Serra: Não intimei Lula porque não tinha provas

Em entrevista ao iG, José Serra poupa Lula, mas volta a responsabilizar Dilma sobre quebra de sigilo de sua filha

Adriano Ceolin e Nara Alves, iG Brasília e iG São Paulo |

Na entrevista que concedeu nesta sexta-feira ao iG sobre a quebra do sigilo fiscal de sua filha e de outros tucanos, o presidenciável José Serra (PSDB) disse ter contado ao presidente Luiz Inácio Lula da

Silva que suspeitava dos vazamentos. Leia abaixo os principais trechos:

iG - O senhor acredita que a Dilma ou o Lula sabiam sobre as quebras de sigilo?

José Serra - Isso não é relevante. A campanha é de responsabilidade da candidata e as pessoas que ela escolhe são de responsabilidade dela. Eu não acho que acredito. Qualquer pessoa que leia o que está na imprensa vê que houve envolvimento. Houve ato criminoso de quebra de sigilo com fins político-eleitorais que são óbvios. Têm publicações anteriores à revelação da quebra de sigilo, que vêm desde o ano passado, com dados provenientes das quebras de sigilo. São publicações ligadas à campanha que, óbvio, já existem há dois anos, dois anos e pouco. Ela é responsável, sem dúvida nenhuma. Você é responsável pelo o que acontece na sua campanha. 

iG - O senhor avisou ao presidente Lula?

Serra - Eu o encontrei em janeiro e eu disse a ele, na mesma ocasião que eu disse que ia ser candidato, que havia uma armação contra familiares meus, inclusive no blog dos amigos do Lula, no blog da Dilma, que tinham elementos de quebra de sigilo. Disse que estava preocupado e passei cópia disso para ele em janeiro. Só se confirmou a quebra agora. Eu suspeitava. Nunca fiz muito segredo disso. Não declarei à imprensa, mas disse a várias pessoas que eu achava que tinha tido quebra ilegal de sigilo.

iG - Por que o senhor não falou à imprensa?

Serra - Porque eu não tinha prova daquilo. Apenas suspeitas de que havia quebra de sigilo por dados que eram publicados nesses blogs sujos e também no blog dos amigos do Lula e no blog da Dilma. E essa história de que a Dilma não era candidata é brincadeirinha. Ela é candidata há dois anos. Praticamente deixou o governo, só manteve o cargo, para ficar fazendo campanha. Acho engraçado ela dizer isso e todo mundo encarar com normalidade. Ela já estava com tudo organizado.

iG - O presidente podia ter feito alguma coisa?

Serra - Isso é um problema dele. É o Lula que pode dizer. Isso aconteceu em janeiro, não o intimei até porque não tinha provas. Não revelei a ele algo que estivesse acontecendo. Eu revelei que algo podia estar acontecendo. E também meu profundo desagrado por ataques à minha filha.

iG – O presidente Lula nunca mais falou com o senhor sobre isso?

Serra - Não. Nunca mais conversei com Lula a sós. Mas veja, não pedi a ele providências porque não tinha nenhuma evidência definitiva. Manifestei preocupação política, de que essa não era uma maneira de uma campanha se desenvolver, com esse tipo de coisa, com ataques familiares.

iG - Agora o senhor acha que o governo federal está investigando?

Serra - Estão fazendo uma operação abafa claríssima. A Receita Federal tinha a informação de que essa procuração de que minha filha teria dado era falsa. E eles não revelaram isso. Essa é uma coisa que eles ainda vão ter de responder na Justiça porque é um órgão público. A Receita é quem arrecada imposto no Brasil. Ela está acima de partidos, de quem está no governo. E a Receita está sendo maculada pelo uso político-partidário de informações dela. E hoje ainda tem no jornal suspeita de quebra de sigilo bancário de adversários eleitorais do governo. Isso tudo tem que ser investigado.

iG - Advogados da família estudam entrar com ação?

Serra - Sem dúvida, isso minha filha vai decidir.

iG - Contra Dilma?

Serra - Isso é questão do Estado. Uma coisa é eleição, que só tem a Justiça eleitoral. Outra coisa é o dano que causa à pessoa. E aí é causado pelo Estado. Tem que se descobrir os culpados e tem que ter reparação. E o governo e a Receita estão fazendo corpo mole e operação abafa.

iG - Isso não é responsabilidade do presidente, já que ele nomeou o ministro e o ministro nomeou o secretário da Receita?

Serra - Responsabilidade maior sempre é. Mas eu não estou dizendo que foi o Lula que mandou fazer.

iG - Mas ele pode atuar para resolver?

Serra - É o que se espera.

iG - Fernando Henrique Cardoso disse que "José Serra não é Zé". O ex-governador Aécio Neves pediu mais ousadia. Como o senhor responde a isso?

Serra - Isso é ti-ti-ti, não tem importância nenhuma. Ele não disse isso a mim.

iG - Mas mudou a campanha. Ela está mais agressiva, não?

Serra - Não. A campanha vai seguindo seu rumo.

iG - O senhor diz que o eleitor se decide na segunda quinzena de setembro. Isso tem a ver com o rumo da campanha?

Serra - Isso é o que costuma acontecer nas eleições. Na Colômbia, por exemplo, o rumo final aconteceu no último mês. Campanha não é resolvida na pesquisa nem com muita antecipação.

iG - No passado teve mensalão e Francenildo, mas esses assuntos não foram abordados na primeira fase da campanha. Agora, pela primeira vez, o senhor levou esses escândalos para a TV.

Serra - É porque aconteceu agora de novo. Eu virei veterano de alvo do PT. Em 2002, em 2006 e 2010. O chamado dossiê dos aloprados era voltado contra mim, que foi organizado pelo Mercadante. Não pegou porque eu tenho a ficha limpa, alva. Eles atuam como escorpião. O escorpião pede carona ao sapo para atravessar um riacho. No meio, o escorpião aplica um ferrão no sapo e o sapo diz que ele vai morrer afogado. Mas ele diz que é da sua natureza.

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