'Acabar com a libreta é cometer um genocídio', diz cubana

Extinção de caderneta de abastecimento - que será discutida em Congresso do Partido Comunista - apavora população da ilha

Ricardo Galhardo, enviado a Havana, Cuba |

Ricardo Galhardo
Cubanos fazem fila para carregar a "libreta" em padaria de Havana

De todas as propostas que serão apreciadas nos próximos três dias pelos mil delegados do 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba, a extinção da “libreta de abastecimento” é a que mais apavora os cubanos.

Trata-se de uma caderneta com a qual todos os chefes de família do país têm direito a retirar gratuitamente em postos do governo uma cota pré-estabelecida de gêneros de primeira necessidade como pão, açúcar, arroz, óleo, leite em pó, absorventes íntimos e sabonete.

A quantidade é insuficiente para suprir as necessidades básicas mas serve como complemento aos salários minguados (entre US$ 15 e US$25) e para aqueles que não fazem parte dos vários ramos de mercado informal significa o limite entre a pobreza e a fome.

“Demitir trabalhadores ociosos, fechar empresas, criar novos impostos, incentivar o trabalho por conta própria, tudo isso é discutível. Pode ser bom ou pode ser ruim. Ninguém sabe. Agora, se o governo realmente acabar com a ‘libreta’ estará cometendo um genocídio”, disse ao iG a médica Ivany Valdés, de 52 anos, enquanto aguardava sua vez na fila de uma padaria estatal no bairro Vedado, próximo ao centro de Havana.

“Infelizmente a ‘libreta’ é para a maioria das pessoas a única garantia de comida na mesa. Sem ela muita gente, principalmente os velhos, vão morrer de fome”, completou Ivany.

No item 162, página 21, o documento “Projeto de Diretrizes da Política Econômica e Social”, em avaliação pelos delegados do 6º Congresso do Partido Comunista Cubano, sugere “implementar a eliminação ordenada da libreta de abastecimento como forma de distribuição normatizada, igualitária e a preços subsidiados, que favorece tanto ao cidadão necessitado como ao não necessitado, induz as pessoas a práticas de troca e revenda e propicia um mercado subterrâneo”.

Se aprovado, o documento vai nortear toda a política econômica de Cuba para os próximos anos.

“O governo está correto. A culpa de todos os males de Cuba é da ‘libreta’, não é dos políticos”, ironizou o agricultor aposentado José Escobedo, 82 anos, enquanto caminhava a passos lentos rumo à fila com um saco de plástico vazio em uma mão e a ‘libreta’ na outra.

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