Delegado deve ouvir contador amanhã e, se for necessário, vai fazer uma acareação entre os dois envolvidos

Um dos suspeitos de envolvimento no caso da quebra de sigilo fiscal da filha do candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, foi ouvido hoje pela Polícia Civil de São Paulo. Ademir Estevam Cabral, espécie de despachante e "office boy de luxo" que trabalha para vários advogados em São Paulo, é apontado pelo contador Antonio Carlos Atella Ferreira como a pessoa que teria entregue a ele a procuração com a assinatura falsa de Verônica Serra. Ele depôs como testemunha na segunda seccional de Polícia Civil de Santo André, na Grande São Paulo, no inquérito que investiga a falsificação da assinatura e do reconhecimento de firma de Verônica Serra. Ele negou envolvimento no caso e disse desconhecer Verônica Serra.

Ademir Cabral compareceu espontâneamente à delegacia e sem advogado. Ele prestou depoimento entre meio-dia e 13h e deixou o prédio da delegacia pela porta de trás, sem falar com a imprensa.

Outro suspeito, o contador Antonio Carlos Atella, que também deveria depor hoje, na mesma delegacia, não compareceu, mas foi representado por um advogado. Ele se comprometeu a se apresentar amanhã, às 10h, para prestar esclarecimentos à polícia.

Os delegados responsáveis pelo caso, José Emílio Pescarmona e Marcos Carneiro, devem ouvir mais duas testemunhas do caso na segunda-feira: o tabelião do 16º Cartório de Notas de São Paulo, onde foi supostamente reconhecida a firma de Verônica Serra e a funcionária da Receita, Adeilda Ferreira dos Santos, usuária do computador de onde foram acessados os dados da filha do candidato tucano.

Entrevista com o delegado

À tarde, o delegado Pescarmona deu uma entrevista coletiva à imprensa. Segundo ele, Ademir Cabral negou envolvimento com o caso e disse desconhecer Verônica Serra. Pescarmona explicou que, além da investigação da quebra de sigilo de pessoas próximas ao presidenciável tucano, que está sob responsabilidade da Polícia Federal, caberá à Polícia Civil paulista apurar a suspeita de crimes de falsidade ideológica e falsidade material.

O nome de Ademir apareceu após entrevista dada a uma emissora de TV pelo contador Antonio Carlos Atella Ferreira, suspeito de usar uma procuração falsa em nome de Verônica Serra para acessar dados dela na Receita Federal. Atella afirmou à PF que fez esse serviço a pedido de Ademir. À Polícia Civil, no entanto, Ademir disse desconhecer a procuração, que continha uma assinatura forjada da filha do presidenciável tucano.

Em um depoimento de cerca de duas horas ao delegado, Ademir Cabral disse que é uma espécie de “office boy de luxo”, que trabalha há cerca de cinco anos como despachante de interesses diversos, sobretudo na Junta Comercial da Barra Funda, em São Paulo. Ademir afirmou ainda que trabalhou com Atella durante cerca de um mês em um escritório em São Paulo. Disse também desconhecer o documento usado por Atella para obter os dados de Verônica Serra na Receita, mas reconheceu a assinatura de Atella como a pessoa que retirou as informações da filha do presidenciável tucano.

Ainda de acordo com o delegado Pescarmona, no depoimento de hoje Ademir se disse surpreso em ter o nome envolvido no caso. O office boy se disse disposto a participar de uma possível acareação com o suspeito.

"Pessoa de boa fé"

Aos jornalistas, o delegado Pescarmona descreveu o office boy como uma pessoa humilde. “Ele me pareceu uma pessoa de boa fé”, afirmou. Ademir tinha passagem anterior na polícia, mas em razão de um acidente de trânsito. De acordo com informações do delegado, Ademir afirmou ser filiado ao Partido Verde (PV) e apoiou a campanha de uma candidata do PSDB à Prefeitura de Francisco Morato, em 2008. Segundo Ademir, esse é o único vínculo político que possui.

Antonio Carlos Atella Ferreira é esperado para dar depoimento à Delegacia nesta sexta-feira. Caso ele mantenha a versão apresentada à Polícia Federal, segundo a qual Ademir seria o mandante da retirada dos documentos, haverá uma acareação entre eles. O delegado informou também que irá analisar a troca de telefonemas entre eles na época do crime (setembro de 2009), para saber quem ligou para quem, e pediu um exame grafotécnico da assinatura dos documentos. O relatório das ligações telefônicas entre os dois já foi pedido à Justiça.

Pescarmona explicou ainda que nesta investigação cabe à Polícia Civil apurar o crime de falsidade documental. A intenção do delegado era ouvir os dois envolvidos no mesmo dia. O inquérito teve início há cerca de uma semana e tem prazo para ser concluído às vésperas das eleições. Mas o delegado pode pedir prorrogação desse prazo.

"Quadrilha"

Para Pescarmona, é possível que haja uma quadrilha atuando na região onde ocorreu a violação de sigilo. A suspeita é que, da mesma forma como foram movimentadas informações sigilosas na Receita, criminosos podem estar movimentando dados para cometer outros crimes envolvendo fraudes em certidões. Segundo a polícia, a fraude é evidente porque Verônica Serra não tem sequer firma reconhecida no cartório citado na procuração forjada.

Pescarmona disse ainda que até esse momento não há motivos para pedir o indiciamento dos dois suspeitos.

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