'Me sinto entre o temor e a esperança', diz deputado cubano

Ligado ao governo, pastor protestante Raúl Suárez diz ao iG que reformas econômicas buscam garantir continuidade do socialismo

Ricardo Galhardo, enviado a Havana, Cuba |

Coordenador do Centro Martin Luther King de educação popular, secretrário executivo do Conselho de Igrejas e deputado ligado ao governo cubano, o pastor protestante Raúl Suárez disse, em entrevista ao iG , que o objetivo das reformas econômicas aprovadas no 6º Congresso do partido Comunista não é uma guinada rumo ao capitalismo. Ao contrário, a idéia é fortalecer a economia para garantir a continuidade do sistema socialista em vigor há mais de 50 anos.

Embora seja próximo ao regime que defende com ênfase, Suarez, assim como a grande maioria dos 11 milhões de cubanos, admite que tem dúvidas sobre as mudanças em curso. “Estamos entre o temor e a esperança”, disse ele.

Ricardo Galhardo
O pastor protestante Raúl Suárez, deputado ligado ao governo cubano

iG: Do ponto de vista histórico, qual a importância das decisões tomadas no 6º Congresso do Partido Comunista?

Raúl Suárez: Havia num certo sentido um vazio institucional em relação à periodicidade dos congressos e uma das primeiras coisas que Raul Castro fez ao assumir foi anunciar a celebração deste congresso. E sustentava essencialmente dois argumentos sobre o que pensava o líder máximo da Revolução, o companheiro Fidel, que são o sentido do momento histórico e mudar tudo o que deve ser mudado. Até que foi feita a convocatória e aparece a reforma econômica e social e a partir daí o documento começou a ser discutido em todo o país. Nas palavras de Raúl, é o povo que decidirá o modelo a ser adotado.

iG: Mas como o povo pode decidir se está tudo sob controle de apenas um partido?

Suárez: Não está sendo decidido só pelo partido. Este documento foi submetido a 8 milhões de pessoas.

iG: Mas 8 milhões de pessoas representam 73% da população cubana. Se este número for verdadeiro até as crianças participaram.

Suárez: Oito milhões participaram segundo o informe oficial que foi apresentado.

iG: Então as crianças também participaram?

Suárez: Estou dizendo o dado oficial que deram. Eu participei. Aqui no Centro Martin Luther King nós nos reunimos, fizemos propostas.

iG: As pessoas que não são do partido também?

Suárez: Não havia uma lista. Foi feita uma convocatória ampla para todos. Eu participei em 10 debates e creio que é um exemplo de que as coisas não são decididas de cima para baixo como se faz em outros países onde o Executivo decide por todos os demais.

iG: Um Executivo escolhido pelo povo em eleições democráticas.

Suárez: Como aqui também. Eu sou membro do Parlamento cubano. Fui eleito pelo povo e não sou membro do PC. Mas você veio fazer uma entrevista ou veio discutir política comigo?

iG: Como entrevistador tenho a obrigação de contestá-lo.

Suárez: Vejo em você uma atitude pré-determinada. Você não faz uma entrevista. Já veio com o artigo pronto. Me perdoe por reagir assim mas se você me contesta sobre Cuba eu também vou contestá-lo sobre o Brasil. Não há nenhum país modelo. Estou repetindo o informe que foi dado. Não sei se é real ou não. Eu participei. Não sou político! Sou apenas um pastor dessa igreja mas entendo que temos que participar da vida política porque a vida do planeta vai mal por estar nas mãos dos políticos.

iG: As mudanças propostas pelo Partido Comunista podem representar o início de uma abertura do regime cubano?

Suárez: A definição que se tem divulgado é que não vamos copiar nenhum modelo econômico atual. Mas vamos aprender com todos, inclusive com o capitalismo, pois há coisas no capitalismo como a organização e outros fatores que não tem necessariamente que ser ruins. O que estamos fazendo é uma tentativa de reiniciar e adequar nossa situação à realidade em que vive a humanidade hoje. Às vezes a realidade impede que façamos as coisas que gostaríamos de fazer. O que devemos fazer é buscar uma projeção econômica mais realista e objetiva. E que os avanços da Revolução devem ser mantidos mas também devem ser afetados em algum ponto porque são resultados do idealismo daquele momento como, por exemplo, que todo mundo tenha um emprego, que todo mundo possa estudar na universidade. Mas até onde é possível levar uma sociedade assim se não temos os recursos naturais que têm outros países? Somos uma ilha estreita. Na minha perspectiva não há uma renúncia social.

iG : A extinção da “ libreta de abastecimento ” não é uma renúncia?

Suarez: Não. O que se propõe é um projeto de sociedade no qual se busque que o salário seja suficiente para viver. O 6º Congresso do Partido Comunista aprovou a possibilidade de que a população possa tomar créditos bancários e compre os produtos em vez de recebê-los pela “libreta”.

iG: Qual a extensão das mudanças em Cuba?

Suárez: Creio que há uma mudança significativa no sentido de fortalecer um projeto socialista de sociedade. A aspiração dos EUA é que haja uma mudança rumo ao capitalismo e à democracia burguesa. Eu, pessoalmente, não gostaria disso. Vivi o capitalismo em Cuba e não posso comparar aquilo com o que existe hoje no país. Eu, como todos os cubanos, me sinto entre o temor e a esperança.

iG: As mudanças na economia serão acompanhadas de reformas políticas?

Suárez: Necessariamente vai ter que ser assim. O mundo no qual vivemos é muito dinâmico e supressivo. Nada pode petrificar-se. Em alguns lugares o capitalismo também não é o mesmo de 15 anos atrás.

iG: As reformas se estenderão às liberdades pessoais e direitos humanos?

Suarez: Este é um tema muito complexo. Creio que Cuba iniciou, com a Revolução, um processo de valorização dos autênticos direitos humanos. Tudo é direito humano e o principal deles é o direito à vida. Cuba iniciou este processo pois foi com a Revolução que me senti pela primeira vez como um ser humano. Mas até que ponto o contexto internacional ajudou o processo em Cuba? A primeira coisa que fizeram foi isolar Cuba.

iG: Como explicar isso aos jovens que não viveram antes da Revolução e hoje reivindicam direitos básicos, iguais aos de todos os jovens do mundo, como o acesso á internet?

Suárez: Isso é falso. Não são todos os jovens do mundo que tem acesso à internet. Não me diga isso. Nem no Brasil. O Brasil que aparece nas telenovelas não é o Brasil real. Com que recursos daríamos acesso à internet? Aqui se trata primeiro de colocar comida no prato. É isso que estamos tentando resolver agora. Além disso o que você quer? Que incentivemos jornalistas dissidentes? Que apoiemos um país que quer nos derrubar? Isso não é justo.

iG: O 6º Congresso do PC é uma autocrítica em relação ao que foi feito nestes 50 anos?

Suárez: Certamente. O Informe de Raúl Castro é uma crítica ao estilo de trabalho do partido e também ao modelo econômico que tivemos. Estas mudanças não são fáceis principalmente para as pessoas da minha idade. Nenhum país do mundo fez mudanças dessa magnitude.

    Leia tudo sobre: cubacongresso do partido comunistafidelraúl castro

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG