Vitória de Obama mostra desejo de mudança da sociedade americana

Barack Hussein Obama é negro, filho de imigrante queniano, tem nome árabe, foi acusado de ligações terroristas e é o mais novo presidente dos Estados Unidos da América. O democrata assume o cargo no próximo dia 20 de janeiro e recebe como herança uma crise financeira com futuro incerto, as impopulares guerras do Iraque e Afeganistão, além da visão negativa que boa parte do mundo, principalmente o Oriente, tem dos americanos.

Nathália Goulart, do Último Segundo |

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  • Obama é eleito 1º presidente negro dos EUA
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    Milhares de pessoas foram ao Grant Park para comemorar a vitória de Obama / AP

    Obama se tornou o primeiro negro a ser eleito presidente dos Estados Unidos em um país que lutou durante os anos de 1950 e 1960, por meio do Movimento dos Direitos Civis, contra a segregação e discriminação racial.

    "A eleição de Obama representa a mudança em curso na sociedade norte-americana, principalmente da classe média negra que cresce", aponta Sean Purdy, professor da História dos EUA na Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores do livro "A História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI". "Essa vitória é importante principalmente para o imaginário popular norte-americano."

    "É importante perceber que o sucesso de Obama acontece depois do sucesso de outros negros em outros setores da sociedade americana nas décadas de 1980 e 1990", diz o professor John Stanfield, professor do Departamento de Estudos Afro-Americanos da Indiana University. "Assim, a eleição do Obama é certamente um momento de coroamento, mas a questão é o que faremos com isso enquanto cidadãos e o que ele fará enquanto presidente - fingir que o racismo não existe mais ou ver que esse fato propicia uma justiça racial ainda maior?"

    Mesmo que não tivesse vencido as eleições, o democrata já teria conseguido um fato histórico ao ser o primeiro negro com chances reais de assumir a presidência dos EUA. E isso prova que a sociedade se transformou, pelo menos em certas áreas e em alguns setores. "Precisamos lembrar que essa superação coexiste com uma tendência racista ainda muito forte nos Estados Unidos", diz Antônio Pedro Tota, professor de História da PUC-SP. Essa evidência está presente, por exemplo, nos discursos em que Sarah Palin e alguns partidários republicanos se referem a Obama como um "unamerican" (não-americano), um cidadão que põe em risco a estabilidade americana e que não pode representar o país, aponta o professor da PUC-SP.

    Mas, se o novo presidente dos EUA representa superação racial, ele é também é um político que não oferece risco ao status quo. Essa foi outra característica fundamental para chegar à presidência, acredita Sean Purdy. "E por isso acho errada a comparação dele com Martin Luther King (líder do Movimento dos Direitos Civis). King era odiado pelas elites. Elas estão abraçando Obama e abandonando o partido republicano."

    O apoio do "establishment" americano foi decisivo, como pontua John Stanfield. "Apesar de Obama se posicionar como uma pessoa de fora, ele está longe de ser isso."

    Reuters
    Obama e a família comemoraram a vitória em Chicago

    Obama e a família comemoraram a vitória em Chicago

    Por que Obama venceu

    Para Sean Purdy, a vitória pode ser atribuída principalmente ao marketing em volta do democrata. A mensagem de mudança (com o slogan "Change") esteve presente em todos os lugares e teve muito apelo junto aos eleitores por remeter ao repúdio que o governo Bush despertou em boa parte da população americana. "Obama foi beneficiado pela rejeição à Bush e McCain não conseguiu se separar da imagem do governo", aponta Sean. Tentativas não faltaram (inclusive com Bush ausente na Convenção Nacional Republicana), mas o eleitorado não conseguiu superar a ligação entre ambos.

    Segundo Antônio Pedro Tota, essa mensagem teve tanto sucesso porque a sociedade americana deseja mudar. "Os Estados Unidos têm uma capacidade muito grande de se reinventar. A chamada 'engenhosidade americana' ficou adormecida durante esses anos Bush e agora Obama é a chance dos EUA de se transformarem" opina. Obama é consistente, hábil e capaz de inspirar as pessoas e conseguiu consolidar a imagem da transformação.

    Outra razão para a vitória está na economia. "Democratas se saem bem quando a economia americana está indo por água abaixo, como acontece agora", analisa John Stanfield. Com o agravamento da crise financeira, Obama aumentou o foco na economia e enfraqueceu a já desajeitada postura de McCain diante do assunto.

    Redefinindo a imagem americana

    Nicholas D. Kristof, articulista do NYT, escreveu que a vitória de Obama pode redefinir a América como cada vez menos parecida com Guantánamo e cada vez mais igualitária e, de fato, muitos eleitores de Obama pensam desta maneira. Sean Purdy acha a declaração exagerada e só as políticas implantadas daqui para frente poderão dizer isso. A vitória em si não basta.

    A postura amistosa de Obama pode contribuir para a redefinição da imagem americana. "Mostrar-se interessado em conversas com todos, em escutar, aprender, crescer e mudar, em mostrar-se orientado pelos direitos humanos são atributos que Obama provavelmente terá enquanto presidente e que possuem muito valor simbólico", diz John Stainfield. 

    Segundo o professor, o fato de Obama ser uma afro-americano com um passado tão incomum do qual se sente orgulhoso e não tenta esconder poderá ser uma nova "face" simbólica do que a América está se transformando. "Um modelo para o resto do mundo" finaliza.

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    Entenda

    Opinião

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  • Nahum Sirotsky: C ompletou-se a revolução democrática americana 

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