Cuba tem muito a perder enquanto Chávez luta contra câncer

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Apesar de menos dependente da Venezuela que da ex-URSS, economia da ilha provavelmente entraria em recessão caso perdesse auxílio de eventual sucessor de Chávez

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Os cubanos que assistiam à novela num sábado à noite recentemente receberam uma súbita má notícia vinda do outro lado do Caribe.

Crise constitucional: Posse de Chávez causa apreensão e incerteza na Venezuela

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Mural mostra presidente da Venezuela, Hugo Chávez, com ex-presidente cubano Fidel Castro em Caracas (22/02/2012)

Cronologia: Chávez e sua luta contra o câncer

A TV estatal interrompeu a novela para uma transmissão direta do palácio presidencial em Caracas, Venezuela, onde o presidente Hugo Chávez revelou que seu câncer havia retornado. Enfrentando sua quarta cirurgia em 18 meses, ele nomeou o vice-presidente Nicolás Maduro como seu potencial sucessor.

A notícia chocou não apenas os venezuelanos, mas milhões de cubanos que passaram a depender da generosidade de Chávez para tudo, desde petróleo subsidiado até empréstimos baratos. A Venezuela fornece cerca de metade das necessidades de energia de Cuba, ou seja, a economia da ilha entraria em um choque enorme e provavelmente em recessão caso um presidente pós-Chávez obrigasse a ilha a pagar o preço total pelo petróleo.

Apesar do drama, a notícia provavelmente não foi uma surpresa para o governo comunista de Cuba, e não apenas pelo fato de Chávez estar recebendo cuidados médicos na ilha.

Havana aprendeu importantes lições sobre dependência excessiva quando o colapso de 1991 da União Soviética levou o país a uma profunda crise. Tentando evitar as consequências de uma situação semelhante, o governo cubano tem diversificado sua carteira de parceiros econômicos nos últimos anos, lidando com a Ásia, Europa e outros países latino-americanos, e é menos dependente de Caracas do que era da ex-União Soviética.

Cuba também está trabalhando para estimular sua economia internamente, permitindo que mais atividade aconteça no setor privado, dando uma vantagem para a agricultura independente e cooperativa, e descentralizando sua indústria açucareira. A forte economia cubana teria, em tese, mais moeda corrente para pagar as importações de energia e as de outros setores.

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Um dos objetivos principais do país tem sido o de tornar a economia da ilha menos dependente de um único benfeitor.

Sob a liderança de Chávez, que regularmente chama o ex-presidente cubano Fidel Castro de seu pai ideológico e administrou o país de acordo com partes da cartilha do líder do governo comunista, a Venezuela enviou milhões de dólares por ano para Cuba por meio do comércio e do auxílio petrolífero.

O comércio bilateral atingiu um pouco mais de US$ 8 bilhões no ano passado, a maior parte vindo das importações cubanas de petróleo e derivados. Em troca, Havana fornece à Venezuela o apoio técnico de professores cubanos, cientistas e outros profissionais, além de brigadas de trabalhadores da área de saúde. Analistas disseram que os serviços estão sobrevalorizados pelos padrões externos, aparentemente custando até US$ 200 mil por ano por médico. Especialistas estimam que o subsídio total da Venezuela a Cuba é de aproximadamente US$ 2 bilhões a US$ 4 bilhões por ano.

Embora os negócios com a Venezuela constituam 40% de todo o comércio de Cuba, ainda está muito distante dos dias em que o bloco oriental comunista representava uma porcentagem estimada de 80%.

"A (perda de) US$ 2 bilhões a US$ 4 bilhões faria uma certa diferença. Mas não teria o mesmo peso relativo da súbita retirada completa dos subsídios soviéticos no início dos anos 90", disse Richard E. Feinberg, professor de política econômica internacional da Universidade da Califórnia, em São Diego. "Cuba provavelmente não retrocederá. Mas será que isso poderia levar a economia cubana à recessão? Sim."

Sua resistência à crise dependeria em grande parte dos sucessos de Cuba em cortejar os investidores estrangeiros para joint ventures.

No mês passado, as autoridades anunciaram um acordo com uma subsidiária da brasileira Odebrecht para gerenciar uma refinaria de açúcar, um passo raro em um setor que tem sido em grande parte fora dos limites para a participação estrangeira.

Mas, embora Havana tenha dito que quer aumentar o investimento estrangeiro, os obstáculos permanecem. O processo de aprovação de projetos de investimento pode ser longo e complicado, e roubos, desestímulos à produtividade e intervenção do governo podem cortar a eficiência. As empresas estrangeiras também pagam um imposto muito alto sobre os salários.

Especialistas disseram que, caso o pior aconteça a Chávez, uma mudança de postura não aconteceria da noite para o dia. Se o sucessor escolhido a dedo de Chávez, o vice-presidente Maduro, assumisse o cargo, provavelmente continuaria com o relacionamento especial.

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Para Cuba, o susto mais recente com a saúde de Chávez expôs um ano de decepções na tentativa da ilha de afastar-se da energia da Venezuela.

Três poços de petróleo exploratórios perfurados ao longo da costa oeste do país não obtiveram resultados, e no mês passado a única plataforma de petróleo no mundo capaz de perfurar ali, sem violar as sanções dos EUA, foi embora.

No entanto, Havana tem mostrado que é resistente desde a invasão apoiada pelos EUA, dos planos de assassinato em 1960 até o "Período Especial" no início de 1990, quando o colapso da União Soviética fez com que o PIB de Cuba sofresse uma queda de 33% em quatro anos. Quando furacões danificaram o setor agrícola do país e a crise financeira global diminuiu o turismo, há quatro anos, Cuba apertou o cinto, diminuiu as importações e sobreviveu.

Ainda assim, muitos cubanos constantemente buscam se atualizar diariamente a respeito da saúde de Chávez, que vem recebendo destaque nos meios de comunicação do Estado. "Não sei o que aconteceria neste país", disse Magaly Ruiz, 52, moradora de Cuba. "Talvez passaremos fome."

Por Peter Orsi

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