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04/11 -
01:27
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Nathália Goulart, do Último Segundo
A política externa dominou os debates e as propostas dos candidatos à presidência da República dos EUA, John McCain e Barack Obama, no início da disputa. Mas o cenário internacional das eleições americanas ficou restrito ao Afeganistão e Iraque, onde os EUA protagonizam guerras impopulares. Com o agravamento da crise financeira, porém, a economia pautou os debates seguintes e passou a ser o centro da disputa presidencial.
O Brasil e a América Latina não foram destaques durante a campanha. Nos três debates entre os candidatos, o Brasil foi citado uma só vez pelo senador republicano John McCain que se referiu ao etanol brasileiro. “Faltaram plataformas pelo continente,” aponta Sean Purdy, professor da História dos Estados Unidos da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores do livro "A História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI".
Interesse brasileiros
Analistas chegaram a apontar que a eleição do republicano John McCain seria mais vantajosa para o Brasil devido ao histórico protecionismo democrata. Sean, porém, acredita que as relações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos devem sofrer poucas alterações.
Com o agravamento da crise econômica, a postura do presidente americano tende a ser a mesma independentemente do partido ou do histórico. "As diferenças entre democratas e republicanos não ficaram muito claras e o Brasil deve sofrer (com a crise) de qualquer maneira na medida em que os EUA são um grande mercado consumidor", aponta o professor da USP.
O professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Edson Nunes, não vê no resultado das eleições americanas uma vantagem para o Brasil. “Os democratas levam a bandeira do protecionismo e isso deve dificultar a penetração do Brasil no mercado americano. Caso Obama seja eleito, essa não é uma notícia muito boa para os brasileiros.”
O Brasil até chegou a ser mencionado por McCain no terceiro e último debate presidencial. McCain disse que, diferentemente de Obama, se opõe aos subsídios ao etanol produzido no Brasil porque eles provocam distorções no mercado e podem levar à inflação. Mas a menção ao país parou por ai.
América Latina
Obama chegou a classificar a política externa de George W. Bush como "míope com Iraque" e "negligente com os amigos". Ele defende que agora os EUA devem retomar as relações com a América Latina além do interesse dos Estados Unidos no continente, referindo-se ao estreito laço que o governo Bush mantém com presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.
Dan Restrepo, um dos assessores de Obama para assuntos internacionais, declarou que os Estados Unidos devem trabalhar para a “parceria entre os países da América a fim de que a democracia, oportunidade e segurança sejam difundidas em todos os países da região”.
Em maio deste ano, durante uma aparição na Cuba-American National Fundation (um grupo de exilados cubanos em Miami), Obama divulgou um plano de governo com foco na América Latina. O democrata afirmou que deverá promover a expansão e a reforma democrática das instituições do sul do continente, e reforçou que a os Estados Unidos precisam trabalhar com os governos da nova esquerda latino-americana, incluindo o controverso Hugo Chávez, presidente da Venezuela.
Chávez já sinalizou que quer conversar com “o homem negro” dos Estados Unidos. Para Edson Nunes, da PUC-SP, nada deve mudar nas relações entre os dois países. “A relação dos EUA com a Venezuela é essencialmente comercial. Todo o petróleo da Venezuela escorre para os Estados Unidos. O resto é retórica”, aponta. “Não tenho uma real expectativa de mudança para a América Latina mesmo se Obama vencer.”
A mudança substancial poderia acontecer em relação à Cuba, mas Obama foi categórico: não apóia o fim do embargo à ilha. Entretanto, disse que colocará fim à prisão de Guantánamo.
Sean Purdy salienta que a postura de Obama é mais branda que a de McCain e dos republicanos no governo, mas alerta para a diferença do discurso e da prática. “A imagem (em relação à América Latina) pode mudar, mas a realidade deve ficar a mesma. Falta plataforma política”, pontua.
Manifesto
Líderes acadêmicos dos Estados Unidos encaminharam um documento pedindo que Barack Obama busque uma maior aproximação com a América Latina e promova o desenvolvimento social e econômico da região, caso chegue à Casa Branca.
Em carta aberta, 368 acadêmicos de todo o país pediram que Obama "aproveite a oportunidade de inaugurar um novo período de entendimento e colaboração para o bem comum" com a América Latina.
Eles responsabilizaram o governo do presidente George W. Bush pela deterioração das relações com a região, em um momento no qual "o prestígio dos EUA se encontra em baixa". "Pedimos uma mudança e não só nos EUA", diz a carta.
Os acadêmicos, formados em sua maioria por integrantes da Associação de Estudos Latino-Americanos (Lasa, em inglês), pediram que Obama entenda o "ímpeto para uma mudança progressista" em várias nações da região, após a rejeição do "fracassado modelo do livre mercado".
O México e a América Central são outras áreas da região que merecem uma maior atenção, sobretudo pela vasta emigração rumo aos EUA, que não se resolve, segundo eles, com a construção de um muro.
"A forma de conduzir a imigração não é construindo um muro gigante, mas através do apoio dos EUA a um desenvolvimento econômico mais equitativo no México, na América Central e em toda a região", detalharam
(*com informações da AFP)
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