Uma noite com os estudantes que tomaram a Câmara Distrital de Brasília

Saiba os bastidores da ocupação de manifestantes contra o esquema de corrupção no DF

Fred Raposo, iG Brasília |

Passa das 2h30 de quinta-feira, madrugada seguinte ao aniversário de 50 anos de Brasília. Três figuras esqueléticas esgueiram-se à meia luz que banha parte do segundo pavimento da nova sede da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Faz mais de sete horas que o prédio foi ocupado por manifestantes do movimento Fora Arruda e Toda Máfia, que protesta contra o recém-eleito governador do DF, Rogério Rosso (PMDB).

No chão, restos de comida misturam-se a conversas de grupinhos de estudantes - em sua maioria, da Universidade de Brasília (UnB). O trio, porém, não está disperso. Reúne-se em torno de um palanque improvisado (uma caixa de papelão com o desenho do Bob Esponja, em forma de panetone). Eles debatem os últimos detalhes da tarefa que vai lhes custar boas horas de sono: explorar o perímetro para, pela manhã, dar um parecer ao movimento sobre o melhor lugar para os manifestantes negociarem sua estada na Câmara.

"A preocupação é garantir a segurança das pessoas", assevera a única menina do trio, que identificou-se como Talitha, 24 anos, estudante do décimo período de direito da UnB. Talitha e os dois outros manifestantes integram a "comissão" de segurança do movimento - uma das quatro organizadas para "gerir" a ocupação, que inclui ainda logística, mobilização e comunicação. Inicialmente, eram quarenta estudantes. Mas, depois que a polícia militar deixou o prédio, por volta das 22h30 de quarta-feira, o fluxo oscilou, chegando a reunir perto de oitenta manifestantes. 

Com a inauguração atrasada, os corredores da Câmara tornam-se, na clandestinidade da madrugada, um prato cheio para os estudantes. Eles entram nos gabinetes, penduram bandeiras nas janelas, apreciam a vista - privilegiada - do terraço do prédio e fazem um piquenique (com direito a leite, pão, frutas, suco, biscoito e refrigerante) no piso de granito do primeiro pavimento do prédio.

No saguão do segundo pavimento, onde o grupo se instalou para passar a noite, uma estudante de agronomia cola cartazes na entrada dos banheiros com os dizeres: "POR FAVOR, MANTENHAM A PORTA ABERTA". Não há, entretanto, diferenciação entre o sanitário masculino e o feminino, o que por vezes enseja encontros inusitados entre seus frequentadores.

A incursão noturna pelo prédio parece espantar o estudante de ciências políticas que apresentou-se ao iG apenas como Thiago. "Aqui é onde assam a pizza", comenta, enquanto passa pela sala, ainda desmobiliada, cuja plaquinha na entrada anuncia: "Auditoria Interna da Câmara", localizada no quinto pavimento. O porte da edificação também é motivo de exclamações: "É como um rei que constrói um palácio a cada ano", compara.

Orçada em 2002 em R$ 42 milhões, a obra ultrapassou, este ano, a casa dos R$ 106 milhões, afirma o secretário substituto do Gabinete da Mesa Diretora da Câmara, Fernando Taveira. A nova sede tem 40 mil metros de área construída, com cinco pavimentos, um auditório para 500 pessoas, 12 elevadores, 900 vagas e 24 gabinetes com 90 m2 cada. Um passeio, guiado às luzes de uma vela e de uma lanterna embutida em celular, revela que resta pouco a fazer na obra: o piso foi colocado, as paredes pintadas, as luzes instaladas. Tudo devidamente "inspecionado" pela comissão de segurança dos estudantes.

Há camas improvisadas nos diversos andares do edifício. Quando a ronda termina, às 3h30, o que resta da ocupação são dezesseis pessoas esparramadas pelo chão do saguão do segundo pavimento. Uns no granito resfriado pela noite, outros em pedaços de papelão. Os mais abastados espremem-se sobre confortáveis edredons. E, sob um lance de escadas, é possível distinguir o "palanque" de papelão do Bob Esponja estirado no chão, deixando escapar de dentro dele um par de pernas e um leve ressonar, indo a lugares aonde a política jamais chegará.

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