Ex-funcionária da 'KGB' de Cuba cria blog e critica regime na web

Após atuar por 18 anos como censora da contrainteligência, Regina Coyula fez de tudo, mas só reencontrou-se na internet

Leda Balbino, enviada a Havana, Cuba |

O líder cubano Fidel Castro não deve acreditar quando lhe contam. Mas, se souber acessar a internet no alto de seus 84 anos, poderá ler com seus próprios olhos. A dona de casa Regina Coyula faz em um blog exatamente o oposto da função que tinha no Diretório de Contrainteligêndia do Ministério do Interior de Cuba (serviço de segurança equivalente à soviética KGB).

Leda Balbino
Regina Coyula, do Blog Malaletra, em bar de hotel em Habana Vieja
Ela, que por 18 anos foi uma das encarregadas de garantir os preceitos revolucionários na produção cultural feita em Cuba ou apresentada por companhias estrangeiras na Ilha, há dez meses publica sem censura e livremente na internet críticas ao caminho tomado pela Revolução Cubana.

A atividade contrarrevolucionária, como pensaria Fidel, começa no nome do blog. Para indicar que seu propósito não seria amável em relação ao governo, Regina batizou sua liberdade de pensamento online de Malaletra , cuja pronúncia, explica, soa como a expressão espanhola “mala leche” – ou segundas intenções.

Formada em história, Regina trabalhou no serviço de segurança cubano de 1972 a 1989, quando se aclararam as dúvidas sobre um regime pelo qual havia militado no Partido Comunista.

No ano da queda do Muro de Berlim, que desembocou no colapso da União Soviética dois anos depois, Cuba fuzilou em 13 de julho o general Arnaldo Ochoa, herói da Guerra de Independência de Angola (1961-1974), e outros três oficiais sob acusação de narcotráfico e “alta traição”.

Além disso, membros do Ministério do Interior leais a Ochoa foram substituídos por oficiais das Forças Armadas. As medidas, segundo interpretações fora da Ilha e de alguns cubanos como Regina, tinham o objetivo de limpar o ministério e garantir a fidelidade a Fidel, já que Ochoa seria visto como alguém capaz de desafiar o “governo de um homem só” de Castro.

Regina então decidiu sair do serviço de segurança, num processo de ruptura com o regime que classifica como “duro”. “Gostava do que a Revolução Cubana representava”, afirmou em um café iluminado por luz natural dentro de um hotel perto do Parque Central, em Havana Velha.

Depois de deixar seu emprego, Regina, que é casada há 21 anos com o poeta cubano Rafael Alcides, foi professora, taxista particular, massagista, artesã e dona de uma loja de venda de roupas velhas e usadas. Mas o reencontro consigo mesma só foi possível com a internet. Questionada sobre o que faz, ela não titubeia em dizer: “Soy blogger.”

A descoberta do mundo online

Quando há quatro anos ouviu pela primeira vez relatos do que era a internet, a blogueira, hoje com 54 anos, pensou que se tratasse de um balcão de reclamações. Tudo mudou, porém, quando teve seu primeiro contato com a rede mundial durante uma viagem à Espanha, no ano passado.

Ao navegar, sentiu-se dentro daquele mundo, com a possibilidade de informações infinitas, principalmente por causa da velocidade da conexão. “Foi um descobrimento”, afirmou, contando que viu na Espanha os blogs de cubanos cujo acesso é bloqueado na Ilha.

Ao voltar a Cuba, um dos países menos conectados do mundo, sentiu um choque. “Era como se tivesse estresse pós-traumático. Abrir um blog virou ideia fixa.”

Para pôr seu plano em prática, Regina contou com a ajuda de Yoani Sánchez, que conhecia desde 2005. A blogueira cubana mais famosa fora da Ilha abriu no Wordpress o Malaletra. Regina começou a postar e, de outubro de 2009 a abril deste ano, foi um dos 32 estudantes da Academia Blogger de Yoani para aperfeiçoar o ofício.

Desde então, o aprendizado vem sendo constante, principalmente porque sua geração não está habituada à web. “Antes estava vegetando. Agora tenho de estudar muito para usar a internet, e voltei a me interessar pela vida. Fiquei viciada em notícia”, disse.

Como o software do Wordpress é proibido em Cuba, ela alimenta o blog durante uma conexão de duas horas, uma vez por semana, por meio de um sistema de emails que permite enviar textos e fotos que entram automaticamente na página.

Diferentemente de alguns dos 80 blogueiros alternativos - incluindo os da oposição - que há em Cuba, Regina diz que por enquanto não foi ameaçada diretamente pelas forças de segurança. No entanto, ela conta ter tido notícias pelos vizinhos de que membros do Comitê de Defesa da Revolução - considerado o guardião da Revolução - do quarteirão onde vive vêm dizendo que ela é uma Dama de Branco.

Leda Balbino
Comitê de Defesa da Revolução (CDR) na rua Obispo, em Havana. Os CDR fazem a vigilância contra atividades contrarrevolucionárias
A tentativa de vinculá-la ao grupo que luta pela libertação de parentes presos tem o objetivo de desacreditá-la, já que as Damas são vistas com suspeita dentro da Ilha por supostamente serem “financiadas pelo imperialismo”. Regina ri da fofoca, criticando o hábito de Cuba de sempre ver na dissidência “um motivo oculto”.

“Sou blogger para expressar a maneira que penso, porque quero um país plural, com a discussão livre de ideias”, afirmou. “Meu filho tem 17 anos e não tem nenhuma ideia do que é a democracia, mas sente que falta alguma coisa. Me interesso porque é esse país que vou deixar para ele.”

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