Símbolos do abandono, favelas viram atração em ano eleitoral

Entre as maiores favelas do País, Heliópolis e Rocinha viram palco de disputa por votos a cada eleição

Raphael Gomide, iG Rio e Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

A cada dois anos, as maiores favelas do País transformam-se em destino favorito de políticos com discursos e slogans recheados de promessas. Símbolos do abandono e do crescimento desenfreado das metrópoles, as favelas de Heliópolis, em São Paulo, e da Rocinha, no Rio de Janeiro, passam os meses da campanha eleitoral lotadas com automóveis, cartazes, banners e santinhos de políticos que, na imensa maioria dos casos, jamais tiveram alguma relação com a comunidade local.

O tráfico de drogas, que funciona como um sistema empregatício e até mesmo de proteção na região, somado à falta de estrutura configuram problemas comuns nas duas comunidades. Por conta disso, não é difícil encontrar pelas ruas das favelas, a menos de duas semanas da eleição, moradores recrutados para, com cerca de um salário mínimo mensal, fazer campanha diária e espalhar mensagens em defesa dos candidatos.

Na favela paulistana de Heliópolis, por exemplo, cerca de 80 postulantes se fazem presentes, seja por meio de simples cartazes ou com escritórios políticos improvisados para distribuição de material. É uma forma de fazer política por “procuração”. Entre os candidatos, avaliam as lideranças locais, apenas seis com mandato mantêm algum tipo de relação com os moradores.

Agencia Estado
Favela da Rocinha, no Rio, está entre os destinos de políticos em busca de votos durante a eleição
Enquanto na Rocinha os políticos que disputam a eleição tentam herdar os votos de Claudinho da Academia (PSDC), primeiro membro da comunidade eleito para cargo público, a paulistana Heliópolis jamais elegeu um representante nascido e criado no bairro. Neste ano, nenhum morador da comunidade sequer se candidatou. Na Rocinha, por outro lado, ao menos três candidatos "de raiz" tentam conquistar uma cadeira de deputado - dois na esfera estadual e um na federal.

Suspeito de ligação com o tráfico, Claudinho elegeu-se vereador em 2008, tendo recebido mais de 70% dos votos na localidade. Ele morreu em junho deste ano, vítima de um infarto, aos 39 anos. Heliópolis, em contrapartida, é ainda “terra de ninguém”: embora a principal ONG do bairro tenha ligação histórica com o PT, não há nas ruas da comunidade qualquer restrição à circulação de bandeiras e legendas nem candidato que concentre o status de símbolo da região.

Agenda de campanha

Em geral, não há interferência do tráfico no andamento da atual campanha, tanto na Rocinha como em Heliópolis. Mesmo assim, a favela carioca nem sempre entra no roteiro dos candidatos a cargos majoritários na hora do corpo-a-corpo.

O governador Sergio Cabral (PMDB), que concorre à reeleição, só foi à base da Rocinha e chegou a dizer que não faz campanha em comunidade com tráfico. Cabral só sobe em morros onde estão instaladas as UPP (Unidades de Polícia Pacificadora). Seu adversário, Fernando Gabeira (PV), levou uma hora para fazer campanha no local.

O presidenciável José Serra (PSDB) não subiu o morro da Rocinha para corpo-a-corpo, mas esteve em Heliópolis, em agosto, junto com o candidato tucano ao Palácio dos Bandeirantes, Geraldo Alckmin. Já a petista Dilma Rousseff , gravou programa na favela carioca para o horário eleitoral e prometeu “aprofundar” os projetos do presidente Lula para a região, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Dilma também esteve em Heliópolis, em agosto, acompanhada do candidato ao governo paulista pelo PT, Aloizio Mercadante – que já fez campanha no local outras vezes.

    Leia tudo sobre: pleito 2010heliopolisrocinha

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG