Projetos de internet similares ao de Marta acumulam fracassos pelo mundo
19/09 - 16:55
Larissa Morais
SÃO PAULO - A ex-prefeita de São Paulo e candidata à prefeitura Marta Suplicy (PT) tem ocupado boa parte de seu programa e suas inserções na TV com a promessa de levar internet rápida e de graça aos quase 11 milhões de habitantes do município, que tem cerca de 1,5 mil quilômetros quadrados. Se o projeto sair do papel, a capital paulista marcaria um tento que nenhuma outra metrópole do mundo conseguiu até hoje.
- Marta contesta reportagem do iG sobre internet
- Vídeo: Marta tenta explicar internet gratuita em São Paulo
- Marta diz que proposta de internet faz parte de seu programa
- Antes de votar, conheça o perfil do seu parlamentar no Projeto Excelências
Banda larga é toda conexão de internet mais veloz do que uma conexão por telefone (máximo de 56 kbps) e abrange várias tecnologias de transmissão de dados. Uma delas é o rádio ou wireless, que utiliza ondas de rádio-frequência para transmitir os dados, sem necessidade de fios. As tecnologias Wi-Fi e Wimax são desse tipo. Wimax pode cobrir cidades inteiras, em um raio de até 50 quilômetros em terrenos planos, com o uso de repetidores de sinal. Se há prédios e montanhas, cai a 15 quilômetros. Wi-Fi tem alcance mais limitado, geralmente de até 500 metros. É mais utilizada, principalmente, por ser barata.
Na cidade americana de San Francisco, que fica incrustada em uma região onde há várias empresas de internet, a rede sem fio foi proposta em 2004 e assumida pelas companhias Google e Earthlink, em 2006. No entanto, o projeto foi cancelado pouco tempo depois. Um dos problemas foi a ineficácia para a inclusão digital de comunidades carentes. Também na Califórnia, o Google lançou uma rede Wi-Fi na cidade de Mountain View, de 70 mil habitantes, e promete a gratuidade do serviço até 2010.
Com 1,4 milhão de habitantes, a Filadélfia tentou oferecer internet gratuita, em parceira com a iniciativa privada, para toda a população. Hoje, 80% da rede está construída, mas, em maio, a empresa responsável, a Earthlink, abandonou o projeto porque os usuários reclamavam do sinal fraco.
Na Cidade do México, que tem quase 9 milhões de habitantes (sem contar a região metropolitana) e uma realidade muito próxima da de São Paulo, já existe internet sem fio gratuita no centro desde dezembro de 2007. Fruto de uma parceria com a empresa chinesa ZTE, o projeto tem custos estimados em US$ 50 milhões. O governo pretendia expandir o sistema para a maior parte dos locais públicos e prédios oficiais a partir de abril deste ano, mas os planos têm encontrado dificuldade.
Em entrevista ao jornal mexicano “Reforma”, um representante da Comissão Federal de Telecomunicações (Cofetel) disse que a proposta de conexão gratuita não é viável porque sempre alguém tem de pagar pelo serviço. "A complexidade desses projetos é tão grande que a maioria em nível internacional têm fracassado. Não existe um só caso de êxito importante em todo o mundo", disse Gerardo González Abarca.
Em Londres, a solução para bancar a rede Wi-fi de 22 quilômetros que percorre o rio Tamisa foi a publicidade. Em troca do acesso à rede, o usuário tem de ver anúncios a cada 15 minutos de conexão. Cada inserção varia de 15 a 30 segundos.
Em Paris, capital francesa, o sistema está disponível gratuitamente em 260 locais municipais: parques, jardins, bibliotecas, museus, etc.
No Brasil, o único caso de sucesso numa grande cidade do País é o projeto Orla 100% Digital, no Rio de Janeiro, expandido neste mês por toda a praia de Copacabana e arredores. O acesso é gratuito e há estimativas de que vá atender a mais de 100 mil pessoas. A idéia foi bancada pelo governo estadual, que gastou R$ 1 milhão no projeto e pretende ampliar a rede para favelas e as orlas de Ipanema, Leblon e Recreio dos Bandeirantes.
