Oposição tenta usar eleição municipal para testar chavismo

Por BBC Brasil |

compartilhe

Tamanho do texto

Oposição tenta medir a popularidade de Maduro, que assumiu o governo do País após a morte de Chávez

BBC

Na primeira eleição sob o governo do presidente Nicolás Maduro, os venezuelanos vão às urnas neste domingo para eleger novos prefeitos, numa disputa que tende a consolidar a hegemonia do chavismo em todo o país.

Conheça a nova home do Último Segundo

Opositores, no entanto, enxergam uma oportunidade para transformar o pleito numa espécie de plebiscito para medir a popularidade de Maduro - com o objetivo de reunir forças para impedir o término de seu mandato.

AP
Ruas tomadas por propagandas eleitorais em cidade venezuelana

De acordo com pesquisas de intenção de voto, o chavismo deverá obter a grande maioria das 335 prefeituras em disputa. Atualmente 280 municípios são administrados por governistas.

A oposição, por sua vez, aparece com vantagem nas cidades mais populosas. As "jóias da coroa" são disputadas em duas cidades emblemáticas: a capital Caracas, subdividida em cinco prefeituras e Maracaibo, capital de Zulia, principal estado petrolífero do país.

Visto historicamente como uma disputa de menor importância, esse pleito ganhou relevância especial, sobretudo entre a coalizão opositora.

Durante a campanha, Henrique Capriles, principal líder opositor, governador do Estado de Miranda, defendeu a idéia de que o pleito municipal será uma espécie de plebiscito nacional sobre a administração Maduro.

A lógica dos opositores é simples: se conseguirem mais votos que o chavismo na soma total de todas as prefeituras, poderão capitalizar essa força eleitoral para tentar encurtar o mandato de Maduro por meio de um referendo revocatório.

A medida pode ser aplicada em dois anos, quando a Constituição permite a realização de um referendo que pode decidir a continuidade ou não do mandato presidencial.

"Para poder chegar a uma mudança nacional, temos que ganhar no domingo. Que ninguém deixe de votar (…) não somente para eleger líderes (municipais) mas também para derrotar o caos e o governo ineficiente”, afirmou Capriles, durante um comício.

Ele assumiu a campanha dos candidatos da oposição como se a disputa em jogo fosse a Presidência.

A lógica adotada por Capriles em reforçar a idéia de um plebiscito sobre a gestão de Maduro busca não somente calcular o número de eleitores opositores, mas sobretudo, de sua própria sobrevivência política, na opinião do analista político Miguel Tinker Salas, professor de História Latino-americana da Pomona College, da Califórnia.

"Para Capriles essa tática é essencial para manter seu protagonismo entre a aliança opositora, onde sua liderança é questionada por alguns grupos", afirmou Salas à BBC Brasil.

Mais: Presidente da Venezuela assina decreto para controlar preços de carros

Inflação

A hegemonia chavista esteve visivelmente abalada durante a campanha. Filas intermináveis para comprar productos escassos da cesta básica e uma inflação anual acumulada em 54% aumentaram o descontentamento da base governista, apoiada em sua maioria pelos pobres.

Numa tentativa de reverter a crise política, Maduro decidiu controlar a inflação "por decreto". Pouco antes das eleições, o presidente utilizou seus "poderes especiais", concedidos pelo Congresso para governar por decreto. Ele estabeleceu uma lei que limita o lucro de empresários a 30% do custo total dos produtos.

O Exército foi convocado para ajudar na fiscalização. O setor privado foi obrigado pelo Executivo a baixar os preços, sob ameaça de prisão pelos crimes de especulação e usura.

Em meio a essa disputa, a "ofensiva" de Maduro contra o que ele chama de "guerra econômica" contra seu governo teria gerado o efeito desejado.

De acordo com o analista político Luis Vicente León, diretor do instituto Datanalisis, a queda nos preços teria aumentado a disposição dos eleitores em apoiar os candidatos governistas.

"Ainda considerando que é uma situação atípica e que poderia gerar um entusiasmo momentâneo, as probabilidades de que o governo obtenha uma vitória aumentaram", afirmou León à BBC Brasil. Ele disse porém que as medidas não resolvem o problema econômico de maneira estrutural.

“Se torna evidente que as pessoas sentem que Maduro está tomando o mando, atuando e acompanhando-os. Isso lhe dá popularidade, ao menos no curto prazo”, disse.

Lojas lotadas

Desde a intervenção do Executivo no comércio local, lojas de roupas e eletrodomésticos se viram cercadas por multidões de clientes ansiosos por comprar os presentes de Natal.

"Tenho três filhos e estava bem difícil comprar para todos, mas agora que baixaram (os preços) consegui comprar até pra mim", afirmou à BBC Brasil a dona de casa Milagros Zambrano.

"Depois disso, muita gente vai responder positivamente (a favor dos candidatos governistas)", disse.

Após quatro horas de espera para entrar numa loja de eletrodomésticos em um dos shoppings mais movimentados do leste de Caracas, a estudante Oriana Luz, demonstrava descontentamento ao considerar tardia a redução dos preços.

"O governo busca beneficiar-se por causa das eleições e muitas pessoas se deixam convencer", afirmou. "Por mais que baixem os preços está tudo muito caro, o salário não dá".

Chávez

Há oito meses à frente do governo, Maduro ainda padece com a ausência de seu líder Hugo Chávez, morto em março.

Sob sua sombra e na tentativa de capitalizar eleitoralmente o luto ainda presente entre os chavistas, Maduro decretou o dia das eleições, 8 de dezembro, como dia de lealdade à Chávez.

A data também coincide com o dia em que Chávez tornou público seu testamento político, ao delegar a Presidência e a "revolução bolivariana" a ele, caso não se recuperasse.

Na reta final da campanha, rumores de golpe de Estado e de atos de sabotagem se fortaleceram.

Na segunda-feira, um apagão generalizado em todo o país foi foco de polêmica e troca de acusações entre governo e oposição. O Executivo afirma que a falha no sistema elétrico foi provocada e diz que a oposição pretende gerar focos de desestabilização para impedir a realização do pleito.

A oposição rejeitou as acusações e utilizou a falha no sistema elétrico como mais uma mostra da ineficiência do governo em administrar o país.

Leia tudo sobre: venezuelaeleiçõeschavismomaduro

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas