Incidentes eleitorais mostram recrudescimento do racismo nos EUA

Por Carey Gillam KANSAS CITY, Estados Unidos (Reuters) - A duas semanas da eleição que pode levar o primeiro negro à Presidência dos EUA, uma série de incidentes reflete o arraigado racismo que persiste em alguns segmentos da América branca.

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Numa universidade, uma cartolina com a imagem de Barack Obama foi achada pendurada por uma linha de pesca -- aludindo ao tempo em que negros eram enforcados em árvores; em outra universidade, o rosto do candidato foi associado ao corpo de um urso negro; e surgiram falsos cupons alimentares com a face do democrata.

Embora os incidentes sejam esporádicos e aparentemente isolados, eles remetem a um passado racista e violento nos EUA, onde até 50 anos atrás ainda havia segregação institucional e linchamento de negros.

"Muitos brancos sentem que estão perdendo seu país diante dos próprios olhos", disse Mark Potok, diretor da entidade jurídica Southern Poverty Law Center, que monitora agressões raciais. "O que estamos vendo neste momento é o começo de uma verdadeira reação."

David Axelrod, estrategista da campanha democrata, disse que os incidentes são lamentáveis, mas acabaram sendo mais raros do que se previa. "Sempre admitimos que a raça não é algo que tenha sido erradicado da nossa política. Mas nunca sentimos que seria uma barreira insuperável, e não acho que será", disse ele.

No incidente mais recente, na segunda-feira, o corpo de um filhote de urso negro foi achado no campus de uma universidade da Carolina do Norte, cercado por material da campanha democrata.

Numa universidade do Oregon, uma imagem de Obama foi achada pendurada a uma árvore. O mesmo ocorreu em Ohio, na casa de um homem que disse à imprensa que não gostaria de ser governado por um negro.

Potok disse que as demonstrações de racismo não parecem ser parte de uma campanha orquestrada de intimidação. Seriam iniciativas de um tipo de gente que costuma se fazer ouvir também nos programas de rádio e nas cartas aos jornais.

Na opinião dele, muitos norte-americanos "vêem a ascensão dos direitos das minorias, dos direitos dos gays e dos direitos das mulheres como uma ameaça ao mundo em que cresceram e no qual seus pais cresceram".

"Eles vêem enormes mudanças demográficas, vêem empregos desaparecendo para outros países, e agora vêem um homem que é afro- americano e que muito provavelmente se tornará o presidente dos Estados Unidos. Para algumas dessas pessoas, isso simboliza o fim do mundo tal qual o conheceram."

Ele estima que haja até 800 grupos nacionalistas ou supremacistas brancos nos EUA, com pelo menos 10 mil integrantes ativos, além dos simpatizantes.

Um desses grupos, a Liga dos Americanos Patriotas, distribuiu no mês passado textos sobre um "governante negro" que destruiria os EUA.

Ronald Hall, professor da Universidade Estadual de Michigan que está escrevendo um livro intitulado "O Racismo no Século 21", disse que esse continua sendo um dos maiores problemas sociais dos EUA, embora agora assuma formas mais sutis do que linchamentos.

Alguns grupos citados como racistas negam a acusação. É o caso dos ativistas republicanos da Califórnia que neste mês publicaram em seu boletim a imitação de um cupom alimentar com uma caricatura de Obama sobre um burro, cercado por frango frito, melancia e outras imagens que evocam estereótipos insultantes sobre os afro-americanos.

Alguns ataques destacam não a origem racial de Obama, filho de um negro do Quênia com uma branca do Kansas, e sim o boato de que ele seria muçulmano. Na semana passada, foi achado em West Plains, Missouri, um cartaz que mostrava uma caricatura de Obama usando turbante.

"Há muitos republicanos e seguidores (do candidato John) McCain que acham difícil acreditar que um sujeito negro, cujo nome do meio é Hussein, será o próximo presidente dos Estados Unidos", disse David Bositis, pesquisador-sênior do Centro Conjunto de Estudos Políticos e Econômicos.

David Wolff, 52 anos, um branco da Pensilvânia que pretende votar em Obama, diz que costuma ouvir comentários racistas e que acha esse tipo de sentimento muito arraigado nos EUA. "Uma coisa que poderia acelerar a erradicação do racismo seria ter um presidente negro que tenha carisma, inspire, transforme", disse.

(Reportagem adicional de Deborah Charles e Matthew Bigg)

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