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Os desafios do próximo governo

04/11 - 00:33 - Luísa Pécora, repórter Último Segundo

Qualquer que seja o vencedor das eleições dos Estados Unidos, que acontecem nesta terça-feira, uma coisa é certa: o sucessor de George W. Bush vai ter muito trabalho. Seja Barack Obama ou John McCain, o novo presidente vai receber como herança problemas antigos, como a Guerra do Iraque, e recentes, como a grande crise financeira internacional.

 

A economia, um dos principais temas discutidos durante a campanha, deverá ser motivo de preocupação para quem vencer a corrida à Casa Branca. Saber utilizar os recursos do Estado para lidar com a crise será um desafio constante na opinião do cientista político Flávio Rocha de Oliveira, coordenador do curso de Política e Relações Internacionais da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESPSP).

“Será preciso estabilizar e reformar os mercados para garantir a confiança econômica do público interno e externo, e para impedir que a crise se aprofunde, paralisando as relações internacionais”, explica.

Com a difícil obrigação de impedir que a recessão se transforme em uma longa depressão, o novo líder norte-americano terá de tomar decisões que o sociólogo Demétrio Magnoli chama de “corajosas”.

“O governo vai precisar aceitar um déficit orçamentário maior e ajudar os estados com estímulos fiscais diversos e, talvez, programas de obras públicas”, diz o analista, ressaltando que há forte oposição a esse tipo de política nos Estados Unidos.

Magnoli alerta para um segundo desafio, relacionado à crise econômica, que o presidente terá de resolver: a falta de coesão social no país. Segundo o analista, nos últimos sete anos o crescimento do PIB norte-americano não foi acompanhado de um aumento na renda média do trabalhadores.

“Esse tipo de situação é fonte de tensão social importante”, afirma. “O novo líder precisará criar um programa capaz de fazer com que as pessoas voltem a acreditar no sonho americano e na possibilidade de prosperar.”

Nova ordem

Os especialistas ouvidos pela reportagem do Último Segundo acreditam que o novo presidente também terá de adaptar os Estados Unidos a um mundo multipolar, no qual ainda são a potência mais poderosa, mas precisam negociar suas posições. “O grande desafio é reverter os fundamentos da política externa de George Bush em meio a duas guerras”, afirma Magnoli.

Para Flávio Rocha de Oliveira, os conflitos militares no Iraque e no Afeganistão terão de ser solucionados de alguma forma, para que os soldados americanos possam estar liberados para atuar em outros eventuais conflitos. O fato de a força militar americana ser voluntária faz com que qualquer deslocamento de tropa crie um problema.


Soldados americanos patrulham ruas do Iraque / Getty Images

“É a famosa metáfora do cobertor: se você cobre a cabeça, descobre os pés; e se cobre os pés, descobre a cabeça”, compara o cientista político, que não acredita em uma retirada completa, mas aposta em uma significativa redução do número de soldados no Iraque. “No Afeganistão o problema é maior, porque a rigor o Taleban não foi derrotado e a Al-Qaeda ainda tem força”, explica ele, que considera John McCain mais bem preparado para lidar com questões de política externa.

O professor João Paulo Cândia Veiga, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), acredita que qualquer governo americano fará “movimentos em direção ao multilateralismo”.

"Os EUA vão dar apoio às Nações Unidas e a OTAN, ao diálogo e à negociação comercial internacional e negociar de forma mais horizontal os compromissos com a redução de emissão de CO2”, afirma, ressaltando que a segunda versão do Protocolo de Kyoto, tratado ambiental que Bush se recusou a assinar, será fechada em dezembro de 2009.

Margem de manobra

Outra missão do novo presidente americano é recuperar a reputação do país após oito anos de governo Bush, visto com maus olhos por grande parte da opinião pública internacional. Embora não acredite no fim do antiamericanismo, Demétrio Magnoli afirma que a saída de Bush e uma eventual eleição de Obama seriam dois importantes passos na redução da impopularidade americana no mundo.

Como grande parte desta impopularidade está associada diretamente à figura de Bush, Flávio Rocha de Oliveira afirma que uma mudança no poder melhoraria, do ponto de vista momentâneo, a imagem do governo. Já uma melhora da imagem do país e dos norte-americanos, para ele, depende do trabalho a médio e longo prazo feito pelo novo presidente.

O cientista político acha importante notar que qualquer análise sobre o futuro dos Estados Unidos precisa levar em conta a questão estrutural do poder. O fato de o país ter um congresso e um Poder Judiciário muito ativos dá ao Executivo capacidade para fazer muito, mas não tudo. “Dentro da política doméstica, o presidente não tem tanta margem de manobra”, afirma, dizendo que o discurso de Obama, focado na “mudança”, pode esbarrar nessa questão.

Demétrio Magnoli concorda que o democrata terá dificuldade para apresentar suas idéias no ambiente político, mas considera a eleição do democrata “quase indispensável” aos Estados Unidos. “McCain fala da crise econômica e da atual ordem mundial de forma totalmente irreal”, classifica. “O programa de Obama ao menos reconhece os enormes desafios da sociedade americana.”

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