Na Cuba sem anúncios, artista da Revolução busca propaganda

Escultor fez três monumentos para o governo cubano e exemplifica ascensão social daqueles que trabalham para o regime

Leda Balbino, enviada especial a Havana, Cuba | 18/10/2010 08:01

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Foto: Leda Balbino

O artista cubano Agustín Hernández Carlos posa em frente de prédio da União de Jovens Comunistas Cubanos, que exibe uma de suas obras

Na Cuba de anúncios proibidos, onde só se veem cartazes em defesa da Revolução Cubana de 1959, o artista plástico Agustín Hernández Carlos busca meios de promover sua arte. Enquanto esperava na fila do lado de fora da Etcsa (companhia de telefonia de Cuba) para pôr créditos em seu celular, o cubano de 31 anos aproveitou uma deixa na conversa que mantinha com uma estrangeira para indicar que era um escultor promissor.

Como prova, contou ter feito três trabalhos sob encomenda do governo cubano em defesa da Revolução, com monumentos cujas fotos guardadas no celular exibiu como se fossem filhos. Um dos maiores motivos de orgulho é uma escultura de aço, forrada com material que se ilumina à noite, que criou no ano passado para adornar a fachada da União de Jovens Comunistas Cubanos em Havana.

A obra mostra lado a lado imagens de Julio Antonio Mella, fundador do Partido Comunista de Cuba, de Camilo Cienfuegos Gorriarán, um dos principais líderes da Revolução de 59, e do argentino Ernesto Che Guevara, o revolucionário-ícone comunista.

Para fazê-la, Agustín precisou de seis meses e contou com a concessão de um carro do governo cubano para que pudesse se locomover mais depressa e acelerar a conclusão do trabalho. “Era um carrão. Depois que acabei, tive de devolver”, disse rindo o artista plástico.

Formado em 1999 na Academia de Artes Plásticas da Província de Camaguey, de onde partiu em direção a Havana há quatro anos, Agustín tem outros dois monumentos revolucionários na ilha. Um deles, uma homenagem a Che Guevara, foi concluído em 2007 na Loma del Taburete, em Piñar del Río, para marcar os 40 anos da morte do guerrilheiro. Foram necessários três meses de acampamento na colina para concluir a obra que, de acordo com ele, foi noticiada pela primeira vez na rede de TV americana CNN.

Agustín é exceção na regra de rendas módicas de Cuba. Em um bom mês, consegue ganhar US$ 200 - dez vezes mais do que o salário médio equivalente a US$ 20 dos cubanos -, o que lhe permite confortos como andar de táxi e ter um celular.

Apesar de a restrição para a posse de aparelhos de telefonia móvel ter sido levantada pelo presidente Raúl Castro em 2008, há ainda poucos cubanos que se dão a esse luxo. Para uma população que recebe nos desvalorizados pesos cubanos, os preços em CUCs (pesos conversíveis, com valor equivalente ao dólar), são proibitivos. Para comprar um aparelho precisam desembolsar pelo menos US$ 100 (ou US$ 50 no mercado negro), mais US$ 40 pela linha e US$ 10 para os créditos mensais. Muitos contam com a ajuda de parentes no exterior para comprar e manter o produto.

Foto: Leda Balbino

Cubanos fazem fila do lado de fora do Telepunto Etcsa para receber atendimento em telefonia

 A relativa boa renda de Agustín não se deve ao trabalho como professor de quatro turmas aspirantes a escultores da Academia de Artes Plásticas de San Antonio de los Años, pelo qual ganha US$ 30 por mês do Estado. Além dos eventuais trabalhos pró-revolucionários para o governo, Agustín vende suas esculturas para aumentar a renda. Na internet, obras suas são anunciadas com preços entre 500 euros e 1 mil euros.

Engajamento

Com um chapéu que o protege do calor úmido de Havana, e não abandona sua cabeça mesmo no ambiente fechado de uma sorveteria, Agustín pode passar horas ininterruptas relembrando o histórico de exploração de Cuba por países estrangeiros e pelo ditador pró-EUA Fulgencio Batista para defender os irmãos Castro.

Mas, em uma sociedade que privilegia o valor coletivo à ascensão individual, Agustín deixa claro seu orgulho por sua trajetória pessoal, sugerindo que suas boas perspectivas se devem a seus esforços pessoais e não somente pelas boas relações com o regime. “Temos de deixar de ser o único país do mundo onde se ganha sem trabalhar”, disse, repetindo letra por letra frase do presidente Raúl Castro dita na Assembleia Nacional em agosto. “Há gente que passa o dia inteiro jogando dominó e sobrevive com o que vende no mercado negro”, afirmou.

No pronunciamento de agosto, Raúl indicou pela primeira vez que pelo menos 1 milhão de postos no aparato estatal – ou 20% dos quase 5,1 milhões da força de trabalho cubana – eram desnecessários. Em 13 de setembro, Raúl delegou à Confederação de Trabalhadores Cubanos (CTC), sindicato que em qualquer lugar do mundo defenderia a manutenção dos postos de trabalho, a tarefa de anunciar a demissão de mais de 500 mil funcionários estatais até o fim do primeiro trimestre do próximo ano.

Agustín indica que o fenômeno das funções desnecessárias existe na escola onde trabalha. Segundo ele, pelo menos duas pessoas foram demitidas por ocupar vagas obsoletas. “Sou o único professor de escultura, e dou aulas para quatro turmas, enquanto há quatro ou cinco professores para outras aulas de arte”, afirmou.

Foto: Leda Balbino

Obra de Agustín Hernández Carlos. Da esq. para a dir.: Julio Antonio Mella, fundador do Partido Comunista de Cuba, e os líderes Camilo Cienfuegos e Che Guevara

Agustín agora espera a confirmação de uma viagem à Venezuela, em um projeto de intercâmbio entre os dois governos. Descrevendo-se como caseiro, o artista lamenta a provável distância por um ano de sua mulher, seu filho de 7 anos e de sua mãe, mas ao mesmo tempo acha bom que continuará recebendo seu salário do Estado enquanto estiver fora do país. “Além disso, também receberei um pagamento da Venezuela”, contou.

Ao se despedir de sua interlocutora, Agustín deixa claro que sabia desde o início que se tratava de uma jornalista: “Não há por que negar.” E, ao ouvir que seu relato poderia ser misturado ao de outros personagens em uma mesma matéria, mostrou que a ideia não lhe agradava. Numa mostra de que o efeito positivo da divulgação para um negócio já é um conceito claro mesmo para os mais fieis revolucionários, afirmou: “Ah, acho que dá uma matéria única. Minha história é particular.”

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