Jornal oficial é retrato da inércia e burocracia de Cuba

Criado em 1965, "Granma" enfrenta crise, perde espaço para site Cubadebate e é criticado até pelo governo

Ricardo Galhardo, enviado a Havana, Cuba |

A imprensa cubana produz matérias chatas, improvisadas e superficiais. A opinião não é de nenhum analista estrangeiro, dissidente ou blogueiro cubano. É de ninguém menos do que o presidente de Cuba, Raúl Castro, que no último sábado fez duras críticas ao jornalismo praticado na ilha, não sem razão.

Nenhum veículo representa melhor a inércia e burocracia da imprensa oficial cubana do que o “Granma”, órgão oficial do Partido Comunista de Cuba, criado em 1965, e cujo nome foi inspirado no barco que levou de volta Fidel Castro e seus 81 companheiros para a ilha em 1956, dando início à revolução.

O jornal hoje vive uma crise. Como se não bastassem as críticas de Raúl, o “Granma” vem perdendo espaço em penetração e importância para o site Cubadebate , também oficial. Na segunda-feira, por exemplo, foi o site e não o jornal o veículo escolhido por Fidel para anunciar oficialmente sua renúncia ao cargo de primeiro secretário do Partido Comunista.

Não raro o jornal é obrigado a citar a página da internet como fonte de seus textos. É o caso da edição de domingo, quando outra vez Fidel optou pela internet (cujo acesso é restrito a menos de 3% dos cubanos) para divulgar suas “reflexões”, reproduzidas pelo jornal.

Em mirradas 16 páginas de formato tablóide, o “Granma” se limita a divulgar a programação da TV (também estatal), informes oficiais e propaganda castrista em formato noticioso com manchetes do tipo: “Temos a responsabilidade de preservar o futuro socialista da pátria” ou “Abril de vitórias em todo o país”. O mais perto daquilo que se conhece como noticiário é a página de esportes.

Segundo pessoas que conhecem o processo de feitura do jornal, a burocracia atrasa os fechamentos e impede a realização de edições mais alentadas. Todas as matérias são submetidas ao governo antes de serem publicadas. Até as de esportes (que sempre carregam no tom ufanista). Às vezes passam pela análise de comitês, um dos mecanismos do modelo democrático heterodoxo da ilha.

“As pessoas compram o Granma para outras finalidades como, por exemplo, deixá-lo no banheiro”, disse o jornalista independente Dimas Castellano, autor do blogdedimas, dedicado à história cubana.
Não é um exagero. Como o papel (inclusive o higiênico) é um dos itens racionados em Cuba, é comum encontrar exemplares do veículo oficial do PC ao lado do vaso sanitário nas casas dos cubanos mais humildes.

Em suas críticas à imprensa, Raúl ressaltou o fato de que os jornalistas não tem acesso às fontes, mas não disse que políticos, economistas e administradores necessitam autorização do governo, que pode levar dias, para dar entrevistas.

Alguns meses atrás o apresentador de um programa popular de entrevistas da TV perguntou Alfredo Guevara, um dos mais importantes intelectuais da ilha, o que os jornalistas cubanos precisam fazer para melhorar. A resposta de Guevara foi desconcertante: “em primeiro lugar, ser jornalistas”.

Para Castellano, as críticas de Raúl são um sinal de que novos ventos podem soprar na imprensa cubana mas, mesmo que haja vontade governamental, a tarefa se melhorar o nível do noticiário será difícil. “A acomodação e a inércia vão atrapalhar muito. Essa imprensa não existe. Há um controle muito restrito e os jornalistas estão acostumados a isso”, disse ele.

A blogueira Yoani Sanchéz, do blog Generacion Y , aponta a contradição entre o discurso e a prática de Raúl. “É contraditório já que é ele próprio quem não permite a existência de uma imprensa livre”, afirmou ao iG .

© AP
Yoani Sanchéz, autora do blog Generación Y
Segundo Castellano, mais do que uma crítica, a reclamação de Raúl é um reconhecimento . “Pois foi esse governo quem formou um grupo de jornalistas que na verdade não são jornalistas”.

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