Familiares e ativistas dizem que Oswaldo Payá, que morreu em uma colisão de carro neste domingo, foi perseguido por outro veículo

A filha do dissidente cubano Oswaldo Payá , morto em um acidente de carro no domingo, fez um apelo por uma investigação sobre o caso, levantando a possibilidade de um atentado. “A informação que temos é a de que havia um carro tentando tirá-los da estrada, batendo neles o tempo todo. Não achamos que tenha sido um acidente”, afirmou Rosa María Payá à CNN. “Eles queriam machucá-los e acabaram matando meu pai.”

O Movimento Cristão de Libertação, organização fundada por Payá em 1988, também pediu uma "investigação transparente" do acidente, que aconteceu na tarde de domingo em La Gavina, perto da cidade de Bayamo (744 km ao leste de Havana). O corpo do dissidente chegou nesta segunda-feira à capital Havana, onde foi recebido por 200 pessoas e onde será enterrado na manhã de terça.

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Sem fazer menção sobre a atividade política do dissidente, o site oficial Cubadebate disse que Payá morreu em um “lamentável” acidente após o veículo no qual estava ter saído de controle. O ativista Harold Cepero Escalant também morreu e dois políticos europeus – o espanhol Ángel Carromero Barrios e o sueco Jens Aron Modig – ficaram feridos. Eles já receberam alta, mas ainda não falaram publicamente sobre o caso.

Cubanos no exílio também levantaram a possibilidade de atentado. Omar López Montenegro, diretor do Departamento de Direitos Humanos da Fundação Nacional Cubano-americana (FNCA), com sede em Miami, disse que Payá fez uma ligação na tarde de domingo na qual disse estar sendo perseguido. Não está claro, porém, para quem o ativista teria telefonado.

"Infelizmente é uma morte que aconteceu em circunstâncias muito obscuras, um acidente provocado por uma perseguição", disse Montenegro. "Os carros foram retirados (do local do acidente) imediatamente, nem sequer há informações claras sobre os dois estrangeiros que estavam com ele.”

Segundo opositores cubanos, Payá viajava para uma área do território cubano que sofria com uma epidemia de cólera que, afirmam, as autoridades quiseram subestimar. "Denunciaremos esse caso perante organismos internacionais porque a morte de Payá confirma o padrão de violência e assédio contra a oposição pacífica em Cuba por parte das autoridades", disse Montenegro.

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Parentes de Oswaldo Payá, morto em um acidente de carro, são vistos em sua casa em Havana
AP
Parentes de Oswaldo Payá, morto em um acidente de carro, são vistos em sua casa em Havana

No entanto, a Comissão de Direitos Humanos, uma entidade ilegal, mas tolerada pelo governo comunista, descartou a possibilidade de atentado.

"Pedimos para dois colaboradores que moram em Bayamo que fossem ao local do acidente. Eles viram a árvore em que o carro bateu e confirmaram que o impacto foi brutal e não havia outro veículo envolvido", disse o líder do grupo, o dissidente Elizardo Sánchez. "Algumas rádios de Miami disseram que o carro foi perseguido, mas nosso trabalho é se ater aos fatos, e os fatos são consistentes com um infeliz acidente", acrescentou.

O senador cubano-americano pela Flórida, Marco Rubio, pediu “proteção” a todos que tenham informações sobre a morte do ativista. "Enquanto tentamos saber mais sobre as circunstâncias da morte de Payá, é extremamente importante que a comunidade internacional se una àqueles que estão em Cuba para pressionar o regime a revelar a verdade logo", afirmou Rubio em comunicado.

Repercussão

Nesta segunda-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, lamentou a morte de Payá e reafirmou o apoio de Washington à luta pelos direitos humanos na ilha.

O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, disse que "Payá dedicou décadas de sua vida à luta não violenta pela liberdade e pela reforma democrática em Cuba” e "manteve até o fim sua esperança de que o país que amou veria uma transição pacífica e democrática".

"A visão e a dedicação de Payá por um futuro melhor em Cuba continuará nos inspirando, e acreditamos que seu exemplo e liderança moral perdurarão", ressaltou o porta-voz.

Assim como a filha de Payá, o republicano Mitt Romney , rival de Obama nas eleições presidenciais de novembro, questionou as circunstâncias da morte do dissidente. "As circunstâncias que cercam a morte de Payá novamente levantam dúvidas sobre o padrão de conduta do regime despótico (cubano), que busca constantemente formas de aniquilar a dissidência interna", disse Romney em um comunicado.

A Europa também manifestou pesar. "Payá dedicou sua vida à causa da democracia e dos direitos humanos em Cuba", declarou em Bruxelas um porta-voz da chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton.

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, disse que a morte de Payá "é uma notícia triste para todos que acreditam e lutam pela liberdade e democracia no mundo".

Payá, 60 anos, foi o fundador do Movimento Cristão Libertação e o promotor do chamado "Projeto Varela", uma iniciativa para introduzir reformas à Constituição que apresentou ao Parlamento cubano em 2002, após recolher 11.020 assinaturas de apoio.

Em outubro de 2002, o Parlamento Europeu lhe outorgou o prêmio Sajarov para os Direitos Humanos e a Liberdade de Pensamento, em reconhecimento à sua luta pacífica a favor da transição à democracia em Cuba.

Com EFE e AFP

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