Rostos e gestos entregam sentimentos de candidatos na TV

Especialista em leitura de expressão facial, Irene Gentilli analisa desempenho de presidenciáveis em momentos de pressão

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Visto em câmera lenta, o rosto humano é um outdoor formado por 33 músculos que, quando acionados, representam até 155 expressões faciais. Se observado num conjunto de gestos, movimentos, tons de voz e até jeito de respirar, revela mais facetas de um candidato do que gostariam de resumir os slogans e estereótipos comuns em época de eleição.

Com a ajuda da psicóloga Irene Gentilli, mestre em comunicação pela USP e especialista em leitura de expressão facial, o iG analisou o comportamento dos três principais candidatos a presidente em momentos de desconforto , empolgação , segurança e descontração a que foram submetidos nas últimas semanas.

A pedido da reportagem, a especialista analisou o desempenho de Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) em eventos como o lançamento das candidaturas, convenção partidária, sabatina e entrevista à TV. Em comum entre eles, apenas uma certeza: não há discurso ensaiado ou promessa inadiável que sobreviva a um movimento brusco de sobrancelha ou sorriso amarelo. Os futuros desafios para os candidatos são os debates, como o que acontece nesta quinta-feira, na TV Bandeirantes, e a aparição no horário político. Até lá, afirma a especialista, todos precisam saber conduzir melhor o “clima emocional” dos eleitores, com mais coloquialismo.

Confira abaixo os erros, acertos “não identificáveis” a olho nu e os significados de gestos comuns na postura de cada postulante à Presidência:

DESCONFORTO / IRRITAÇÃO

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DE NOVO?

Segundo Irene Gentilli, a candidata não contém, em determinados momentos, o cansaço diante de certas questões. A sensação é expressa no “bico” formado por seus lábios e pela sobrancelha franzida quando fala sobre previdência social; na fala, dá a impressão de quem quer bater e não bate e de quem já se cansou de falar sobre o assunto.

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NÃO BATAM PALMAS!

Por incrível que pareça, um dos momentos mais comuns de desconforto de Marina durante a campanha é quando a candidata recebe palmas. Durante seus discursos, é comum a candidata pedir a interrupção das homenagens, num sinal, segundo Gentilli, de que a candidata não sabe lidar com certos tipos de manifestações.


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HEIN?

Os olhos arregalados, e a aparente surpresa diante da pergunta – que pede para ser repetida – denotam que José Serra, apesar de bem treinado e da ironia sempre usada para minimizar uma questão incômoda, não estava preparado nem seguro para responder sobre o assunto.


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COCEIRAS...

Apesar de evitar críticas diretas ao presidente Lula, Serra expressa raiva em relação ao atual governo quando aperta a boca e fala de supostos erros dos petista. O olhar fulminante é outra “brecha” deixada pelo candidato, que não esconde o desconforto e a todo instante tenta se acomodar na cadeira, num sinal de inquietude. "Trata-se de uma irritação contida”. A revolta, no entanto, é sincera, segundo a psicóloga.


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TOCA PRA MIM!

Dedo em riste, punho cerrado, olhar arregalado e boca apertada demonstram que o candidato já não consegue disfarçar o que sente pelos adversários. De acordo com a psicóloga, o dedo indicador pode demonstrar certo autoritarismo de quem parece dizer: “eu sei como fazer”. Gentilli nota que Serra fala muitas vezes para si e usa as mãos espalmadas como prenúncio de um tapa. “É como se dissesse: ‘essa é um assunto que eu domino’”.


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 COMO ESTOU?

Segundo Gentilli, os pontos de nervosismo de Dilma se sobressaem quando ela olha fixamente para as próprias mãos e sinaliza estar com a boca seca. Nesses momentos, é comum falar com tom de didatismo, como se falasse sempre para o mesmo entrevistador. Na cena, demonstra receio sobre o que diz: a todo instante olha para o lado direito, como se fosse vigiada – entre os presentes na plateia estava o ex-ministro Antonio Palocci.

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VOCÊS ME CANSAM!

Embora firme em algumas posições, um traço da personalidade da ex-ministra é que, ao demonstrar segurança, ela tende a desqualificar o interlocutor. Isso fica demonstrando quando ela responde com enfado aos entrevistadores, como quem parece dizer: “É uma obviedade que você não percebe...”


EMPOLGAÇÃO / INTERESSE


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ACELERA, MARINA

A empolgação da candidata ao descrever o projeto dos centros de excelência de educação, uma de suas principais bandeiras na campanha, é exemplificada pela velocidade que impõe à fala, os olhos arregalados, o queixo em inclinação afirmativa e o complemento das mãos como se reforçassem o discurso. A coerência da fala é observada quando fala a palavra “crise” – neste instante, ela baixa a cabeça, em sinal de respeito.


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VAI NA FÉ

Marina adota tom ufanista ao se despedir da militância, num momento em que invoca Deus e fala sobre uma possível vitória nas urnas – o que fica demonstrado pelo tom de voz e pelos dedos que apontam para o alto.


