Disputa presidencial nos EUA expõe preconceito contra muçulmanos

Por Michael Conlon CHICAGO (Reuters) - Esses são tempos desconfortáveis para os norte-americanos muçulmanos, atingidos pelas reverberações de uma campanha presidencial na qual a informação falsa sobre Barack Obama ser muçulmano vem sendo usada como arma por alguns que relacionam o Islã ao terrorismo.

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O candidato democrata à Casa Branca, que pode se transformar no primeiro negro a comandar os EUA e cujo nome do meio é Hussein, é cristão. Filho de pai queniano e de mãe norte-americana, Obama passou parte de sua infância na Indonésia, um país majoritariamente islâmico.

A idéia de que o democrata é muçulmano circula na Internet há meses. Alguns a divulgam tentando reforçar a opinião de que Obama não seria o homem certo para ocupar a Casa Branca.

Desde a eleição de John Kennedy em 1960, a primeira vencida por um presidente católico, o credo religioso de um candidato ao cargo não gerava tantas distorções, afirmaram cerca de cem "estudiosos preocupados" e outros que assinaram uma proclamação no dia 7 de outubro para combater a islamofobia que estaria aumentando.

Nas últimas semanas:

-- Mais de 20 milhões de cópias em videodisco do filme chamado "Obsession: Radical Islam's War Against the West" (obsessão: a radical guerra do Islã contra o Ocidente) foram adicionadas como suplemento promocional em jornais do país todo, muitos deles de Estados decisivos para o pleito, locais onde Obama e seu adversário, John McCain, disputam palmo a palmo o eleitorado. O filme, distribuído por um grupo particular que não teria relações com o comitê de campanha de McCain, mostra homens-bomba, crianças sendo treinadas para usar armas e uma igreja cristã que teria sido danificada por muçulmanos.

-- Um candidato a vereador de Irvine (Califórnia), que é um muçulmano convertido, disse ter recebido telefonemas com a seguinte mensagem: "Eu quero cortar sua cabeça fora como merecem todos os muçulmanos", afirmou o jornal Los Angeles Times.

-- Uma mesquita de um subúrbio de Chicago, cidade onde Obama mora, foi vandalizada ao menos quatro vezes nos últimos dois meses. Mensagens de ofensa ao Islã foram pichadas em sua parede exterior, e janelas e portas do local foram quebradas.

-- Uma matéria sobre um comício realizado em Ohio para apoiar Sarah Palin (candidata a vice de McCain), matéria essa apresentada pela Al Jazeera e divulgada por meio do site YouTube, mostra uma mulher afirmando: "Ele não é cristão, e esta é uma nação cristã". Uma outra diz ser contrária a Obama por causa "de toda essa coisa muçulmana. Muitas pessoas esqueceram-se do 11/09 (os ataques de 11 de setembro de 2001). Isso é um pouco inquietante."

"É assustador ver, neste momento, o rótulo 'árabe' ou 'muçulmano' ser usado como um insulto", disse Ahmed Rehab, diretor-executivo do escritório em Chicago do Conselho sobre Relações Americano-Islâmicas (C.A.I.R.).

Tem-se a impressão de que os crimes de ódio aumentam quando a islamofobia torna-se mais frequente no discurso da opinião pública, incluindo a que continua a marcar esta campanha presidencial, afirmou Rehab.

O ex-secretário de Estado Colin Powell, um republicano que resolveu declarar no domingo seu apoio a Obama, fez um apelo por tolerância quando se referiu aos boatos sobre o candidato ser muçulmano.

"Há algum problema no fato de alguém ser muçulmano neste país?", perguntou o ex-secretário no programa "Meet the Press", da NBC.

"A resposta é 'não'. Isso não é os EUA. Há alguma coisa de errado se uma criança americano-muçulmana de 7 anos de idade acredita que um dia ele ou ela será o presidente deste país? Ainda assim, ouvi membros importantes do meu próprio partido sugerindo que 'ele é um muçulmano e ele pode estar associado a terroristas'. Não é assim que deveríamos estar agindo nos EUA", afirmou Powell, deixando claro que esse tipo de sentimento não partia de McCain.

Os muçulmanos respondem por menos de 1 por cento da população do país, de 305 milhões de pessoas, segundo o Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública. Alguns acreditam que esse número seria na verdade um pouco maior. Cerca de 33 por cento dos habitantes do planeta são cristãos e 21 por cento, muçulmanos.

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