Na saída, cada presidente tem seus motivos para o silêncio ou para frases de efeito

Na hora da partida, há presidentes que falam e há presidentes que calam. Depende do humor do governante e de como está a situação do País quando ele entrega o cargo. De todos os que passaram pelo Palácio do Planalto, quem cunhou a frase de despedida mais caustica foi o último dos generais da ditadura militar, o irritadiço João Baptista de Oliveira Figueiredo.

Em entrevista ao repórter Alexandre Garcia – que havia servido como seu porta-voz –, desgastado por não ter conseguido impor seu sucessor no Palácio do Planalto, Figueiredo fechou a conversa assim: “Bom, o povo, o povão que poderá me escutar, será talvez os 70% de brasileiros que estão apoiando o Tancredo ( Neves, eleito pelo Colégio Eleitoral, contra Paulo Maluf ). Então desejo que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom governo para eles. E que me esqueçam.” Este “Que me esqueçam” entrou para a história e para o imaginário popular.

Seu sucessor, José Sarney, entregou o governo a Fernando Collor de Mello com inflação de 86% ao mês e sem nenhuma grande despedida. Deixou o Planalto num ônibus, isolou-se na ilha do Curupu e, quando foi ser candidato ao Senado pelo Amapá, confessou depois que teve medo de acordar com protestos diante da sua casa. Na primeira manhã em Macapá, no entanto, despertou com mulheres agradecendo pelo programa do leite.

Presidente Lula concede entrevista exclusiva ao iG
Felipe Bryan Sampaio
Presidente Lula concede entrevista exclusiva ao iG
Seu sucessor, o jovem caçador de marajás do Estado de Alagoas – eleito em 1989 numa acirrada disputa com Luiz Inácio Lula da Silva – viu-se acusado de montar um amplo esquema de corrupção no governo. Acabou renunciando na fase final de um rumoroso processo de impeachment. Sua última tentativa de manter-se no cargo foi um pedido à população para vestir-se de verde-amarelo e ir às ruas em sua defesa. E um brado de socorro: “Minha gente, não me deixe só!” Não deu certo. As ruas encheram-se de caras-pintadas e gente vestida de preto.

Seu vice, Itamar Franco, recebeu um governo de União Nacional, estabilizou a moeda e elegeu o sucessor, Fernando Henrique Cardoso. Fiel a seu estilo, Itamar preferia reclamar, entre amigos, do fato de FHC ter-lhe roubado os louros do Real a dar declarações públicas que lhe restituíssem a autoria.

Fernando Henrique Cardoso tem talento para frases marcantes, mas queimou o capital político do primeiro mandato para se reeleger. E as dificuldades econômicas da segunda gestão – incluindo um racionamento de energia que anulou o crescimento do País e ajudou na eleição do oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva – não recomendavam muito estardalhaço na saída.

FHC conduziu a mais civilizada e elegante transição política da redemocratização e, talvez por isso mesmo, preferiu a cautela a uma despedida marcante. “Vou sentir saudades da piscina do Alvorada”, talvez seja a frase do seu último ato.

O presidente Lula, do alto dos seus 80% de popularidade, está à vontade para falar. Não precisa pedir que o esqueçam, nem pedir socorro. Por isso essa entrevista ao iG mostra-se reveladora: Lula diz que não só deseja continuar lembrado, como também que pretende ficar muito tempo por aí.

“Eu quero ser lembrado pelas coisas boas que eu fiz. E quero ser lembrado pelas coisas que eu não fiz” , declarou ao iG . “Eu vou continuar sendo um político, vou continuar andando pelo Brasil. Quero entrar num bar e tomar uma cerveja com meus companheiros. Eu quero tentar voltar a levar uma vida normal.”

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