Para especialistas, Caso Arruda mostra que fraudar, mentir e omitir são instrumentos de poder vistos como normais pelos políticos

Preso pela Polícia Federal por uma decisão do STJ, Arruda é reincidente em escândalos políticos

Gustavo Gantois, iG Brasília |

José Roberto Arruda é o exemplo típico do político brasileiro que, compulsivamente, mente, faz conluios e menospreza a inteligência alheia. Essa é a opinião de especialistas que o iG consultou na intenção de traçar o perfil do agora governador licenciado do Distrito Federal.

Preso pela Polícia Federal por uma decisão do Superior Tribunal de Justiça, Arruda é reincidente em escândalos políticos. Da primeira vez, em 2001, quando era senador e foi acusado de violar o painel do Senado na votação que cassou o mandato de Luiz Estevão, Arruda debruçou-se na tribuna e chorou ao afirmar sua inocência. Não adiantou e ele foi obrigado a renunciar.

No caso recente, Arruda utilizou de panetones e versões inverossímeis de bilhetes escritos de próprio punho para tentar convencer a população de que falava a verdade. Mais uma vez, não deu certo.

"Ele é produto de um sistema político arcaico e aristocrático, que se julga superior aos mortais pagantes de impostos e só está interessada em fazer acordos espúrios e favorecer os seus pares", analisa Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia da Universidade de Campinas. "Ele não tem o famoso desconfiômetro para a questão ética."

"A prisão de Arruda, inclusive, é motivo de comemoração. Não entendo porque a Justiça ainda aceita o privilégio do foro quando é notória a quebra do princípio da igualdade de todos perante a lei", afirma Romano. "Fico animado quando vejo que juízes assumem a responsabilidade de lembrar aos ditos homens públicos que eles tem deveres a cumprir."

Linhagem política

Para o antropólogo Roberto DaMatta, a política brasileira "passou a ser o espaço do conquistador, do trêfego e do sujeito voraz pela coisa pública". De acordo com ele, Arruda vem da mesma linhagem política do Sarney e do Maluf, onde o estilo rouba, mas faz virou sinônimo de manutenção do poder.

"A consciência desses sujeitos é a de que se ele não roubar, outro vai lá e rouba", diz DaMatta. "E o pior é que eles criam uma cultura do puxa-saquismo oficial que estimula o surgimento de seres que só fazem perpetuar esse vício."

Sociedade culpada

Mas se há políticos que se manifestam desta forma, a culpa não é uma exclusividade deles. "Arruda é um fenômeno de desprezo da sociedade brasileira em relação à política", afirma o cientista político Murillo de Aragão, da Arko Advice. "Ele não é novo, não é o primeiro e nem será o último de um sistema político que ainda é precário."

Para Aragão, "o falar, o omitir e o mentir são instrumentos de poder vistos como normais pelos políticos. Há um estabelecimento de um cabo de guerra que resulta, como único caminho, a Justiça", completa o cientista político.

A opinião é compartilhada pela psicanalista Sueli Gevertz. Segundo ela, o caso do governador licenciado do Distrito Federal é um "emblema da questão ética que resvala na capacidade da população de escolher seus mandatários".

"As pessoas já não sabem mais quem representar e muito menos quem elas escolhem para serem representadas", teoriza Gevertz. "O que mais surpreende nessa história é como os brasileiros insistem em cair nessas mentiras. Sendo assim, não sei se os políticos, e Arruda em especial, menosprezam a nossa inteligência, mesmo porque nós não estamos nos mostrando inteligentes em escolhê-los.

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