Bush deixa legado de duas guerras e rombo econômico ao sucessor

CHICAGO - Duas guerras, uma crise econômica e um rombo de mais de 10 trilhões na dívida pública do governo. É esse o cenário que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, vai deixar para seu sucessor.

Leandro Meireles Pinto, repórter do iG nos EUA |

Bush chegou ao poder em 2000, após vencer o democrata Al Gore em uma controversa eleição, que foi decidida pela Suprema Corte após problema de recontagem nas urnas da Flórida.

O ano de 2001 foi o ponto de virada no mandato de Bush, após os atentados de 11 de setembro. Ao final daquele mês, quando a população americana ainda se esforçava para entender o que havia acontecido, o presidente chegou a ter 90% de aprovação segundo a pesquisa Gallup, um recorde histórico. Oito anos depois, a mesma pesquisa apontou que Bush bateu outro recorde, mas desta vez por causa da baixa taxa de aprovação, com 73% da população reprovando sua administração .


George W. Bush vai deixar a Casa Branca em janeiro / Getty Images

Para entender como a popularidade de Bush chegou a níveis tão baixos, é necessário entender o que aconteceu após os atentados de 11 de setembro. Listamos abaixo alguns dos principais fatos históricos que derrubaram a avaliação do governo de George W. Bush:

Guerra do Afeganistão

A ofensiva norte-americana no Afeganistão foi a primeira ação dos Estados Unidos após os atentados contra o World Trade Center. A guerra começou no dia 7 de outubro de 2001, menos de um mês após os atentados, e tinha como objetivo principal capturar Osama bin Laden, desmantelar as atividades terroristas da Al-Qaeda e tirar o Taleban do poder. Bush declarou guerra ao Afeganistão com o apoio da Grã-Bretanha, do então primeiro-ministro Tony Blair, e sem o apoio da Otan e da ONU.

Até hoje, sete anos depois do início da guerra, Osama bin Laden continua à solta e a Al-Qaeda segue planejando e executando atentados contra alvos ocidentais. Ao menos 1.004 soldados da coalizão morreram, sendo que 546 eram americanos. O número de civis mortos não é preciso e fica em torno de 3.500 a cinco mil, segundo relatos de diversas agências de notícias.

Guerra do Iraque

O conflito no Iraque começou no dia 23 de março de 2003 e os Estados Unidos usaram as supostas "armas de destruição em massa" que estariam em posse de Saddam Hussein para justificar o início da guerra.

O exército da coalizão americana, composto por soldados americanos, britânicos e australianos, em sua maioria, não teve problemas para vencer as tropas iraquianas e prender Saddam Hussein. Após a queda do regime de Saddam, no entanto, a coalizão falhou

O conflito no Iraque, no qual mais de quatro mil soldados americanos morreram, se transformou em uma das maiores dores de cabeça para o governo Bush, não só pelos altos gastos - mais de US$ 400 bilhões -, mas também pela crescente rejeição da sociedade americana em relação ao envolvimento do país no conflito.

Além disso, sete de cada dez americanos culpam o conflito pela má situação da economia americana, argumento que foi amplamente utilizado pelo candidato democrata à presidência dos EUA, Barack Obama, para pedir a retirada das tropas do Iraque.


Soldados americanos patrulham ruas do Iraque / Getty Images

Guantànamo, Abu Ghraib e tortura

Junto com a "guerra contra o terror" patrocinada pelo governo Bush, apareceram alguns escândalos que mancharam os oito anos de sua administração. A prisão de Guantànamo, em Cuba, é onde os EUA mantêm suspeitos de terrorismo. A prisão, assim como o sistema judicial especial criado para seus detentos, é amplamente condenada por grupos de direitos humanos e governos do mundo, inclusive aliados dos EUA, segundo os quais ele contaria o direito internacional.

Desde que foi criada, em 2001, a prisão chegou a ter até 600 suspeitos de ligação com a Al Qaeda e o Taliban, mas hoje tem apenas cerca de 255, a maioria sem acusação formal. O Pentágono pretende julgar 80 deles por crimes de guerra, mas até agora só conseguiu completar um julgamento e um acordo judicial.

Os dois candidatos a presidente, o democrata Barack Obama e o republicano John McCain, prometeram desativar a prisão, que fica numa base naval dos EUA encravada em Cuba.

