Letras atrevidas do reggaeton ficam na mira do governo cubano

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Autoridades cubanas fecham cerco a gênero musical que mistura reggae, hip-hop e ritmos latinos e tem vídeos eróticos e letras por vezes misóginas

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Às 22 horas de um sábado, o parque Mariana Grajales no centro de Havana é tomado por batidas pulsantes. Homens de calças folgadas e mulheres de minissaias levantam as mãos para o ar e dançam à medida que batem palmas e gritam.

O estilo de dança conhecido como "perreo", que se traduz literalmente como "cachorrando", está associada ao estilo musical reggaeton, uma mistura de reggae, hip-hop e ritmos latinos que foi popularizado em Porto Rico e se tornou um dos principais ritmos na televisão e rádio cubanas.

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Cubano lê títulos de músicas em um álbum de reggaeton em loja dentro de uma casa em Havana, Cuba (04/01)

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Agora, a música encontra-se diretamente na mira de críticos que são contra as letras notoriamente sugestivas do gênero, seus vídeos eróticos e estereótipos, por vezes, misóginos.

Autoridades cubanas anunciaram recentemente restrições a estúdios estatais de gravação e de rádio contra a transmissão de músicas com letras questionáveis. Eles também proibiram a apresentação desse tipo de música em espaços públicos sujeitos a controle governamental.

As regras, teoricamente, aplicam-se a todos os gêneros, mas foi o reggaeton que chamou a atenção da crítica nos meios de comunicação oficiais.

Os legisladores também estudam um projeto de lei para regular as ondas de rádio e espaços de apresentações. Artistas poderão enfrentar sanções contra letras e apresentações consideradas demasiadas atrevidas, embora ainda não esteja claro quem seriam os árbitros oficiais ou quais tipos de sanções seriam aplicadas.

"Tomamos uma decisão", disse Danilo Sirio Lopez, diretor do Instituto Cubano de Rádio e Televisão, em um discurso aos legisladores em dezembro. "Não transmitiremos mais músicas com uma mensagem negativa, uma música com letras ofensivas ou vídeos que atacam ou denigrem a imagem das mulheres."

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A proposta, aparentemente, está aquém de uma proibição total, mas em um país onde o governo é o principal mecenas das artes e controla todas as ondas de rádio, a ameaça de perder o acesso às transmissões, instalações de produção e espaços de apresentações enviará uma mensagem clara para os fãs do gênero: está na hora de mudar sua proposta.

Um dos sucessos do ano passado, a canção "Quimba Pa' Que Suene", da banda Los Principales, que pode ser traduzida como "Chacoalhe até que a Coisa Decole" é uma espécie de homenagem à masturbação. O vídeo foi publicado no YouTube e anunciado como "o novo hino da juventude cubana" e no ano passado a música pôde ser escutada em no volume máximo em festas particulares, eventos escolares e outros encontros sociais.

Autoridades, críticos e a influente Federação das Mulheres Cubanas reclamaram que ambas as músicas são vulgares e humilhantes para as mulheres.

"Obviamente, todos são livres para escutar qualquer música que bem entenda", disse Orlando Vistel, presidente do Instituto Cubano de Música, um braço do Ministério da Cultura que promove a música. "Mas essa liberdade não inclui o direito de reproduzi-la e tocá-la em rádios estatais ou privadas, em restaurantes ou lanchonetes, ônibus públicos ou espaços públicos em geral."

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O modelo político e econômico de Cuba pode ter impedido muitos de utilizar a Internet e de participar de outros fenômenos globais, mas ele não conseguiu isolar a ilha de todas as tendências da região, disse Roberto Zurbano, um promotor no Instituto Cultural Casa de las Américas. A popularidade do reggaeton na ilha é um produto dessas influências, explicou.

Especialistas também atribuem a popularidade do reggaeton à sua batida simples, porém cativante. E disseram que ele chegou para ficar, como evidenciado por artistas de outros gêneros, como da salsa, que incorporaram o reggaeton em suas músicas.

"Muito fácil de dançar. Não deve ser nenhuma surpresa que ele tenha sido capturado tão facilmente pelos jovens", disse Raul Fernandez, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade da Califórnia, Irvine, que escreve sobre música cubana.

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A reação contra o reggaeton não é novidade em Cuba, onde gêneros como o danzon, cha-cha, salsa e timba também já chegaram a escandalizar gerações mais velhas, desafiando as fronteiras contemporâneas da sensualidade. Hoje, eles estão firmemente estabelecidos no mercado musical local.

Na década de 1960 os Beatles foram proibidos de tocar na rádio cubana, e alguns fãs foram forçados a cortar seus cabelos longos, repreendidos no trabalho ou demitidos. Agora, uma praça em Havana possui uma estátua de John Lennon e um bar temático dos Beatles chamado de O Submarino Amarelo é um sucesso na capital.

Ironicamente, alguns dos que são contra os excessos do reggaeton uma vez se rebelaram contra seus próprios anciãos escutando clandestinamente John, Paul, George e Ringo.

"Reggaeton é muito popular entre os jovens", disse o cantor Carlitos "Papi" Chacon, 22, que evita letras explícitas em sua própria música, mas reconheceu que muitos de seus colegas "dizem coisas malucas em suas letras."

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"Acho que (a reação) só fez as pessoas quererem escutar o gênero ainda mais", disse Chacon. "Como músicos precisamos evoluir e continuar criando para não cair na mesmice."

Por Andrea Rodriguez

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