Serra amarga derrota após trabalhar a vida toda pela Presidência

Tucano sofreu consequências de oposição desarticulada e dos tropeços da estratégia de comunicação

Nara Alves e Adriano Ceolin, iG São Paulo |

Neste domingo, o homem que se preparou a vida toda para ser presidente perdeu o que pode ter sido a última chance de chegar ao Palácio do Planalto. José Serra chegou ao segundo turno da eleição presidencial depois de uma verdadeira escalada para entrar em 2010 como candidato do PSDB ao posto. A caminhada que terminou hoje teve início ainda em 2002, após ser derrotado nas urnas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Depois de perder para o petista há oito anos, Serra tornou-se presidente de seu partido. Dois anos depois, elegeu-se prefeito de São Paulo. Em 2006, perdeu a disputa interna para Geraldo Alckmin como candidato à Presidência. Ainda assim, quebrou a promessa de permanecer na administração paulistana até o fim do mandato e lançou-se candidato ao governo paulista. Deixou a prefeitura nas mãos do vice Gilberto Kassab (DEM), que conseguiu reeleger dois anos depois, resultando justamente na derrota de Alckmin na corrida municipal. Nesse processo, garantiu o apoio do DEM, pavimentando assim a mesma aliança pela qual se lançaria candidato à Presidência este ano.

Serra chegou à disputa com apoio do DEM, do PPS, do PTB e do PMDB em alguns Estados. Desbancou o senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG) na disputa interna pela indicação da legenda, mas não conseguiu que o mineiro aceitasse compor a chapa como seu vice. Depois, enfrentou um processo ruidoso para definição de um companheiro de chapa, que culminou na escolha do deputado Indio da Costa (DEM-RJ).

Para setores do PSDB, os erros começaram a ocorrer ainda em julho, logo após a largada oficial da campanha. Na época, Serra optou por entrar na disputa sem ataques ao governo. Foram exibidas cenas do tucano ao lado do presidente Lula, sem qualquer menção a Fernando Henrique Cardoso. O próprio ex-presidente tornou-se um dos críticos da estratégia.

Nas semanas anteriores ao primeiro turno, entretanto, denúncias feitas sobre a violação de dados sigilosos de tucanos na Receita Federal e a crise que resultou na saída da ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra passaram a fazer parte de discursos e falas de Serra na propaganda na TV. Ao mesmo tempo em que investia na divulgação de uma série de promessas de cunho social, Serra também reforçava o discurso religioso. Foi a forma encontrada pela campanha para aproveitar os rumores que começaram a circular sobre o posicionamento da rival Dilma Rousseff em relação ao aborto, alimentados em parte por declarações contraditórias da candidata petista em relação ao assunto.

A estratégia perdurou ao longo de todo segundo turno. Simultaneamente, lideranças tucanas passaram a atacar a credibilidade dos institutos de pesquisas. Por diversas vezes, foi colocada em dúvida a idoneidade dos levantamentos que mostravam Serra em desvantagem. O próprio candidato entrou em campo para contestar publicamente os números que davam a dianteira a sua adversária.

Discurso

Assim como no reconhecimento da derrota, em momento algum da campanha Serra demonstrou abatimento. Ao contrário. Mostrou que se esforçou ao máximo em todos os momentos. Tomou para si todas as decisões sobre os rumos de sua campanha e, à sua maneira, interpretou o processo eleitoral enquanto acontecia.

Ao longo da disputa, o tucano investiu em teses como a de que a “média da população” vive uma “grande satisfação” e, por isso, não quer saber de temas como macroeconomia. “Na média, as pessoas - o que é natural - vivem do seu dia a dia. Há uma grande satisfação com o curto prazo, com a renda, com o emprego”, disse em conversa com industriais no fim de agosto. Essa “satisfação” à qual Serra se referiu reflete o alto índice de aprovação do governo Lula que, afinal, resultou na transferência de votos para a presidente eleita, Dilma Rousseff.

Aos olhos dos adversários, entretanto, o ex-governador paulista pagou por tentar se colocar como continuidade do atual governo quando, na verdade, representaria uma ruptura. " O povo queria mudança e ele significava continuidade . E ele é candidato em 2010 como continuidade e ele significa mudança. É exatamente o que aconteceu comigo”, disse Lula ao iG , ainda no primeiro turno da eleição presidencial.

Serra apostou que muitos dos eleitores de Dilma gostariam, na verdade, de votar nele. Dizia crer que seria um melhor representante do desejo do eleitor que votou pela continuidade do que a própria candidata escolhida pelo presidente como sua sucessora. “Muita gente diz: 'Que pena que o Lula não apoia o Serra. Porque eu queria mesmo era votar nele. Mas eu voto na candidata do Lula'" , afirmou o tucano, em entrevista ao iG .

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