Serra promete internação de dependentes químicos pelo SUS

Tucano recebeu sugestões de médicos psquiatras da USP e Unifesp, que criticaram programa do governo federal de combate ao crack

Nara Alves, iG São Paulo |

Durante encontro com representantes dos departamentos de psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, prometeu financiar internações de dependentes químicos em clínicas especializadas pelo SUS, o Sistema Único de Saúde. A reunião ocorreu na tarde desta terça-feira no Centro de Convenções Rebouças, na região central da capital paulista.

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Acompanhado de Alckmin, Serra recebe propostas de médicos
"O SUS (deve) financiar a internação em clínicas especializadas ou em comunidades terapêuticas, que em geral não são internações, mas que são ações que têm uma importância muito grande porque nem todos os casos são semelhantes”, defendeu. Em seguida, Serra criticou a política atual do governo. "Há uma resistência à ideia de que se possa ter clínica especializada para dependente químico. Isso é considerado equivalente às questões de saúde mental, porque não se poderia segregar o doente mental de outros tipos de doença, mas os hospitais gerais não são bem equipados", afirmou.

O tucano também propôs um novo arranjo institucional para o combate às drogas. Afirmou que a relação de trabalho da Senad (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas), vinculada à Presidência da República, e o Ministério da Saúde não está funcionando. O próprio Serra reconheceu que essa secretaria foi criada durante o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso.

No evento, professores da Unifesp e da USP entregaram propostas de combate às drogas e tratamento de pessoas com distúrbios psiquiátricos. O pedido para a realização do encontro partiu do próprio Serra. Segundo o professor Ronaldo Laranjeira, da Unifesp, a entrega foi um ato "partidário" de "apoio político".

O tom foi de ataques às políticas do governo federal no combate às drogas. "Ficamos bastante decepcionados com a proposta de combate ao crack”, disse Laranjeira. O médico se referia ao “Plano Integrado para Enfrentamento do Crack”, lançado em maio.

Durante o ato, que contou também com a participação de representantes de organizações não-governamentais e familiares de dependentes químicos, foi criticado o programa federal de combate ao crack, transoformado em bandeira de campanha da pré-candidata petista ao Planalto, Dilma Rousseff. Segundo o secretário estadual de Cultura, Andrea Matarazzo, que intermediou o encontro, a campanha lançada a seis meses das eleições “foi uma reação às declarações de Serra sobre o assunto”.

De acordo com os psiquiatras que participaram do ato, o governo federal deixou de internar dependentes químicos no SUS por uma questão ideológica. “O SUS não financia internações de dependentes químicos porque o governo federal é contra a criação de leitos psiquiátricos. (...) É uma ideologização cega da saúde”, disse Laranjeira. De acordo com o professor, o Ministério da Saúde trata as clínicas especializadas como manicômios. “Essa ideologia tem que acabar, e só um governo pragmático pode fazer isso.”

O pré-candidato do PSDB ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin, que é médico, também participou do encontro. “Essa falta de financiamento, no fundo, é um preconceito com relação à saúde mental e à dependência química”, disse. Alckmin elogiou a atuação de Serra como ministro da Saúde e brincou: "A gente tem que dar um CRM para o Serra”. Ele se referia ao número de registro fornecido pelo Conselho Regional de Medicina a profissionais da área.

Os médicos reivindicaram também o fim das internações nos Caps (Centro de Atenção Psicossocial) porque são ambulatoriais. Para o professor Valentim Gentil, da USP, há falta de leitos. “Há dez pedidos diários de internação no município que não são atendidos.”

Testemunho

O corretor de seguros e ativista no combate às drogas Marcos L. Susskind, representante da ONG Amor Exigente, esteve presente à reunião. "Fico muito satisfeito que o Serra tenha pedido nosso apoio", disse. Para Susskind, o programa de combate ao crack proposto pelo governo federal não vai funcionar porque não dá o suporte necessário às internações.

Susskind, pai de um ex-usuário de drogas de 30 anos, criticou a falta de assistência do Estado às famílias que vivem esse problema. "No início da descoberta sobre meu filho, entrei em desespero. Ele era o melhor aluno da classe, mas abandonou a escola e não cursou faculdade", contou. O filho do corretor foi usuário de maconha dos 14 aos 26 anos.

Segundo a ONG Amor Exigente, cada dependente químico afeta pelo menos cinco pessoas de sua família. Por isso, mais da metade da população brasileira seria afetada de alguma forma por esse problema.

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