Preço da mensalidade não mensura qualidade

Desempenho no Enem comprova que há pouca variação entre notas das escolas e diferenças de até 720% nos valores pagos pelos pais

Priscilla Borges, iG Brasília | 24/07/2010 08:00

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Na hora de escolher uma escola, os pais ponderam questões práticas como localização e preços, mas encaram o desafio de reconhecer nos estabelecimentos indícios de que o ensino oferecido por eles é de qualidade. A estrutura do colégio, a fama dele na cidade, a recomendação de amigos e, cada vez mais, os resultados de avaliações têm influenciado as decisões das famílias sobre onde matricular os filhos.

Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2009, como alertam os especialistas, são indicadores, mas não apontam sozinhos a qualidade das escolas. Mesmo assim, eles revelam aspectos importantes para a análise dos pais. Primeiro, nem sempre os colégios mais caros se destacam nas avaliações. Depois, mostram que as famílias devem ter clareza do que esperam do colégio e ponderar se os valores cobrados valem o serviço.

O iG levantou quanto custam as mensalidades das 50 escolas privadas que mais se destacaram no Enem em 2009. Elas estão concentradas em dez Estados brasileiros: Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Um terço delas está fora das capitais. A variação entre as notas é de apenas 50,98 pontos, mas, entre as mensalidades cobradas, chega a 720% (veja tabela no final da reportagem).

A mais cara entre as melhores do ranking elaborado a partir das médias globais – que consideram as notas das provas objetivas mais a redação e só foram calculadas para quem teve mais de dez alunos participantes no Enem – é o Vértice, em São Paulo, que lidera a lista das tops. Os R$ 2.756 cobrados mensalmente dos alunos contrasta com a segunda colocada, o Instituto Dom Barreto, de Teresina (PI). Lá, a mensalidade é R$ 640, quatro vezes menor.

A mais barata, por sua vez, está na cidade de São João del Rei, em Minas Gerais. Há 200 km de distância da capital mineira, Belo Horizonte, a cidade de cerca de 180 mil habitantes se destacou no Enem com o Centro Educacional Frei Seráfico. O colégio ligado à Rede Pitágoras de ensino cobra R$ 382 mensais dos 46 estudantes matriculados no 3º ano do ensino médio. Do total, 42 participaram do exame e obtiveram média 699,22, ficando em 48º lugar geral.

Apesar de o Vértice cobrar 720% a mais que o Frei Seráfico, as notas dos dois não são distantes. Cinquenta pontos os separam no ranking apenas. O que provoca tantas diferenças de preços é localização, custo para manutenção da escola, salários dos professores e funcionários, tempo de aulas, atividades oferecidas. São Paulo é o Estado com mais colégios entre cinco mais caras do ranking das 50 melhores. São quatro. Todas na capital.

O Colégio Bandeirantes, o Mobile e o Santa Cruz também estão na “liderança” dos preços das escolas com melhor desempenho nacional no Enem. No Bandeirantes, a mensalidade está em R$ 1.908. Os pais também têm de pagar uma taxa de R$ 2 mil para comprar as apostilas usadas ao longo do ano pelos estudantes do 3º ano do ensino médio. O Mobile cobra R$ 1,9 mil mensais e o Santa Cruz, R$ 1.790.

Entre regiões
A diferença entre a capital e o interior do Estado é grande. Na amostra das 50 primeiras entre as privadas, há 11 colégios paulistas. Além das que estão na capital, o mais caro está em Sorocaba. O Colégio Uirapuru cobra R$ 1.404,25 ao mês. Depois, dois da cidade de Campinas aparecem na lista, a Escola Comunitária de Campinas, cuja mensalidade é R$ 1.164, e o Colégio Integral de Alphaville, R$ 1.020 ao mês. O Alphaville ficou na quarta colocação geral dos melhores do País e cobra R$ 1,5 mil a menos que o primeiro da capital. Em Itapira, o mais barato entre os melhores colégios privados de São Paulo, a mensalidade é R$ 633.

O Rio de Janeiro aparece na sequência dos estados que mais cobra caro pelo ensino na última série da educação básica. Dos 16 que aparecem na amostra analisada pelo iG, apenas dois cobram menos de R$ 1 mil por mês: o Colégio Ipiranga, de Petrópolis, e o Marília Mattoso, de Niterói. Nos outros, as mensalidades estão acima de R$ 1,2 mil.

