paralelos para sobreviver. Tudo isso gerou uma grande violência reprimida e uma tendência ao bandalismo. E o governo crê que sempre conseguirá controlar a sociedade pela força e pelo medo. Ele está enganando e se enganando. É uma cegueira, porque supõem que pode haver um processo de sucessão em que o grupo de poder que envelhece deixa seus sucessores, sendo os únicos ricos, com todo poder. Mas isso pode desatar uma falta de controle e muito mais dor e violência a Cuba. Muitos veem o país como um destino turístico, um negócio, e confiam que a população está dominada e anestesiada, mas se equivocam, pois é totalmente o contrário. Não estamos ameaçando, não temos nenhum plano de violência, mas temos pressa e sentido de urgência. Porque o povo de Cuba tem direito a viver livre já.

iG: Como conseguir uma mudança pacífica do regime?
Payá: A essência da contradição do regime está na falta de liberdade e direitos. É o mal de todos os males. E a essência da solução está nos direitos e na reconciliação que não se dão por decreto. A mudança tem de ser entre cubanos, pacificamente, sem intervenção estrangeira. Se houver uma mudança por meio do movimento cívico e pacífico, haverá ordem, participação e possibilidade de justiça. Nosso Movimento Cristão de Libertação impulsiona o Fórum Todos Cubanos para buscar a reconciliação, o diálogo, mas também a reivindicação dos direitos pelos cidadãos. Começamos uma campanha pelo Projeto Eredia, em homenagem a José Maria Eredia, poeta cubano que teve de viver no desterro por causa dos colonialistas. Estamos promovendo um referendo para mudar a lei e tornar um direito aos cubanos viajar, entrar e sair livremente do país. Mas também para que não se deportem mais cubanos dentro do próprio país, porque os pobres que migram em busca de trabalho são reenviados pela polícia às suas províncias de origem, podendo até mesmo ser condenados por periculosidade. É uma lei que pode sentenciar a até quatro anos uma pessoa por seu suposto potencial para cometer um delito, ainda que não o tenha cometido. Isso está no Código Penal, não inventei.

Primeiro grupo de cubanos soltos por Cuba acenam após chegada a Madri, na Espanha (13/07/2010)
© AP
Primeiro grupo de cubanos soltos por Cuba acenam após chegada a Madri, na Espanha (13/07/2010)

iG: Qual o objetivo do governo com a libertação dos 52 prisioneiros políticos ?
Payá: Ele quer fechar um capítulo que não se fecha. O ato de desencarcerar essas pessoas na porta do avião não pode ser chamado de libertação – porque uma pessoa só é libertada quando pode ir à sua casa, o que até agora não aconteceu. Esse capítulo se abriu com nosso movimento, que impulsionou o Projeto Varela , em que pela primeira vez milhares de cubanos romperam a barreira do medo e pediram algo sustentável: direitos que significam mudanças. O que esse projeto queria? A soberania popular. Queríamos liberdade de expressão, de associação, sindicatos verdadeiros, que pudéssemos ter negócios, empresas. Nosso movimento não impulsiona o capitalismo selvagem, porque ele existe no comunismo selvagem, em que a oligarquia é o único capitalista e, além disso, detém todo o poder político, a imprensa e um partido e presidente únicos por 50 anos. Como resposta, o governo prendeu vários de nossos membros e manteve uma forte pressão sobre o restante. E agora esconde a cabeça como o avestruz ao deportar esses líderes, porque a necessidade do povo continua sendo a mesma. Se não há direitos, não há mudança verdadeira e o povo segue insatisfeito.

iG: Muitos apontam o fato de o sr. ser conhecido fora de Cuba e de ter sido premiado no exterior como motivos para não ter sido preso. Concorda com essa avaliação?
Payá: Não posso explicar a lógica do governo. Não quero presumir do fato de que fiquei conhecido ou fui premiado. Apesar de o governo ser preocupado com sua imagem internacional, passa por cima disso e me prende em um segundo. Espero todos os dias e noites, e minha família vive assim também. Há esse temor, mas não é algo que vá nos modificar e mudar nossa luta. Meus filhos cresceram vendo automóveis da Segurança do Estado, atos de repúdio, vigilância, até seus amigos com quem vão a festas foram capturados pela Segurança do Estado como a máfia, para serem ameaçados. Ou seja, (fora da prisão) há uma grande prisão também.

iG: Quantas pessoas estão no Movimento Cristão de Libertação?
Payá: Ele é pequeno, porque muitos tiveram de ir ao exílio, enquanto sua direção é composta quase totalmente pelos que estão sendo deportados. O movimento tem cerca de 300 militantes, e eles são muito perseguidos. E há mil simpatizantes em todo o país. Mais no interior, porque há mais consciência social onde há mais pobreza.

iG: Os blogs representam a oposição cubana ?
Payá: Há uma tendência de substituir a oposição de base, de um movimento cívico amplo, por uns blogs, por algumas pessoas que podem escrever. Não tenho blog nem posso ter. Em Cuba há muitos dirigentes e ativistas de direitos humanos, em nosso movimento e em outros, que não têm blogs, não são famosos, não são notícia. Mas eles estão em todo o país perseguidos, dando testemunho, animando os cidadãos. Não digo que os blogs sejam ruins, mas não se pode supor que essa seja a oposição. Eles são a oposição visível, que se permite ver. Há outra muito maior em todas as províncias, com campanhas que buscam mudanças verdadeiras. Essa oposição majoritária está em desvantagem pela falta de informação, de que a imprensa a cubra, de que fale sobre ela. A luta cívica nem sempre é espetacular nem uma notícia. Nem sequer se pode dizer que todos os blogs estejam vinculados à oposição solidariamente, porque há pessoas que têm a oportunidade de fazer um blog, mas não representam a oposição ou estão vinculados a nós nem a nossas campanhas. Estão vinculados a eles mesmos. Têm todo o direito, mas dizemos: ‘Queremos ser voz dos que não têm voz, e voz dos que não têm blogs.’

iG: Apesar de tudo, muitos cubanos negam querer uma mudança política? Por quê?
Payá: Não é leal tirar uma conclusão sobre a vontade do povo de Cuba com uma pergunta sobre se querem uma mudança de governo quando se sabe que há vigilância, desconfiança, medo. A forma correta de questionar isso é como foi proposto pelo Projeto Varela. Por meio de um referendo, perguntar se os cubanos querem mudanças políticas. Porque essa história é muito velha. Também na África do Sul do apartheid (regime de segregação racial) houve momentos em que se dizia: 'Os negros estão bem aqui, eles não querem mudanças.' Os Estados racistas dos EUA também achavam que estava tudo bem. Pergunta-se aos escravos: ‘Você ama seu amo?’, ‘Sim, ele é muito bom’. Como se pode perguntar a uma pessoa se ela quer ser livre ou não? Isso por si mesmo é a expressão do dano antropológico que faz uma cultura do medo de um regime totalitário.

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