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Poder da internet é a grande unanimidade desta eleição

04/11 - 02:33 - Leandro Meireles Pinto, repórter do iG nos EUA

SÃO PAULO - Após um confiante John F. Kennedy ter derrotado um trêmulo Richard Nixon nos debates televisivos de 1960, nos Estados Unidos, foi decretado que a televisão seria o fator determinante nas eleições norte-americanas. Hoje, especialistas afirmam que a internet é a mídia que revoluciona a política eleitoral e que pode definir o resultado da eleição presidencial nos Estados Unidos, em 2008.

 

"A internet mudou o panorama da eleição neste ano, principalmente na arrecadação de verbas para a campanha", explicou Joseph Graf, professor de comunicação e política na American University, em Washington D.C. Segundo o professor, o candidato Barack Obama conseguiu reunir uma rede de pequenos doadores que, juntos, fizeram com que o candidato batesse recorde de recursos disponíveis para propaganda. "Se não fosse pela rede de doadores organizada pelo site, Obama não teria tanta vantagem financeira sobre John McCain", afirmou.

Reprodução
Obama revolucionou sistema de doações online
Obama revolucionou sistema de doações online
De acordo com a Comissão Eleitoral Federal, Barack Obama arrecadou US$ 639 milhões até o dia 27 de outubro. John McCain conseguiu levantar apenas US$ 360 milhões. Outra razão para o sucesso de Obama na arrecadação de verba pela internet é a faixa etária de seus eleitores. "As pessoas mais jovens, que tendem a votar em Obama, já estão acostumadas a fazer compras online. Para eles, é normal usar o cartão de crédito na web", disse Graf. O professor explica que o eleitor republicano, mais velho e conservador, não tem segurança em dar o número de cartão de crédito para fazer doações online.

Apesar do sucesso na arrecadação de fundos pela internet na eleição deste ano, foi na campanha de 2004 que a internet passou a ser usada com mais freqüência para fins eleitorais. O então pré-candidato democrata Howard Dean conseguiu arrecadar US$ 50 milhões para a campanha por meio de doações em seu site. O candidato John Kerry fez a mesma coisa e quase conseguiu igualar seus fundos de campanha com o do republicano George W. Bush, que acabou vencendo o pleito.

Comunidade em torno dos candidatos

Na eleição de 2008, a internet não foi usada apenas para arrecadar fundos ou enviar spam e propaganda via e-mail. A rede ficou mais “humana” e os candidatos passaram interagir melhor com seus possíveis eleitores, seja via blogs, vídeos no YouTube ou comunidades em redes sociais como o MySpace e o Facebook.

O professor Joseph Graf explica que um papel crucial da internet foi fazer a ponte entre a campanha e a militância partidária. "Com os sites interativos, ficou muito mais fácil angariar voluntários, criar comunidades para as cidades. As pessoas se conheciam no mundo virtual para organizar eventos e encontros no 'mundo real'", disse. "A internet serviu como um ponto de encontro das pessoas com os mesmos ideais", completou.


Segundo professor, comunidades conectaram candidatos a eleitores

Conteúdo gerado por usuários

Blogs, fotologs, vídeos no YouTube, podcasts e comentários em site. Tudo isso pode ser considerado “conteúdo gerado por usuários”. Esse tipo de conteúdo existe desde os primórdios da internet, ainda na década de 90. Mas nos últimos anos, com as ferramentas do que ficou conhecido como “web 2.0”, os internautas passaram a ter mais facilidade para publicar e divulgar material próprio.

Um dos momentos mais emblemáticos do uso de conteúdo gerado por usuários na política aconteceu nas eleições legislativas norte-americanas em 2006. Quando o senador americano George Allen, republicano da Virgínia, viu um jovem de origem indiana filmando seu comício, não resistiu: "Este 'macaca' [um termo pejorativo] trabalha para meu rival e filma tudo. Palmas para ele", debochou. Em poucas horas, o vídeo estava no site YouTube e a carreira de Allen e uma eleição quase ganha tinham ido para o ralo.

Dois anos depois, o uso do YouTube é muito maior, as câmeras filmadoras digitais se popularizaram e qualquer um pode publicar o que quiser. Agora, os cidadãos são capazes de produzir seus vídeos com impressões sobre determinado candidato. O que antes era uma eleição com propaganda de mão única, de cima para baixo, virou uma via de mão dupla. Os próprios eleitores passam a produzir conteúdo e fazer parte da campanha. "Hoje, o candidato tem que entender que está sendo monitorado 24 horas por dia. Em qualquer lugar que ele vai, tem alguém com uma câmera de celular apontada para ele", disse Garf.


Candidatos são monitorados por celulares e câmeras de eleitores / Arquivo

"Blog pautaram a televisão"

Sites políticos como o Huffington Post, 538.comDaily Kos foram as grandes vedetes da eleição deste ano. "Os blogs ainda não tem o mesmo poder que a mídia de massa da televisão, mas a importância deles é gigantesca nesta eleição. Os blogs políticos pautaram boa parte da cobertura da televisão nesta eleição", afirmou Wicks.

Segundo Wicks, é difícil um blog político mudar a intenção de voto de um internauta porque seu público já é composto de pessoas politizadas e decididas. "A pessoa vai ao blog que é mais compatível com suas idéias. Ele busca o blog apenas para reforçar suas opiniões e encontrar pessoas com pensamento parecido", disse.

Um levantamento feito por Wicks e seus alunos da Universidade do Arkansas mostra que o blog oficial de Barack Obama teve mais de 1.500 posts desde a Convenção Democrata, no fim de agosto. O blog oficial do republicano John McCain teve apenas 192, segundo contagem da equipe de pesquisa de Wicks. "Isso mostra como a campanha de Obama conseguiu usar melhor as ferramentas da internet. Mostra também que o eleitorado de Obama é mais novo e mais ligado às novas tecnologias", disse.

Na opinião do professor, o grande vencedor da batalha online neste ano é o senador democrata Barack Obama. "Ele conseguiu se conectar com os jovens, criou diversos canais de colaboração e revolucionou o financiamento de campanha. Só por isso a internet já vai entrar para a história nessa eleição", disse. " Mas no final das contas, nenhuma mídia é capaz de decidir uma eleição sozinha. É uma conjunção de fatores que faz a cabeça do eleitor", concluiu o professor.

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