Mesmo sob risco de perder direitos, cubanos sonham em partir

Apesar da burocracia cara e do risco de se tornar apátridas, muitos desejam sair de Cuba por não ver perspectiva de futuro na Ilha

Leda Balbino, enviada a Havana, Cuba |

Com 18 anos, Juan é um cubano cheio de potencial. Com uma bagagem cultural impressionante para a pouca idade, ele sonha em poder continuar seus estudos e seguir carreira como design. Mas, morador de um país economicamente em ruína e sem liberdades civis, ele sabe não haver muitas perspectivas em Cuba. “Não vai ter jeito”, concordou sua mãe. “Ele terá de sair daqui.”

O caso de Juan não é isolado. Apesar da burocracia cara e do risco de retaliações para quem deixa o país para sempre, a descrença com o futuro da Ilha estimula em muitos o desejo de partir ou de deixar que seus filhos o façam.

Com o ex-marido vivendo na Europa, uma ex-funcionária de um restaurante não hesitou quando surgiu a oportunidade de sua filha de 15 anos morar no exterior. “Sinto muitas saudades, mas como poderia não deixá-la ir? Aqui não há futuro.”

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Homem vende bandeiras dos EUA e de Cuba na Calle Ocho, no bairro de Little Havana, da comunidade cubana em Miami (EUA)
Nos últimos 51 anos desde a Revolução, muitos cubanos deixaram a Ilha em busca de condições políticas e econômicas alternativas. Mais de 2 milhões, dos quais 1,6 milhão de cubano-americanos (imigrantes e seus descendentes), estão fora de Cuba, em países como EUA, Espanha, México, Canadá e Suécia.

Como não exige visto, o Equador recentemente se tornou um ímã para muitos. Segundo a Agência de Imigração Nacional, em 2009 chegaram ao país 27.114 cubanos, o que representa um aumento de 147% em relação ao ano anterior. O número de cubanos que se casaram com equatorianos pulou de 88 em 2007 para 1.542 nos primeiros nove meses de 2009.

Em Havana, alguns deixam claro que têm o sonho de se casar com um estrangeiro para poder sair do país. Com 36 anos, Lázaro vende no mercado negro charutos roubados e caminha pela capital cubana com a esperança de encontrar uma turista que o leve do país. Seu tio, conta, encontrou uma espanhola, casou-se e agora vive na Espanha. “Quem consegue sair também pode ajudar sua família que ficou”, disse.

Mas ele omite um detalhe. Muitos querem casar-se com estrangeiros porque, dessa forma, podem sair sem o risco de retaliações e sem perder o direito de ser cubano.

Cubanos que viajam por meio da “carta de invitación” – convite feito por uma instituição ou pessoa física no exterior – só têm permissão de ficar 11 meses no estrangeiro. Se não voltarem depois desse período, ficam rotulados como “cubano que está fora permanentemente” e só podem voltar ao país como turistas. Ou seja, se não tiverem cidadania de outro país, tornam-se apátridas.

Isso aconteceu, por exemplo, com a adolescente de 15 anos que atualmente vive na Europa. Mas se fosse sua mãe quem tivesse partido, o governo poderia confiscar suas propriedades, como a casa, as louças, os móveis, os enfeites de mesa, o refrigerador, a televisão – todos os bens que tivesse adquirido ao longo dos anos com seu trabalho.

Burocracia cara

Outro fator que pretende funcionar como um desestímulo para sair da Ilha é a burocracia. Apesar de o salário médio do país ser pago nos desvalorizados pesos cubanos e equivaler a US$ 20, todos os documentos da viagem são pagos em pesos conversíveis, cuja cotação 24 vezes superior se equipara ao dólar.

Para emitir o passaporte, que tem validade de seis anos e precisa ser renovado a cada dois anos por US$ 20, desembolsam-se US$ 55. Para obter o selo de permissão de saída, pagam-se US$ 150. Além disso, a viagem tem de ser aprovada por um órgão superior. Viagens de médicos e enfermeiros, por exemplo, têm de ser permitidas pelo Ministério da Saúde.

Se conseguir viajar, o cubano tem de pagar uma soma por cada um dos 11 meses de ausência para poder voltar mantendo seus direitos. Após esse pagamento, que varia de acordo com cada país visitado, um selo de autorização é colado no passaporte.

Leda Balbino
Cubano Yosef, de 25 anos: 'Gostaria de conhecer qualquer lugar que tivesse luz'
Alguns, porém, desafiam o sistema. Depois de dois anos em Zurique, na Suíça, a blogueira Yoani Sanchéz decidiu em 2004 que voltaria a Havana com seu filho de 8 anos para ficar. Como pela lei só poderia voltar como turista e permanecer por no máximo um mês, comprou duas passagens de ida e volta.

Depois de passadas as duas semanas em que supostamente ficaria no país, questionou várias pessoas para saber o que teria de fazer para não ser deportada. Só uma delas disse que uma possível saída seria destruir seu passaporte e o do filho. “Sem eles, não podem te obrigar a entrar em um avião”, ouviu.

O plano funcionou. Dois meses após ter-se apresentado ao serviço de imigração dizendo que não tinham os passaportes, ela e o filho receberam novos documentos de identidade. “Apesar de muitos considerarem o que fiz insensato, mostrei que era possível”, escreveu em seu blog Generación Y.

Nas ruas de Havana, onde a luz produzida por petróleo é pouca por questões de economia, há também muitos que não necessariamente pensam em deixar Cuba em definitivo. Eles só gostariam de ter o direito de ir e vir. De viajar para conhecer outros países como qualquer turista do mundo.

Yosef Sotosamora, de 25 anos, que conduz charretes para passeios turísticos, é um deles. Quando questionado se gostaria de viajar, diz: “Sim, gostaria de visitar outros países.” Quais? “Qualquer lugar que tivesse luz. Havana é muito escura.”

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