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AQUELE ABRAÇO!

Segundo Gentilli, em momentos de “empolgação” Serra tem o hábito de olhar para as próprias mãos enquanto fala. Quando é aplaudido, ora aperta a boca, tentando se conter, ora abre os braços, num sinal de entrega à euforia.

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 EU SOU VOCÊS

Dilma mostra coerência entre gesto e fala por meio dos dedos, ao listar o conjunto de ideias na velocidade de quem se empolga. Só arranca aplausos do público, no entanto, quando fala do orgulho de ser petista e abre os braços para receber as palmas.


SEGURANÇA/ SINCERIDADE


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REFLEXÃO

Marina parece hesitar ao ser submetida a uma pergunta sobre educação. Segundo Gentilli, porém, o engasgo é sinal de que a candidata está disposta a falar sobre uma “verdade entalada”. Prova disso são a pausa para reflexão, com olhos fechados, coerência entre gesto e fala (ergue a mão ao falar “progressivamente”) e o fato de elevar o queixo toda vez que fala sobre educação, num movimento ascendente. Sobrancelhas e mãos se movimentando de dentro para fora denotam interesse pelo assunto.

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PUNHOS CERRADOS

Outro gesto comum à senadora, lembra a psicóloga, é o punho cerrado sobre a mesa, como se imitasse um soco em câmera lenta. Segundo a especialista, não se trata de uma ação tão firme, mas demonstra a potência na fala.


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DEIXA COMIGO!

O candidato leva as mãos ao peito toda vez que fala sobre si mesmo, como quem chama a responsabilidade para uma situação. Sinal, explica, de quem tem segurança do que diz. Quando fala sobre corrupção, faz um movimento amplo com os braços, num sinal de quem quer demonstrar a seriedade da situação. O candidato volta a apontar para si mesmo quando fala sobre o Brasil, demonstrando sentimento de paternalismo.

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LEMBREM-SE DELE!

Marca de sua campanha até aqui, Dilma tenta absorver o prestígio do presidente Lula durante suas aparições. No lançamento de sua candidatura, ela se emociona ao falar do padrinho político, o que, segundo Gentilli, demonstra um sentimento de lealdade sincera com o presidente quando ouve palavras de apoio.

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 AMOR VERDADEIRO

Em evento posterior, Dilma é lançada oficialmente como candidata e recebe as bençãos, também oficiais, do padrinho político. Na cena, ela se levanta e, com choro contido, recebe os abraços do ex-patrão - segundo Gentilli, num gesto sincero de apreço.

_CSEMBEDTYPE_=inclusion&_PAGENAME_=ultimosegundo%2FMiGCompVideo_C%2FMiG_Detalhe&_cid_=1237739450359&_c_=MiGCompVideo_C ZONZA DE CONFORTO

Meio sorriso, movimentos oculares, falas pausadas e inclinação de cabeça em sinal de reflexão. Segundo Gentilli, os gestos demonstram sinceridade e segurança de Dilma quando ela fala, neste exemplo, sobre temas como gastos públicos, numa defesa do governo do qual fez parte.


DESCONTRAÇÃO / ESPONTANEIDADE

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APENAS O FIM...

Nem só de tensão vivem os candidatos. Num raro momento de descontração, Marina sinaliza estar à vontade quando aborda um tema aparentemente delicado – no caso, sua saída do PT. Gentilli aponta, nesta cena, que Marina está preparada para responder a questão, ao abrir o sorriso e comparar a situação à de alguém que termina o casamento.


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INDIO ARGENTINO

Cansado de responder às especulações sobre quem seria o candidato a vice-presidente em sua chapa, Serra, antes do anúncio de Indio da Costa, resolve quebrar a tensão sobre o tema com uma brincadeira: aproveitando a Copa do Mundo, previu que "o vice" seria a Argentina – o que, na avaliação de Gentilli, foi um erro, já que, ao citar uma equipe rival, dá a entender que o vice seria “inimigo”. A ironia, diz ela, é recurso usado por Serra tanto em momentos de raiva como de descontração.

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NEGÓCIO DA CHINA

Com as mãos unidas na altura do peito, como numa oração, Serra arranca riso da plateia quando fala sobre o sistema de licitação brasileiro. Para mostrar conhecimento, cita o caso de uma concorrência para distribuição de camisinhas que por pouco não foi vencida por uma empresa chinesa, cujo material era de “péssima qualidade”. “Cheirava a galinha e era cheia de furos”, diz, num riso irônico.

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DILMA DA DILMA

Num momento de descontração da entrevista, a candidata é questionada sobre como seria um eventual governo Dilma e sobre quem seria “a Dilma da Dilma”. Ela deixa claro que o debate sobre o assunto é “extemporâneo”, mas dribla a questão com um momento de descontração, com ironia e gargalhada.


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