Blogueira de Cuba ensina o ativismo online sem internet

Yoani Sanchéz, do famoso Generación Y, mostra a cubanos como usar os serviços de SMS e MMS para prescindir da web

Leda Balbino, enviada a Havana, Cuba |

Há seis meses, a mais famosa blogueira de Cuba descobriu uma nova forma de se comunicar fora da Ilha. De tanto fuçar em busca de novas possibilidades online, Yoani Sanchéz soube que era possível twittar, postar fotos e vídeos e alimentar seu Facebook de um celular cubano sem 3G, usando apenas os serviços de SMS e MMS.

Leda Balbino
Yoani Sanchéz, seu marido, Reinaldo Escobar, e a também blogueira Regina Coyula

“Os cubanos, nos anos 90, inventaram o picadinho sem carne, e agora inventam a internet sem internet”, afirmou a blogueira do Generación Y , referindo-se ao “período das necessidades especiais”, quando o país passou por uma grave crise após o colapso da União Soviética, em 1991.

Teclando em um celular sem quase nenhum aplicativo, Yoani demonstra como consegue escrever os 140 caracteres máximos do Twitter usando o Serviço de Mensagem Curta (SMS, na sigla em inglês) por meio de um número no Reino Unido. Pelo Serviço de Mensagem Multimídia (MMS, na sigla em inglês), ela envia fotos ao TwitPic e vídeos ao YouTube.

Em um país onde apenas 2,9% dos 11,2 milhões de cubanos relataram ter tido acesso direto à internet ao longo de um ano, segundo levantamento da Oficina Nacional de Estatísticas (ONE) em 38 mil lares, Yoani vê o celular como mais uma possibilidade de informar ao exterior o que se passa na Ilha. E isso apesar de a telefonia móvel, cuja venda de contas e aparelhos foi liberada pelo presidente Raúl Castro em 2008, também ter uso restrito na Ilha. De acordo com a ONE, só 2,5% dos entrevistados disseram ter celulares.

Segundo a blogueira, como ela só consegue acessar a internet uma vez por semana, o celular é o meio para ter agilidade e divulgar informações urgentes. “São truques do subdesenvolvimento”, afirmou Yoani.

Enquanto isso seu blog, traduzido para 22 línguas por voluntários e pelo qual ela ganhou prêmios como o espanhol Ortega y Gasset, continua sendo a base de “reflexões e opiniões mais sedimentadas”, que recebem em média 2 mil comentários.

Para espalhar a novidade dos recursos SMS e MMS, Yoani deu das 9h às 16h30 de 13 de setembro um curso que chamou de “móvil activismo” (ativismo pelo celular, em tradução livre), “para ensinar outros cubanos a usar a internet prescindindo dela”.

Não foi o primeiro curso ministrado pela blogueira de 34 anos. Entre outubro de 2009 e abril deste ano, ela e voluntários criaram a Academia Blogger para ensinar 32 alunos a escrever códigos no Wordpress e produzir seus próprios diários online.

Uma das estudantes a receber os diplomas certificados pela revista Wired foi a dona de casa Regina Coyula, de 54 anos. Ex-funcionária do Serviço de Contrainteligência de Cuba (equivalente à KGB soviética), Regina criou o blog Malaletra .

Navegar é preciso

Os cursos gratuitos são uma tentativa de disseminar a comunicação online em um país onde os obstáculos para usar a internet são inúmeros. Em Cuba, não se pode contratar uma conexão doméstica. Os únicos com acesso relativamente fácil à web são os estrangeiros residentes, os empregados em determinadas funções no aparato estatal, alguns cientistas, altos dirigentes.

Segundo o marido de Yoani, o jornalista independente Reinaldo Escobar, a situação da internet em Cuba expõe a diferença entre “ter um direito e desfrutar um privilégio”.

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Hotel Plaza, em Havana: Presidente Raúl Castro permitiu em março de 2008 hospedagem de cubanos (04/12/2006)
E, mesmo aqueles que têm acesso, não o têm de todo. A navegação limita-se a sites estatais e a alguns internacionais. O Generación Y, que Yoani começou em fevereiro de 2007 e foi catapultado à fama após ser descoberto pelos jornais Wall Street Journal, New York Times e El País, está bloqueado internamente desde que ela foi premiada com o Ortega Y Gasset, em março de 2008.

Para alimentar o blog, Yoani grava em um pendrive fotos e os textos escritos no computador de casa e acessa a internet de um hotel, cuja entrada antes proibida para cubanos foi liberada por Raúl em maio de 2008. “Ninguém disse que seria permitido usar a internet, mas como a norma deixava que os cubanos se hospedassem, inferimos que também estava liberado o uso da web”, afirmou Yoani, que antes burlava a proibição falando inglês ou alemão para fingir ser turista.

Como a administração de conteúdos no Wordpress é bloqueada em Cuba, a blogueira conta com a ajuda de voluntários para atualizar o blog e “otimizar seu tempo online”. No acesso de US$ 6 a hora, ela envia por email os textos e as fotos para amigos no Chile, Canadá e Espanha, que alimentam o site respeitando as instruções de qual texto postar em cada dia e qual foto usar em cada um deles.

No início do Generación Y, Yoani pagava o acesso à internet, que tem preços proibitivos para o salário médio cubano equivalente a US$ 20, com o dinheiro que ganhava como professora de espanhol para turistas e guia para estrangeiros. Mas, desde o sucesso do blog, ela conseguiu ter mais autonomia colaborando com publicações estrangeiras.

Como exemplo de cubana que pôde prosperar apesar das limitações do sistema, Yoani acredita que a concessão pelo governo de licenças para trabalhos privados trará mais independência a muitos cubanos e eventualmente possibilitará a abertura do regime. “Pessoas sem recursos são dóceis. Com a autonomia econômica vem a autonomia política.”

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