Outra prisão que entrou para a história, desta vez no Iraque, foi o complexo penitenciário de Abu Ghraib. Para muitos, o simples nome se tornou um símbolo dos piores aspectos do envolvimento americano no Iraque. Em 2004, fotos de soldados americanos com ar orgulhoso, submetendo prisioneiros iraquianos encapuzados a torturas físicas e psicológicas, vieram a público, causando indignação. Muitos detidos foram forçados a atos humilhantes e degradantes.

A prisão, a oeste de Bagdá, foi transferida para controle iraquiano e depois fechada em 2006.


Supostos terroristas presos na base de Guantànamo / Getty Images

Furacão Katrina

No front interno, George W. Bush também sofreu um forte golpe em sua popularidade após a passagem devastadora do furacão Katrina, no dia 29 de agosto de 2005, pelo sul dos Estados Unidos. A devastação nos Estados da Louisiana, Mississippi e Alabama gerou fortes críticas ao governo pela lenta gestão inicial da crise.

Quando o Katrina atingiu as costas do estado da Louisiana, em 29 de agosto, o presidente não interrompeu suas férias até depois do impacto. Esperou dois dias antes de sobrevoar as zonas afetadas e sua primeira visita em terra só aconteceu em 2 de setembro, muito depois de a televisão difundir imagens de americanos desesperados, pedindo água e alimentos.

No total, 1.836 pessoas morreram e o furacão causou prejuízos de mais de US$ 80 bilhões.


Atuação de Bush após Katrina foi criticada / Getty Images

Crise econômica

A última parte do legado negativo que será deixado por Bush para o próximo inquilino da Casa Branca é a crise econômica, que não afeta só os Estados Unidos mas é onde seus efeitos são mais sentidos. Apesar de ter estourado recentemente, os americanos já sentem o peso da crise desde 2007, quando o crédito fácil fez com que as pessoas tomassem muitos empréstimos que não conseguiram pagar.

Nos últimos anos, com a alta dos preços de imóveis nos Estados Unidos e a alta liquidez (dinheiro disponível para empréstimos) no mercado internacional, os bancos e financeiras norte-americanas começaram a emprestar mais dinheiro para que pessoas com histórico de crédito considerado ruim comprassem casas. Antes, só tinham acesso a essas hipotecas credores com bom histórico de pagamento de empréstimos e renda comprovada.

Além das hipotecas terem risco maior devido ao perfil dos tomadores de crédito, os bancos também passaram a fazer empréstimos não-tradicionais, com juros mais baixos nos primeiros anos do contrato (depois reajustados para taxas mais altas) e prestações iniciais só com o pagamento dos juros.

Os tomadores dessas hipotecas acreditavam que, com o preço das casas em alta, conseguiriam reajustar seus empréstimos e obter condições mais favoráveis quando o período de juros mais baixos terminasse. Porém, a bolha dos preços de casas estourou e eles começaram a cair; com isso, muitas famílias passaram a não conseguir pagar suas hipotecas e perderam suas casas. Como o preço das casas caiu, muitas vezes o banco não consegue reaver o que já emprestou ao cliente.

Após o início da crise econômica, vários grandes bancos quebraram e o governo teve que forçar a aprovação de um plano de resgate no valor de US$ 700 bilhões, que vai sair do dinheiro dos contribuintes.

"Presidente medíocre"

Muitos historiadores já se prepararam para decretar a presidência de Bush um fracasso. Em artigo opinativo publicado em dezembro no jornal The Washington Post, o professor de história da Universidade Columbia Eric Foner escreveu que Bush provavelmente será colocado junto com os presidente medíocres, como Franklin Pierce, James Buchanan e Andrew Johnson.

"Mesmo depois de terem sido repudiados nas eleições de meio de mandato em 1854, 1858 e 1866, respectivamente, eles ignoraram grandes correntes da opinião pública e mantiveram-se presos a políticas com falhas. A presidência de Bush certamente nos lembra eles", escreveu Foner.

Mas Thomas Alan Schwartz, professor de história da Universidade Vanderbilt, disse que ainda é muito cedo para julgar Bush. "Reputações presidenciais tendem a subir e descer", disse. Ele citou Dwight Eisenhower como exemplo de presidente cuja reputação cresceu depois que entregou o cargo a John Kennedy, em 1961.

"Bush enfrentará alguns obstáculos enormes para ser totalmente reabilitado. Se Osama Bin Laden for capturado ou morto antes de Bush deixar o cargo, isso poderia ajudar, mas as incertezas envolvendo o Afeganistão vão afetá-lo", disse Schwartz.

(*com informações da Reuters)

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