Cuba libertará dois últimos presos políticos detidos em 2003

Félix Navarro e José Ferrer serão libertados. Em artigo, Fidel disse ter renunciado à liderança definitiva do País em 2006

AFP |

Cuba libertará os últimos dois opositores de 75 condenados na chamada "primavera negra" de 2003, concluindo um processo de libertação iniciado há nove meses em um histórico diálogo entre o governo de Raúl Castro e a Igreja Católica. Uma nota do arcebispado de Havana anunciou que "foi disposta a libertação" de Félix Navarro e José Ferrer, que rejeitam o exílio na Espanha, sem informar datas.

Navarro e Ferrer, ambos condenados a 25 anos de prisão, encerrarão o acordo de libertação de 52 dos 75 que estavam presos no momento em que foi iniciada, em 7 de julho de 2010, a maior libertação de dissidentes em Cuba em uma década.

O caso dos 75, a última grande onda repressiva contra os opositores na ilha, provocou uma forte crítica da comunidade internacional, que pediu constantemente sua libertação, e inclusive congelou a relação entre Cuba e a União Europeia (UE).

"Estou contente, minha alegria ocorre porque a luta pelos 75 começou em 2003. Esse pesadelo vai terminar quando os dois estiverem em casa", disse Berta Soler, uma das líderes das Damas de Branco, grupo de mulheres dos opositores que exigiu durante oito anos sua libertação. 

A libertação dos dissidentes da chamada "primavera negra" será concluída quatro meses e meio depois do prazo fixado pelo governo, pois depois que 40 migraram à Espanha, o processo foi tratado por um grupo de 12 que rejeitou o exílio.

Navarro é um professor de 57 anos, da província ocidental de Matanzas, fundador em 1999 do Movimento pela Democracia "Pedro Luis Boitel" e membro do ilegal Todos Unidos, coordenado pelo ex-piloto de guerra Vladimiro Roca.

"Acabaram de nos ligar do Arcebispado para nos anunciar sua libertação, nos disseram que pode ocorrer nas próximas horas ou amanhã (quarta-feira)", disse por telefone a filha de Navarro, Sayli, de sua casa em Perico, província de Matanzas, 140 km a leste de Havana.

Ferrer, um pescador de 40 anos, oriundo da cidade de Santiago de Cuba, é membro do Movimento Cristão Liberação (MCL), presidido por Oswaldo Payá, Prêmio Sakharov 2002. Sua família também não sabe quando ele será libertado. 

'Renúncia' de Fidel

O líder cubano Fidel Castro revelou ter renunciado à liderança comunista desde que ficou doente em julho de 2006, em um artigo publicado nesta terça-feira, três semanas antes de um congresso que decidirá sua substituição. "Renunciei sem vacilar a todos meus cargos estatais e políticos, inclusive o de primeiro secretário do Partido, quando fiquei doente e nunca tentei exercê-los depois do Proclama de 31 de julho de 2006, nem quando recuperei parcialmente minha saúde mais de um ano depois, apesar de todos continuarem me chamando afetuosamente dessa forma", enfatizou.

Fidel delegou, quando ficou doente em 2006, "com caráter provisório" suas funções como presidente, primeiro secretário do Partido Comunista (PCC) e Comandante-em-chefe das Forças Armadas, mas em 2008 renunciou apenas a ser eleito como governante.

Fora do governo, o líder da revolução cubana passou a se ocupar de escrever artigos sobre política internacional. No artigo publicado nesta terça-feira, Fidel afirma que governou a ilha durante muito tempo, "mas sem violar os princípios constitucionais ou éticos", ao assinalar que se sentiu aludido no discurso do presidente americano Barack Obama no Chile.

"Senti-me aludido em suas palavras. Prestei, efetivamente, meus serviços à Revolução durante muito tempo, mas nunca me furtei aos riscos ou violei princípios constitucionais, ideológicos ou éticos", escreveu. "Lamento não ter disposto de mais saúde para continuar servindo", acrescenta.

No discurso que encerou sua visita de um dia ao Chile, Obama pediu que líderes de América Latina que se mantenham no poder mediante "o consenso e não por coerção", e pediu ao governo de Cuba que tome "medidas significativas" em favor dos direitos humanos.

Fidel destaca que Obama leu para os chilenos "um conto que ele (o líder cubano) ouvia quando tinha 4 anos". "Quando o presidente olhou ansioso para o público depois de mencionar a pérfida Cuba, esperando uma explosão de aplausos, houve um silêncio glacial", afirmou ainda.

Também considerou "certeiro o comentário de um canal de TV chileno que disse que Obama já não tinha nada a oferecer ao hemisfério". No artigo, deseja "uma boa viagem e um pouco mais de sensatez" a Obama durante a visita a El Salvador.

    Leia tudo sobre: cubadissidenteslibertaçãocuba

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG