Fidel comparece à sessão de abertura de novo Parlamento em Cuba

Por iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Ex-presidente cubano foi visto pela última vez na eleição geral do dia 3; nova Assembleia Geral deve eleger neste domingo Raúl Castro para novo mandato

O líder cubano Fidel Castro, que governou o país por 49 anos, reapareceu no domingo na sessão de abertura da Assembleia Nacional depois de se ausentar repetidamente por causa de uma doença grave que sofreu em 2006.

Dia 4: Fidel Castro reaparece em público para votar em eleição cubana

Reuters
Líder cubano Fidel Castro (E) comparece à sessão de abertura de Assembleia Nacional juntamente com seu o presidente cubano, seu irmão Raúl Castro

Dissidente: Blogueira Yoani cobra posição do Brasil sobre direitos humanos em Cuba

Segundo a agência de notícias estatal AIN, Fidel, 86, e o presidente cubano, seu irmão Raúl Castro, participaram de uma sessão solene da Assembleia Nacional, no Palácio das Convenções. A imprensa estrangeira tem acesso apenas à sessão de encerramento, à tarde, quando discursa o presidente cubano.

Fidel continua a ser um deputado após renunciar a todos os cargos, incluindo o de primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba (PCC). A Assembleia Nacional (Parlamento) é o órgão supremo do poder do Estado.

O ex-presidente cubano foi visto pela última vez na eleição geral do dia 3, quando conversou por mais de uma hora com admiradores e jornalistas cubanos em Havana, na sua primeira aparição pública prolongada desde 2010.

Saiba mais: Veja o especial do iG sobre Cuba

Transição em Cuba?

Neste domingo, a expectativa é a de que Raúl seja reeleito como presidente de Cuba. Eleito em 2008 para substituir Fidel, Raúl, porém, defende a limitação do mandato das autoridades cubanas a dois termos. Se cumprir o que diz acreditar, hoje deve ser o início do fim de sua estada no poder.

À medida que a velha guarda cubana se prepara para deixar o poder, os antigos revolucionários trabalham para garantir a sobrevivência do regime no futuro. E isso significa encontrar um sucessor para Raúl.

Reformas:
- Cuba têm filas em agências de turismo no 1º dia de lei sobre viagens ao exterior
- Cuba permitirá regresso de 'emigrantes ilegais'
Cuba detalha lei que permite compra e venda de carros e imóveis
-
Cuba levanta proibição para venda de eletrodomésticos vigente desde 2003 

Até o momento, no entanto, o regime não tem dado muitas pistas. A escolha do número dois do regime, o primeiro-vice-presidente pode dar alguma pista. O posto até agora tem sido ocupado por outro revolucionário octogenário. Uma das apostas é Miguel Díaz-Canel, 53 anos, membro do Politburo que cada vez aparece ao lado de Raúl em eventos oficiais.

A prioridade por enquanto do governo é tocar as reformas que têm como objetivo reverter a ineficiência da economia fortemente controlada pelo Estado cubano.

O resultado mais óbvio das reformas tem sido a explosão de pequenos negócios, de manicures a jardinagem por hora. Tais atividades foram legalizadas na tentativa do governo de diminuir o peso da folha de pagamento estatal.

Saiba mais: Só cubanos formados até 64 têm direito a ser autônomo em sua área

"Ganhava 400 pesos por mês (R$ 32). Agora consigo ganhar tanto quanto meu trabalho render”, diz Eduardo García, que tem uma oficina de consertos de TVs e rádios. Uma das TVs de tela plana que espera conserto na oficina vale cerca de R$ 4 mil, um bom indicativo das mudanças em curso na ilha.

Assim como outros 500 milhões de trabalhadores autônomos, García não tem só o que comemorar. “É como se tivessem desatado nossas mãos, mas não os nossos pés. Estamos trabalhando sob muita pressão”, diz. Ele reclama que o monopólio estatal sobre produtos importados e a falta de um mercado de peças dificulta muito seu trabalho.

“Mas por 54 anos ninguém pensou que isso pudesse vir a ser possível”, diz. “É como uma máquina, lenta no início. Mas espero que as coisas melhorem”, afirma.

Como lidar com as grandes estatais que ainda dominam a economia cubana é o próximo desafio do novo governo a ser formado a partir deste domingo. O mais novo experimento do governo Castro será dar mais autonomia às empresas, para impulsionar a eficiência. Outra medida deve limitar o número de cooperativas, com exceção da agricultura.

Misoginia: Letras atrevidas do reggaeton ficam na mira do governo cubano

Uma citação de Raúl que circula por Havana dá o tom das mudanças. “A batalha da economia é hoje, mais do que nunca, nossa principal tarefa.”

Tarefa árdua

“Trata-se de uma batalha, e o futuro de Cuba depende dos resultados”, afirma o economista Jan Triana, ao dizer que, cinco décadas após a revolução, Cuba está “reinventado o socialismo”. “Ganhamos a principal batalha em 1990, quando a União Soviética desapareceu e Cuba ficou sozinha no mundo. Foi difícil, mas estamos vivos”, diz.

Pequeno avanço: Mercado imobiliário de Cuba cresce depois de reformas limitadas

Mas à medida que os novos deputados assumam seus assentos no Parlamento e os novos líderes de Cuba sejam indicados, a preocupação será a árdua tarefa que ainda existe pela frente.

Sob a presidência de Hugo Chávez, a Venezuela se tornou o principal aliado de Cuba, fornecendo quase todo o combustível que a ilha precisa a preços subsidiados.

Aliado: Cuba tem muito a perder enquanto Chávez luta contra câncer

Chávez voltou a Caracas esta semana, depois de meses tratando de um câncer em Havana. Mas ele continua doente e não se sabe como será a relação entre os dois países caso Chávez saia de cena. “Venezuela é uma peça importante no tabuleiro”, diz Paul Hare, ex-embaixador britânico em Havana.

“O que acontecer em Caracas vai determinar o quão rápido pode ser a abertura da economia em Cuba, se haverá a adoção de uma solução ao estilo chinês, caso a Venezuela corte os subsídios aos combustíveis. Daí a urgência das reformas”, diz. Ainda assim, o passo continua lento. “Sem pausa, mas sem precipitação”, já disse Raúl.

‘Ganho importante’

O objetido do sistema é ajustar-se sem ruir. Mas a relação entre o Estado e os cidadãos já está mudando. “Todas essas medidas que fazem os cidadãos economicamente independentes do Estado estão criando um sentimento de liberdade nas pessoas”, diz o escritor e ensaista Leonardo Padura. “É um ganho importante para a sociedade cubana”, diz.

Especial de 2010: Cubanos esperam morte natural do regime

A introdução de um imposto de renda é um claro sinal dessas mudanças, à medida que o Estado mais e mais depende do imposto recolhido entre os cubanos.

“Eles (autônomos) são o elemento dinâmico da sociedade cubana. Creio que a abertura em Cuba não virá pelas organizações políticas, mas pela quebra das barreiras levada a cabo pelos trabalhadores autônomos”, diz o ex-embaixador britânico.

As mudanças econômicas, no entanto, não têm sido acompanhadas de reformas políticas. Nas eleições do dia 3, 612 candidatos concorreram a 612 cadeiras no Parlamento.

*Com BBC e Reuters

Leia tudo sobre: cubaraúl castrofidel castro

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas