Serra enfrenta seu maior desafio

Da Mooca ao Palácio dos Bandeirantes, passando pela Esplanada dos Ministérios, Serra preparou-se a vida toda para ser presidente

Nara Alves, iG São Paulo |

Mais sorridente e menos crítico, o José Serra que se apresenta aos brasileiros em 2010 possivelmente terá em outubro sua última chance para tentar se eleger presidente. Aos 68 anos, o candidato tucano enfrenta seu maior desafio: vencer a candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus altos índices de aprovação. Para superar Dilma Rousseff nas urnas, aposta na comparação entre biografias. Aponta a falta de experiência eleitoral e a pouca estrada administrativa da adversária petista e ressalta, como ele mesmo diz, que se preparou a vida toda para ser presidente.

Em 2002, coligado com o PMDB, que hoje está com o PT, Serra foi derrotado por Lula no segundo turno. Desde então, o plano do ex-ministro da Saúde rumo ao Palácio do Planalto o levou a uma escalada de cargos nas últimas eleições. Ele retornou às urnas em 2004, elegeu-se prefeito da capital paulista e, dois anos depois, quebrou a promessa de concluir o mandato para candidatar-se em 2006 ao Palácio dos Bandeirantes.

Naquele ano, Serra cogitou concorrer à Presidência novamente, mas desistiu da disputa interna com o então governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Após meses alimentando incertezas sobre seu destino político, alegou que não estaria disposto a encarar as prévias no PSDB. O favoritismo de Lula nas pesquisas, no entanto, desempenhou um papel decisivo na escolha e Serra preferiu não arriscar. Optou pela vitória certa na disputa pelo governo do Estado e, eleito no primeiro turno, assistiu à derrota de Alckmin na corrida presidencial.

“Eu acompanhei de perto as duas últimas campanhas do Serra. Ele se coloca inteiro na campanha”, diz o candidato tucano ao Senado, Aloysio Nunes Ferreira. “Quando ele faz campanha, ele faz sem nenhuma restrição. Se atira com muito gosto. Ele vai com muita convicção.”

Ainda assim, correligionários admitem que Serra já não dispõe de tempo de sobra para concretizar seu projeto. Reconhecem, por exemplo, que sua idade – ele conta hoje 68 anos – pesou na decisão do PSDB de apoiá-lo no processo de escolha do candidato tucano ao Palácio do Planalto.

Serra acumula a experiência de eleições passadas e começa oficialmente sua campanha empatado nas pesquisas de intenção de voto com Dilma. Isso pode ser visto por dois ângulos: os tucanos festejam o fato dele permanecer no alto patamar de 35% a 40% de preferência mesmo após o programa partidário do PT. Os petistas lembram que Dilma alcançou esse índice sem que a campanha tivesse oficialmente começado e sem nunca ter disputado nenhuma eleição antes. Além disso, o empate ocorre também no Sudeste, região que inclui os dois maiores colégios eleitorais do País, São Paulo e Minas Gerais, Estados governados por tucanos.

Aloysio Nunes Ferreira vê o amigo vivendo um momento excelente, mais solto, lúcido, convicto. E mais feliz, garante. Bem diferente do Serra de 2002, com fama de ser uma pessoa sisuda, fechada e mal humorada. Há oito anos, quando a revista Veja perguntou ao então pré-candidato à Presidência sobre sua fama de antipático, Serra respondeu: “Eu me acho simpático, minha mãe me acha simpático. Tem gente que não acha? Paciência”. Entre os que não achavam estavam seus estrategistas de marketing, que o aconselharam a remover as bolsas de gordura embaixo dos olhos. Mais recentemente, o tucano fez mais uma intervenção cirúrgica – modificou as gengivas, para ampliar o sorriso.

Feita a transformação, Serra passou a sorrir mais em público. Quem o conhece diz a fama de carrancudo é injusta. “Ele é a pessoa que tem a imagem pública mais diferente da realidade que eu conheço”, disse a primeira-dama do Estado de São Paulo, Deuzeni Goldman. Na intimidade ele é engraçado, simpático e espirituoso, segundo ela. Deuzeni conheceu José Serra há cerca de 30 anos, quando se casou com o governador Alberto Goldman (PSDB-SP). “Ele gosta muito de conversar, de contar histórias. A gente fala que ele tem uma alma feminina”, conta. É esse José Serra, em seu melhor momento pessoal e político, que começa hoje oficialmente um jogo de tudo ou nada. Em 90 dias, as urnas dirão se ele sai da política para ficar na história, ou se permanece na política para cumprir o último degrau que a história pode ter-lhe reservado.

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