'Não nos interessa a sucessão da tirania', diz opositor cubano

Principal voz da oposição dentro da ilha, Oswaldo Payá diz ao iG que mudanças política e econômicas são cortina de fumaça

Ricardo Galhardo, enviado a Havana, Cuba |

Integrante do Movimento Cristão para Libertação, grupo dissidente ligado à Igreja Católica cubana, o médico Oswaldo Payá é há alguns anos a principal voz de oposição dentro da ilha. Sete meses depois de dar sua primeira entrevista ao iG , Payá continua descrente quanto ao futuro do país.

Segundo ele, as mudanças políticas e econômicas aprovadas no 6º Congresso do Partido Comunista são uma cortina de fumaça para a perpetuação do regime e o fato de apenas um partido decidir o futuro de toda uma nação é, por si só, uma usurpação da soberania popular.

Leia os principais trechos da entrevista:

iG: As mudanças aprovadas no 6º Congresso do Partido Comunista podem representar o início da abertura em Cuba?

Oswaldo Payá: O congresso do partido é em si mesmo uma usurpação da soberania popular porque deve ser o povo em eleições livres, com liberdade de expressão e associação, quem decide seu futuro e não um Partido Comunista de um povo que não é comunista. O congresso é a confirmação do totalitarismo e não a abertura à liberdade.

iG: As críticas de Raúl Castro ao sistema não indicam que algo vai mudar?

Payá: O que há na verdade é uma burla ao povo cubano porque Raúl Castro se comporta como se até agora outras pessoas tivessem governado o país. Ele e Fidel são os responsáveis pela ruína. Depois de 50 anos Raúl faz umas críticas e joga a culpa do povo.

iG: Qual o sistema político que o senhor e seu grupo defendem para Cuba?

Payá: O povo cubano nunca quis este sistema. Nunca quisemos o leninismo, tampouco queremos o capitalismo selvagem. Achamos que nem o governo nem o mercado podem ficar acima das pessoas. Não é uma questão de ideologia. Não defendemos a implantação do neoliberalismo em Cuba. Até porque já vivemos um comunismo selvagem. O que defendemos, de maneira radical, mente pacífica, é a liberdade. Pois neste sistema nem os próprios membros do partido são livres. Quem manda são Raúl, Fidel e meia dúzia de generais.

iG : O projeto de reformas propõe muitas mudanças na economia. Durante o congresso Raúl também sugeriu reformas na política como, por exemplo, a limitação dos mandatos a dois períodos de 5 anos. Qual sua opinião sobre estas propostas?

Payá: Em primeiro lugar Raúl deveria predicar com o exemplo. O comitê central do partido e todo o conselho de Estado já estão há uns bons 10 períodos de 5 anos e portanto estão atrasados.

iG: Raúl convocou uma convenção do partido para janeiro na qual serão escolhidos novos nomes para o comitê central. Há esperança de renovação?

Payá: Eles deveriam fazer eleições livres. Não nos interessa a sucessão na tirania. Não adianta nada eles ficarem falando e calculando suas idades e dizendo que virão outros. Virão outros para que? Para continuar a tirania?

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