Surpreendido pelo 2º turno, PT tardou a retomar fôlego

Clima de já ganhou que marcava a campanha petista antes da primeira etapa da votação precisou ser revertido na segunda fase

Andréia Sadi, iG Brasília, e Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

O resultado do primeiro turno da eleição presidencial pegou a campanha de Dilma Rousseff desprevenida. Diante dos resultados das pesquisas eleitorais quase todos davam a vitória como certa no dia 3 de outubro. Dois dias antes da votação o publicitário João Santana promoveu uma confraternização em um hotel em Brasília. Segundo pessoas próximas a ele, a comemoração é uma praxe para celebrar uma etapa de trabalho duro. Nenhum político foi convidado e apenas funcionários da equipe participaram.

“Foi uma comemoração pelo final do trabalho e não pela vitória da Dilma”, disse uma pessoa próxima a Santana. Mas uma frase do publicitário durante o evento dava ideia do clima da campanha. A certa altura, segundo relato de um convidado, Santana tomou o microfone e, referindo-se eventuais relacionamentos entre pessoas que trabalharam na equipe da campanha, disse: “Quem namorou, namorou. Quem não namorou aproveite hoje porque amanhã não tem mais”.

Às 18 horas do domingo da eleição, no Palácio da Alvorada, jornalistas se aglomeraram na porta da residência oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à espera de algum sinal da campanha petista reunida para acompanhar a apuração da eleição. Do lado de dentro do prédio, estavam Dilma, Lula, os coordenadores Antonio Palocci, José Eduardo Dutra e José Eduardo Cardozo, e outros nomes de destaque da campanha. Do lado de fora, a coletiva da vitória já estava sendo preparada.

Ao saber do resultado definitivo da votação, Dilma não disfarçou o desânimo, apesar de estar na companhia do presidente, dos coordenadores da campanha, além do chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, e dos ministros Guido Mantega (Fazenda), Franklin Martins e Alexandre Padilha (Relações Institucionais).

Coube a Lula a tarefa de levantar a torcida cabisbaixa reunida no cinema do Alvorada. “Lula queria descontrair o ambiente e desfazer o clima de derrota que havia contaminado a equipe antes mesmo do final da apuração. Começou a falar que nem ele havia levado a eleição no primeiro turno e que Dilma já era vitoriosa independentemente do resultado”, relembrou um dos presentes no encontro.

Sem um plano B, a campanha de Dilma no segundo turno demorou a embalar. No comitê suprapartidário em São Paulo, o material de campanha havia acabado. Só duas semanas depois da votação os primeiros lotes de material gráfico começaram a chegar. Alguns integrantes da campanha precisaram desmarcar passagens e repensar as férias. A previsão de gastos foi aumentada em R$ 15 milhões. Nomes como o de Ciro Gomes foram incorporados na última hora à coordenação.

Divulgação
Decepcionada com resultado do primeiro turno, petista procurou deixar de lado ar oficialesco das agendas que cumpriu na primeira etapa
Caça às bruxas

Os petistas chegaram a ensaiar uma caça às bruxas. Marcelo Branco, que deveria ser o coordenador da campanha na Internet, foi duramente repreendido pela cúpula em uma reunião. Ele foi responsabilizado pelo fato de a campanha não ter reagido adequadamente à onda de boatos que se espalhou pela web. Na verdade, ele já era carta fora do baralho há algum tempo. João Santana contratou um profissional da área para ser seu assessor direto à revelia de Branco. No fim das contas, nem Lula escapou de críticas.

O diagnóstico foi aberto em uma reunião no Palácio da Alvorada, que abriu a semana seguinte à eleição. Dilma disparou telefonemas para convocar aliados, aproveitando para parabenizar senadores e governadores eleitos. Temer também ajudou. Marcado para às 16h30 do dia 4 de outubro, Dilma deu a largada no segundo turno da campanha presidencial.

Lula quis saber como havia transcorrido o encontro. Reuniu na manhã de terça-feira governadores e senadores eleitos no Alvorada. Recém integrado ao time, Ciro relatou: "Foi um horror, parecia um velório. Mas quem pode fazer uma boa síntese é o Suplicy", disse, em referência ao senador Eduardo Suplicy (SP). Lula, conhecendo a fama do senador do PT de se alongar em discursos e conversas, morreu de rir.

Mudança

No dia seguinte ao encontro que deu a largada na nova fase da eleição, Dilma já dava demonstrações de alterações na estrutura da campanha. Ao convocar a imprensa para uma coletiva no dia 5 de outubro, a assessoria da candidata avisou: “Dilma vai falar hoje na porta da casa no Lago Sul”. “Na porta?”, questionou a reportagem. “É, mudou”, respondeu a assessoria. No dia 5, acompanhada por governadores do Nordeste na porta do escritório político, Dilma falou a jornalistas sem a blindagem montada pelo staff de sua campanha no primeiro turno.

No primeiro turno, nas coletivas diárias, a equipe petista montava toda uma estrutura que blindava a candidata - quase sempre no hotel onde ela estava hospedada ou no hangar onde seu jatinho pousava antes dos comícios - um púlpito para microfones e gravadores, no estilo oficial.

Nos bastidores, coordenadores contam que, mesmo com toda estrutura de assessores, Dilma manteve a pose e conseguiu dar ordens sobre o seu roteiro. Na véspera do périplo pelas três cidades que fez ao Nordeste, na última semana da eleição, Dilma irritou-se com a programação que chegou às suas mãos para o dia seguinte do debate da Record: 8 horas da manhã, saída para Fortaleza. A petista, que já previa poucas horas de sono por conta do debate que acabou após a meia-noite, recusou o itinerário prévio: "Vocês estão malucos? Querem me matar?", disse, dirigindo-se a dois dos cinco coordenadores.

No dia seguinte, a assessoria de Dilma informou à imprensa que a caminhada no centro da cidade, marcada para as 10h, só aconteceria às 13h. "Quando não está mandando, Dilma está brincando", ironizou um coordenador. Ele explica: Dilma gostou tanto de um apelido dado pelo PMDB ao trio Palocci, Cardozo e Dutra que adotou no dia a dia. No deslocamento do hotel para a sede da RedeTV, em Osasco, no último dia 17, os coordenadores se acomodaram cada um em um assento no helicóptero da campanha. Dilma, quando viu a jornalista e assessora Helena Chagas espremida entre eles, brincou: "Olha só! Agora é a Helena e os três porquinhos!"

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