Os custos e o prazo
O prefeito e candidato à reeleição, Gilberto Kassab (DEM), anunciou a expansão da internet de banda larga gratuita para todos os 3 mil prédios da prefeitura. Esta seria a primeira etapa do projeto de Marta, em que apenas os prédios vizinhos teriam acesso à rede. Na rede Wi-Fi, proposta pela petista, o alcance é de 500 metros. “A desilusão desta gestão é grande, pois promover um salto tecnológico no acesso à internet, no município de São Paulo, é uma tarefa mais viável e barata do que se pensa”, disse a assessoria de Marta, em nota, sobre o governo Kassab.
Questionada pela reportagem sobre o prazo para que todos os paulistanos tenham acesso à rede, a assessoria de Marta diz que o prazo é de quatro anos. Há uma contradição na campanha da petista. Roberto Garibe, um dos responsáveis pelo programa de governo de Marta, disse ao jornal “Folha de S.Paulo” do dia 16 de setembro que levaria quatro anos apenas para conectar os prédios públicos. Para chegar à cidade inteira, seriam necessários, no mínimo, mais dois anos. O projeto todo só sairia do papel em, no mínimo, seis anos.
O custo total do projeto, segundo a petista, incluindo equipamento, instalação e monitoramento, é de R$ 64 milhões em quatro anos. O dinheiro viria do orçamento municipal.
Uma das principais críticas ao projeto, vindas de integrantes do PSDB, é que o projeto de Marta beneficia, em um primeiro momento, os mais ricos. Como a maior parte dos prédios públicos fica em áreas centrais do município, apenas pessoas e empresas que atualmente já têm condições de pagar por internet rápida teriam o privilégio de se valer da internet pública.
Experiências pelo País
Até agora, só pequenas cidades no Brasil têm implantado projetos de redes Wi-Fi de amplo alcance e viáveis tecnicamente. Esses municípios muitas vezes não têm provedor local de internet e gastam muito em interurbanos para que as prefeituras possam acessar a rede. Por isso, a rede sem fio significa economia.
Em uma grande cidade, a equação é diferente. Não basta instalar a rede, é preciso mantê-la. A instalação no centro das grandes cidades interessa economicamente às empresas, mas em regiões mais pobres as dificuldades são maiores porque o retorno é menor. Nesses locais, o investimento público é fundamental.
Segundo a campanha de Marta, a iniciativa privada será parceira no projeto: "O acesso à internet banda larga gratuita já existe em outras cidades, em menor escala, e não é antagônico com a atividade das empresas privadas, que continuamente oferecem novos produtos e serviços aos consumidores".
Na região metropolitana de São Paulo, a Prefeitura de São Caetano anunciou a implantação de uma rede Wi-Fi em abril, mas o projeto ainda está em fase de pesquisa. Ribeirão Pires inaugurou este mês a rede pública no centro da cidade, com planos de expandi-la por todo o município.
Uma das primeiras cidades a aderir à tecnologia no País foi Sud Mennucci, no interior do Estado de São Paulo, com pouco mais de 7 mil habitantes. Os moradores compram uma antena para receber o sinal emitido pela prefeitura e usam o micro de mesa para acessar a internet de graça. Na cidade, a prefeitura paga pouco mais de R$ 3 mil por mês para atender a até 200 pontos.
Em 2005, o projeto de Piraí (RJ) foi reconhecido em Nova York como um dos sete melhores projetos de tecnologia de comunicação do mundo. Os cerca de 23 mil habitantes acessam a internet sem mensalidade a partir da rede da prefeitura.
Outras pequenas cidades com projetos-modelo são Tiradentes (MG), Ouro Preto (MG), Santa Cecília do Pavão (PR) e Aparecida (SP). Esta última instalou a rede de internet grátis no centro histórico em maio do ano passado, por ocasião da visita do Papa Bento 16 ao Brasil.
publicidade
18/09/2008 - 19:35
22/09/2008 - 13:34
Marta Suplicy diz que cidade está em crise e andou para trás na área do transporte
21/09/2008 - 12:44
12/10/2008 - 15:17