O Colégio de São Bento, terceiro colocado no ranking de desempenho das privadas, tem a segunda mensalidade mais cara da amostra. A mensalidade é R$ 1.917,64. Depois, aparecem o Colégio Israelita Brasileiro A. Liessin Scholem Aleichem (R$ 1.740), o Teresiano (R$ 1.575), o Andrews e o Santo Inácio (R$ 1.508), o Cruzeiro – Centro (R$ 1.479,41) e o Franco Brasileiro (R$ 1.452) como os mais caros.

Entre os dez primeiros colocados, apenas dois cobram menos de R$ 1 mil. O Instituto Dom Barreto, de Teresina, e o Bernoulli, de Belo Horizonte. Como já citado, o primeiro cobra R$ 640. Como a maioria dos primeiros colocados, oferece aulas em tempo integral. As mensalidades no Bernoulli são de R$ 988.

Perfil familiar
O presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), José Augusto Lourenço, diz que as diferenças de preços entre escolas existem em todas as cidades e níveis de ensino. Segundo ele, o que determina essas variações é o tempo de aulas, a quantidade de atividades oferecidas pelo colégio, os equipamentos colocados à disposição dos alunos, a qualificação dos profissionais que atuam nos estabelecimentos.

“Outros itens também influenciam os preços cobrados e têm a ver com a região onde está localizada a escola, por exemplo. Uma escola em bairro nobre paga muito mais IPTU do que a que está na periferia. Isso tudo entra no orçamento da escola, assim como a segurança oferecida aos alunos, por exemplo”, ressalta.

Para ele, definir escolas com qualidade é algo muito subjetivo. “Tudo depende do que a família quer para o filho. Infelizmente, com o Enem se tornando obrigatório para conseguir vagas em tantas universidades públicas, muitas escolas vão prepará-los só para isso, como já acontece com o vestibular. Muitas vezes motivadas exclusivamente pelo marketing”, critica.

Remi Castioni, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que o Enem deveria mostrar o que considera o mais importante: o quanto as escolas contribuíram para o sucesso escolar do aluno. “Tenho certeza de que o efeito-escola nas particulares é quase nulo. Esses jovens vêm de famílias escolarizadas, com boas condições financeiras, que estimularam essas crianças a aprender”, afirma.

De acordo com o professor, os pais jamais devem escolher um colégio pelo preço. Ele defende que os pais priorizem escolas em que os conteúdos sejam repassados de forma integrada e articulada. José Augusto aconselha que os pais analisem com cuidado as propostas pedagógicas das escolas, visitem todos os ambientes do colégio antes da matrícula e levem os filhos às escolas. “Se eles não se sentirem bem no local, não vão conseguir aprender”, diz.

Lições estrangeiras
É bom lembrar que no ranking das melhores escolas, apesar de haver algumas das mais caras do País, não estão todas. As escolas internacionais, como as americanas e britânicas, cobram um preço alto dos pais. A Escola Americana do Rio de Janeiro, por exemplo, tem mensalidades que variam entre 2,2 mil na pré-escola e R$ 5 mil no ensino médio. Além disso, os ingressantes precisam pagar uma cota única de US$ 6,5 mil, que vai para um fundo da escola. Na Escola Britânica da capital carioca, as mensalidades estão em R$ 3,5 mil.

Em São Paulo, a Graded – The American School of São Paulo está entre as mais caras da cidade. Para estudar na instituição, as famílias pagam taxa de entrada no valor de R$ 28.350 e as mensalidades do ensino médio custam R$ 5 mil. A Alphaville International School e o Colégio Santo Américo também cobram mais de R$ 2 mil por mês dos matriculados na última etapa da educação básica. A primeira, R$ 2.464,86. A segunda, R$ 2.526,00. No Distrito Federal, a Escola Americana de Brasília desponta entre as mais caras: R$ 3.393 ao mês.

Esses colégios nem aparecem nas listas do Enem. As propostas são diferenciadas e estão mais adequadas aos programas dados nos países de origem das instituições do que aos programas brasileiros. “São escolas biligues, com projetos pedagógicos distintos. Os pais têm de matricular os filhos sabendo o que querem com a experiência de aprender outra língua desde cedo, conviver com estudantes de outros países”, ressalta José Augusto Lourenço, da Fenep.

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