Arruda, o político que jogou fora sua segunda chance

Ex-governador detinha amplo apoio popular e estava bem avaliado quando a Polícia Federal divulgou vídeos avassaladores

Matheus Leitão e Rodrigo Haidar, iG Brasília |

Brasília transformara-se num canteiro de obras para comemorar o aniversário de 50 anos de sua inauguração. O governador José Roberto Arruda (ex-DEM e agora sem partido) detinha amplo apoio popular, estava bem avaliado como gestor e parecia pronto para ser reeleito facilmente. A cidade viveu uma crise sem precedentes, agravada com a prisão do governador.

Arruda e seus seus secretários e aliados na Câmara Distrital são acusados de envolvimento no esquema de corrupção revelado com a abertura da caixa de Pandora, quando apareceram os vídeos da operação da Polícia Federal batizada com o nome da deusa grega.

É o segundo tombo na vida política de Arruda, mas esse consegue deixar o primeiro parecendo um simples tropeço. Em 2001, o então senador Arruda foi acusado de ter quebrado o sigilo da votação da sessão que cassou o mandato de Luiz Estevão de Oliveira.

Ele era líder do governo Fernando Henrique e um político em ascensão. Atendendo a um pedido do senador Antonio Carlos Magalhães, Arruda abriu um envelope com a lista dos votos de cada senador e assim soube como tinham votado os seus pares. O envelope lhe fora entregue pela diretora do serviço de informática do Senado, Regina Célia Borges.

Acusado, Arruda negou inicialmente num forte discurso no Senado. Confrontado com as evidências apresentadas no depoimento da diretora, ele subiu à tribuna e fez um dos raros discursos de confissão e arrependimento na intensa história recente dos escândalos políticos no Brasil. Chorou, admitiu o erro, disse que ao menos não era corrupto, pediu desculpas e renunciou para não ser cassado.

A partir daí começou a reconstruir sua vida política. Em 2002, foi o mais votado dos candidatos a deputado do DF, com 26% dos votos válidos. Em 2003, a denúncia contra ele pela violação do painel foi rejeitada no Supremo Tribunal Federal. Livre do fantasma do passado, em 2006 foi eleito governador.

Tudo parecia perfeito até que começaram a aparecer as fitas gravadas por Durval Barbosa, seu ex-secretário de Relações Institucionais. Reveladas em primeira mão pelo iG , as fitas são avassaladoras. Mostram que o esquema de distribuição de dinheiro sem origem e em espécie era disseminado por toda a base política do governo do Distrito Federal.

Uma das fitas mostra o próprio governador recebendo dinheiro. As cenas chocaram o País e há fortes indícios de que essa fartura monetária, que encheu meias, bolsas, bolsos, e cuecas dos políticos e empresários de Brasília venha de comissões cobradas pelo governo em seus contratos de prestação de serviços de informática.

Durval serviu também ao governo anterior de Joaquim Roriz, mas não é a única ligação entre Arruda e o velho político de Brasília, ex-senador que também já teve que renunciar ao mandato em meio a escândalo.

Arruda começou a carreira nos anos 1970 na Novacap, companhia responsável pela construção de Brasília. Nos anos 1980 foi diretor da CEB, Companhia Energética de Brasília e se aproximou de políticos que poderiam ajudá-lo em sua ascensão política: o então governador José Aparecido e depois seu sucessor Joaquim Roriz.

Virou chefe de gabinete e secretário de Obras no governo Roriz no começo da década de 1990. Com o apoio do então governador se elegeu senador em 1994 pelo PP. Foi o segundo mais votado com 301.194 votos. No ano seguinte rompeu com Roriz e filiou-se ao PSDB. Era tucano quando foi colhido pelo escândalo do painel. Depois da crise, filiou-se ao DEM para retomar sua carreira política. No novo partido foi à forra derrotando a candidata do PSDB, Maria Lourdes Abadia, na disputa para o governo do DF com mais do que o dobro dos votos no primeiro turno.

Nesta volta à política contou de novo com o apoio de Roriz, então chefe de Durval Barbosa e o manteve com poder e prestígio na sua administração até a divulgação das fitas gravadas pelo ex-auxiliar.  Durval entregou as informações do que se passava no interior do governo Arruda numa negociação de delação premiada a Polícia Federal. No meio do mandato rompeu de novo com Roriz.

Hoje os dois políticos estão em campos opostos, a tal ponto que a derrocada de Arruda poderá favorecer os planos políticos de Roriz. Mas basta um olhar mais atento para se perceber os vários pontos de contatos e a coincidência de métodos e pessoal entre os dois governos.

Viagem

No último domingo de 2009, dia 27, o governador José Roberto Arruda decidiu sair de Brasília pela primeira vez desde início do escândalo. Junto com a mulher, Flavia, e a filha Maria Luisa, Arruda foi a uma fazenda tentar tirar os olhos das imagens que podem ser o fim de sua carreira política.

Inicialmente a viagem seria para ficar uma semana fora de casa e da cidade, mas Arruda não aguentou ficar longe de Brasília. Na terça-feira, dia 29, colocou as malas no carro no fim da manhã. À tarde, voltou para a capital. Confidenciou a amigos no mesmo dia: Saio da política ano que vem e não volto mais. Se voltar em 2014 ou em 2018, alguém pega aquela imagem e usa contra mim. Aquilo é destruidor. Não agüento mais ver.

O governador tem dito que pegaram uma imagem fora de contexto e a transformaram em algo distante da realidade. Vou viver do meu salário de funcionário aposentado da Companhia Energética de Brasília (CEB), que é muito bom, diz.

Nos últimos meses, antes de a imagem em que ele recebe dinheiro ser divulgada, Arruda estava estressado. Passou mal alguns dias e não tinha tempo para os aliados políticos. Sabia da existência da fita. Tinha certeza que era uma questão de tempo para a cena vir a publico. Um amigo em comum garante: os três meses anteriores foram ainda piores do que a tempestade que veio depois com a operação policial.

Pandora era uma mulher com muitos dons, segundo a mitologia grega, mas com dois terríveis defeitos: a mentira e a traição. Quando, desobedecendo as ordens que tinha, Pandora abriu sua caixa, ela espalhou pela humanidade uma seqüência de tormentos. Ficou guardada na caixa apenas a esperança. Nos sucessivos escândalos que atormentam o eleitor brasileiro, não há nem mesmo a esperança de que esse seja o último. Quanto à moderna caixa de Pandora de Brasília ela continua espalhando evidências de uma espantosa rotina administrativa.

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