Serra ataca "patrimonialismo" do Estado brasileiro

Pré-candidato tucano recebe propostas do aliado PPS, afirma ver retorno ao modelo primário da economia e critica sistema eleitoral

iG São Paulo |

O pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra , afirmou nesta sexta-feira que o Brasil vive o “momento mais patrimonialista de sua história”. Ele criticou o que chamou de “uso do governo como propriedade privada”, atacou o suposto loteamento partidário de agências reguladoras e disse ter a impressão de que até mesmo durante o período oligárquico da República Velha, entre 1989 e 1930, a situação no País era mais organizada. O discurso foi feito durante evento organizado pelo PPS (Partido Popular Socialista) para entrega de propostas ao pré-candidato tucano, em São Paulo.

AE/WILLIAM VOLCOV
Serra recebe do presidente do PPS, Roberto Freire, documento com propostas do partido aliado


“Criamos agências para não ter arbitrariedade. Na Saúde, criamos a Agência de Vigilância Sanitária, com técnicos, e a Agência Nacional da Saúde, que lida com planos, e que hoje ficaram loteadas pelos partidos. Vi que um ex-candidato em Brasília virou diretor de agência sem ter a menor credencial pra isso. Não conheço perversão maior. É um prejuízo para a capacidade de gestão”, disse o ex-ministro da Saúde, à frente de um cartaz em que aparecia junto com o tucano Aécio Neves, ex-governador de Minas, e do presidente do PPS, Roberto Freire.

Serra, que iniciou o discurso elogiando a contribuição do antigo Partido Comunista do Brasil (PCB) - que deu origem ao PPS - para a cultura nacional, criticou, logo à frente, a atuação de grupos e associações que reúnem “dez, quinze mil pessoas e dizem falar em nome de todo o Brasil” – antes de deixar o governo de São Paulo, ele enfrentou greve de professores e atribuiu o movimento a interesses políticos. Disse que a ignorância e o corporativismo são inimigos do País. “Isso é herança do bolchevismo, sem a utopia e com todo o lado ruim. São pessoas que, em nome do partido, fazem qualquer coisa”.

O pré-candidato tucano afirmou ainda estar preocupado com o que chamou de retorno da economia brasileira ao modelo primário e exportador, que vigorou até os anos 1930 e ruiu após a crise de 29.

Segundo ele, o Brasil vive “um impasse de política econômica e comércio internacional”. Ele criticou o excesso de importações de produtos intermediários, disse que China e Índia possuem políticas mais agressivas, e ressaltou a dificuldade de se criar empregos sem uma “indústria pujante” no Brasil. “O que nós temos por diante é uma escolha. Ou voltamos a um modelo que não vai ser capaz de oferecer empregos que o Brasil precisa no volume e na qualidade”.

Serra usou ainda a definição marxista de infra-estrutura – segundo a qual as relações de produção e exploração da força de trabalho moldam as relações e ideologias existentes numa sociedade  – para criticar o “economicismo do processo político nacional”. “A política sempre ficou no segundo plano”. Segundo ele, o Brasil perdeu em sua história a oportunidade de se instalar o parlamentarismo e implementar reformas no processo eleitoral – entre os pontos defendidos pelo PPS está a reforma política em torno do voto distrital misto, com lista fechada, e financiamento público de campanha.

Entre críticas feitas ao atual modelo, Serra citou o tempo entre as convenções partidárias para definição de pré-candidatos e o início das campanhas e o fato de o sistema permitir a participação de candidatos nanicos na disputa. “Isso atrapalha tremendamente o processo eleitoral”.

Esquerda

Em sua fala, pouco antes do discurso do pré-candidato aliado, o presidente do PPS, deputado Roberto Freire, afirmou que a esquerda hoje é reacionária porque é “prisioneira do passado” e não entende a importância do desenvolvimento da ciência. Citou a resistência de determinados grupos a pesquisas com células-tronco e transgênicos. “O mundo tem outra agenda, se move de forma distinta no modo de produzir e isso muda o conceito das instituições. A agenda agora é diversa. Os cenários, distintos”.
Freire afirmou também que o movimento sindical brasileiro passa por uma crise porque as entidades foram “cooptadas pelo governo”. “Temos seis centrais e uma delas dizendo que é única. Não se discute o futuro, suas contradições e como se posicionar frente a isso. O mundo não é mais ‘burgueses contra proletários’. É o mundo da robotização e da ciência. Nós precisamos dizer que o que é de esquerda é o que está aí. E esse é o desafio de José Serra”, disse.

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