Cubanos temem violência com demissões e duvidam de abertura

Muitos veem com ceticismo permissão para 178 atividades particulares e acham que demitidos podem recorrer ao crime para sobreviver

Leda Balbino, enviada a Havana, Cuba |

O anúncio de Cuba de que demitirá mais de 500 mil funcionários estatais até abril e mais de 1 milhão eventualmente, enquanto abre espaço para pequenas atividades particulares, foi interpretado como um sinal de mudança por analistas estrangeiros. Mas não por muitos cubanos.

Em Havana, o que há é o medo. Não apenas de perder a segurança de ter uma renda, mesmo que seja o módico salário médio que equivale a US$ 20, mas da reação daqueles sem empregos. Além de não verem mudança no rumo da Ilha, os cubanos temem que as demissões piorem ainda mais a situação social, com aumento da criminalidade e da violência.

AP
Homem comendo lanche é visto através de janelas de carro velho em Havana
“Temo perder a tranquilidade. Que sem emprego, e sem conseguir uma recolocação, invadam minha casa para roubar”, disse uma moradora de Vedado sob condição de anonimato. Um taxista de Havana Velha expressou opinião parecida: “As pessoas podem ficar desesperadas se não tiverem dinheiro para alimentar seus filhos”, afirmou.

Cuba não divulga dados oficiais sobre criminalidade e, apesar das policiadas áreas turísticas da capital confirmarem a impressão de que o nível de violência do país é muito menor do que o do resto da América Latina, há indicações de que a situação se deteriora nos bairros mais afastados. São comuns, por exemplo, as recomendações para que se evitem áreas escuras ou para não caminhar sozinho em regiões não turísticas.

O ativista Oswaldo Payá, considerado o principal dissidente político de Cuba, compartilha a preocupação de violência. Para ele, o modelo econômico e repressivo imposto pelo governo à sociedade acarretou diferenças sociais e corrompeu grande parte da população.

“Muitos vivem em condições marginais ou têm condutas marginais, ainda que saibam ler, escrever e sejam técnicos, porque se generalizaram a falsificação, o contrabando, a busca de meios paralelos para sobreviver. Isso criou uma grande violência reprimida e uma certa tendência ao bandalismo,” afirmou.

Demissões

Anunciadas em 13 de setembro, as demissões começaram a ocorrer oficialmente em 4 de outubro. Para decidir quais trabalhadores comporão os iniciais 10% de demitidos da força de trabalho de quase 5,1 milhões, as autoridades usam o critério da idoneidade, que se refere à capacidade de exercer a função executada e à moral de não roubar do Estado.

A prática é comum na sociedade cubana. Recebendo nos desvalorizados pesos cubanos, a população tem de usar a outra moeda do país – os pesos conversíveis (CUCs) – para pagar tudo que não seja luz, água, gás e os alimentos subsidiados pelo governo. Só que 1 CUC, cujo valor se equipara ao do dólar, equivale a 24 pesos cubanos. Como os salários não chegam ao fim do mês, os cubanos recorrem ao mercado negro para sobreviver.

O condutor de charretes turísticas Yosef Sotosamora, de 25 anos, ganha em pesos cubanos um salário que equivale a US$ 25, enquanto arrecada de US$ 800 a US$ 1 mil mensalmente ao governo. Para incrementar sua renda, ele vende na “bolsa negra” caixas de charutos roubados das fábricas do Estado. Por cada caixa, Yosef cobra US$ 50. Além disso, ele diz ter o hábito de esperar o inspetor de seu trabalho ir embora para poder passear com os turistas por Havana Velha e embolsar sozinho os US$ 20 cobrados pelo passeio.

Uma barbeira relatou prática semelhante. Antes de seu local de trabalho ser arrendado pelo Estado em maio, havia o preço tabelado de 5 pesos cubanos pelo corte de cabelo. Mas, como seus clientes normalmente pagavam mais, ela declarava em uma planilha o valor oficial do corte e embolsava a diferença.

Leda Balbino
Cubanos compram alimentos em pesos cubanos, cuja cotação é 24 vezes menor do que a segunda moeda do país, os CUCs (pesos conversíveis, que equivalem ao dólar)
As ilegalidades são contadas abertamente pelos cubanos, que surpreendem seu interlocutor com frases como “Somos todos ladrões” ou “Somos bandidos”. Mas isso não quer dizer que estejam indiferentes. Eles sabem que o hábito de roubar do governo ou atuar em uma economia clandestina são os sinais do que o próprio líder Fidel Castro reconheceu recentemente: “ O modelo econômico de Cuba não funciona nem mais para Cuba.”

“Considero-me uma pessoa decente, mas tenho de recorrer à ilegalidade, ao mercado negro, para sobreviver”, disse a moradora de Vedado. “O sistema é improdutivo, e cultiva o oportunismo, a moral dupla. Veem-se a deterioração nas ruas, a crise de valores e a corrupção”, afirmou.

Fracasso do modelo cubano

Perante o fracasso do sistema e a crise econômica da Ilha, o presidente Raúl Castro anunciou o experimento cubano de abertura da economia para 178 atividades particulares , depois de indicar em discurso em agosto que 20% da força de trabalho é improdutiva. Os primeiros 500 mil devem perder o emprego até abril.

Além das 178 atividades por conta própria, aos demitidos há a possibilidade de recolocação nos impopulares setores de agricultura e de construção civil, que Cuba quer priorizar por estarem em crise. Mais de metade das terras agrícolas do país está improdutiva, o que força o governo a importar 80% dos alimentos. Também ineficiente, o setor de obras sofre desvios de material e com a falta de organização, não conseguindo cumprir prazos de construção ou de reforma.

Como garantia aos funcionários, o governo disse que dará alguns meses de salário para os dispensados enquanto procuram emprego. Mas nada disso vem sendo suficiente para aplacar o ceticismo. “Raúl não faz isso para melhorar a vida dos cubanos, mas para salvar o regime. É o último respiro de um afogado", disse a moradora de Vedado.

Como só se permite a atuação autônoma de formados em cursos superiores até 1964 , os graduados depois desse ano não sabem como poderão de repente aprender ofícios como reparador de isqueiro, marceneiro, barbeiro, descascador de frutas naturais ou cabelereiro. Além disso, esses profissionais não se veem trabalhando no campo ou na construção civil.

Também há dúvidas sobre quanto será cobrado de impostos dos novos negócios e como o governo conseguirá dinheiro para importar as matérias-primas necessárias para as atividades por conta própria. "Muitas dessas atividades já existiam e foram superdimensionadas para ocultar o que significa mais de 1 milhão de trabalhadores desalojados, algo impossível de compensar", disse o ativista Payá.

Questionada sobre a possibilidade de que as demissões desencadeiem o aumento de violência na Ilha, uma arquiteta concordou sem hesitar, usando uma metáfora: "A sociedade cubana é um elástico esticado ao máximo que, a qualquer momento, pode se romper."

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