Marta x Kassab: empate em partida da Série B

13/10 - 01:00

Mauricio Stycer, especial para o Último Segundo

Estimulados por suas claques, que gritaram muito, aplaudiram os seus candidatos e xingaram os adversários, Marta Suplicy e Gilberto Kassab fizeram um debate que, em todos os seus aspectos, lembrou uma partida de futebol. Da Série B.

Qual candidato teve a melhor participação no debate em São Paulo?
Gilberto Kassab (DEM)

Marta Suplicy (PT)

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“Marta trouxe duas jogadas ensaiadas e deu a volta no Kassab”, comemorava, ao fim do primeiro tempo de jogo, um assessor da candidata. De fato, ao ler os risíveis textos de dois vetos do prefeito a duas leis aprovadas pela Câmara, e dizer para Kassab, em tom impositivo, “explique-se”, a petista deixou o seu adversário desnorteado, sem ação, quase nocauteado.

Cesar Conti
Os candidatos se enfrentaram em São Paulo
Mas aí veio o primeiro intervalo da partida, os técnicos (digo, os marqueteiros) entraram em campo e Kassab melhorou. Atacou Marta em algumas de suas fraquezas (as taxas da gestão da prefeita, o apoio do PPB de Maluf ao governo Lula) e destilou ironia. “Virxi, Maria”, chegou a dizer, provocando risos da torcida, depois de uma resposta da candidata.

Ao final da partida, um assessor do prefeito constatava, também em linguagem futebolística: “O Kassab não sabe jogar frio, mas, depois que esquenta, ninguém segura”. De fato, depois de um começo desastroso, o prefeito reposicionou a defesa, neutralizando o ataque adversário, e avançou o meio de campo, aproximando os armadores do ataque, e conseguiu encurralar Marta.

Em termos de torcida, Kassab levou nítida vantagem sobre Marta. O prefeito levou para o debate uma turma de tucanos do primeiro time, incluindo o vice-governador do Estado, Alberto Goldman, e vários secretários do governo José Serra. Também foi a cúpula do PMDB de São Paulo, Orestes Quércia à frente, a elite do DEM na cidade, além da pequena, mas barulhenta turma do PV, com o diácono Carlos Camacho, presidente do partido em São Paulo, puxando o coro de apoio.

AE
Marta durante o debate em São Paulo
Marta, do seu lado, atraiu o presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, o senador Eduardo Suplicy, o deputado Rui Falcão, o vereador eleito e cantor Netinho de Paulo e só.

Ao se observar a disposição da torcida na arquibancada, ou melhor, na plateia, também aprendemos muito sobre a partida. A turma de Marta ficou à direita e o pessoal de Kassab à esquerda do palco. Ironia de quem organizou o cerimonial?

Na turma da esquerda, tucanos como o ex-ministro Paulo Renato de Souza, sentaram na primeira fila. Guilherme Afif Domingos, secretário do governo Serra e padrinho político de Kassab, ficou na segunda fila. Os peemedebistas, Quércia e Alda Marco Antonio, candidata a vice de Kassab, sentaram na terceira fila. E padre Camacho e a turma do PV se agruparam na quinta fila.

Cesar Conti
A plateia se manifestou bastante
Do lado direito do campo, o candidato a vice de Marta, Aldo Rebelo (PC do B) sentou-se na primeira fila, próximo de Luis Favre, marido da candidata. Na terceira fila, bem longes, Chinaglia e Suplicy. Netinho, coitado, ficou na quinta fila.

No momento de maior tensão da partida, o juiz, digo, o mediador, Boris Casoy concedeu direito de resposta a Kassab, depois que Marta chamou o prefeito de “mentiroso”. Delírio no lado esquerdo da arquibancada; vaias, no lado direito. Marta, revoltada, também pediu direito de resposta, afinal, Kassab já a havia chamado de “mentirosa”. Mas o direito de resposta foi negado pela “equipe de juristas” da Band, explicou Boris. A arquibancada veio abaixo: palmas do lado esquerdo, gritos com ofensas ao juiz do lado direito.

Novo pedido de Marta é negado, e mais uma vez a torcida vai ao delírio. O deputado Rui Falcão (PT-SP) não aguenta e xinga o juiz: “Essa equipe de juristas da Band, na verdade, é um advogado de porta de cadeia”. Cartão amarelo para o deputado...

Marta também levou um cartão amarelo – e bem do ex-marido. Suplicy não gostou de saber que a propaganda eleitoral de Marta indagara neste domingo ao eleitor: “Você sabe se Kassab é casado? Se tem filhos?” O senador observou, daquele seu jeito, pausado: “Me surpreende muito. A Marta sempre defendeu que não se discuta questões de comportamento em campanha”.

AE
O candidato do DEM ganhou na torcida
No seu pior momento, quando confrontado por Marta com o seu veto à lei que ampliaria a licença-maternidade de quatro para seis meses, Kassab se atrapalhou, sem saber se era hora de responder ou fazer uma pergunta. “É a minha pergunta?”, indagou a Boris Casoy. “Não, é a sua tréplica”, respondeu o apresentador.

Sentados em locais reservados a jornalistas, integrantes das duas claques ajudaram a subir o tom da partida. Quando Marta prometeu não apresentar mais taxas para a cidade, o “jornalista” sentado do meu lado esquerdo ironizou, em voz alta: “Jura?”. E a torcida da esquerda gargalhou. Quando Boris recusou o direito de resposta de Marta, o “jornalista” sentado do meu lado direito gritou: “Vendido!”. E a torcida foi junto, vaiando o mediador.

Ao final da partida, como sempre ocorre em jogos muito disputados que terminam empatados, ambos os adversários acharam que mereceram a vitória. Com declarações entusiasmadas, Marta e Kassab deixaram o estádio, digo, a Band, prometendo mais emoções para a partida do próximo domingo, na Record. Espera-se que o nível melhore.

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