Com PSDB enfraquecido no Espírito Santo, candidata não consegue vaga para o Senado e `vai para o sacrifício¿

Quatro vezes deputada federal, relatora da famosa Lei de Responsabilidade Fiscal no governo Fernando Henrique Cardoso, escolhida como vice-presidente de José Serra (PSDB) em 2002, a candidata ao Senado pelo Espírito Santo Rita Camata (PSDB) não levou. Ela ocuparia o lugar que seu marido, Gerson Camata (PMDB), deixa em dezembro depois de 16 anos no Senado Federal.

Com 10,8 % dos votos, a deputada perdeu a disputa para o senador Magno Malta (PR), que foi reeleito com 36,7%, e o vice-governador do Estado, Ricardo Ferraço (PMDB), 44,5 %. Opção inicial do governador Paulo Hartung (PMDB), o vice foi desbancado por Renato Casagrande (PSB) na disputa pelo governo do Estado pouco antes das eleições. Hartung participou do horário gratuito eleitoral para ter certeza da eleição de Ferraço ao Senado.

Especialista em políticas públicas, o cientista político da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Roberto Simões vê dificuldades na situação do casal Camata e do PSDB no Estado a partir destas eleições.

“De certa forma, eu penso que a grife Camata no Espírito Santo entrou em decadência. O casal entra em baixa. Não vejo muito mais fôlego no Gerson Camata, ele realmente definhou no Espírito Santo. Até porque ele foi eleito e reeleito várias vezes”, opina Simões, que chama atenção ao fato de que é a primeira vez que Rita “destoa do poder executivo estadual” e fica sem o apoio da máquina.

A tucana foi filiada ao PMDB até outubro de 2009, mas saiu depois de desvendado que membros de seu partido estavam envolvidos com a máfia dos sanguessugas. A deputada migrou para o PSDB e quase foi cassada pelos peemedebistas por causa da troca. Mesmo com a derrota, Rita nega estar arrependida e diz não fazer “política por oportunismo”.

“Não é fácil sair de base de governo para ir para o partido de oposição. Mas eu já não aguentava mais. Tem muita gente boa no partido, principalmente nas bases, mas meia dúzia usam da capilaridade que o partido tem para benefício pessoal, para ficar disputando, brigando por cargo, por boquinha”, critica Camata.

Para Camata, a campanha foi “desigual”, com uma “influência vergonhosa das máquinas públicas”. A tucana reclama da campanha de Malta, que teve como bandeira a redução da maioridade penal. O senador usou a ligação dela ao Estatuto da Criança e do Adolescente contra a concorrente.

“Eu sofri uma campanha muito vergonhosa de desinformação, desinformar o eleitor em cima do Estatuto da Criança e do Adolescente. O Espírito Santo é o quarto estado em crime. Teve um concorrente meu que a todo momento dizia que uma responsável era uma candidata que deixava impune um homem de 17 anos que cometia um crime. Sendo que o Estatuto prevê punição a partir dos 12 anos de idade. Foi uma coisa pesada”, reclamou a deputada.

Camata foi ‘para o sacrifício’

Para o cientista político do Laboratório de política da Ufes, Mauro Petersen, Camata “vai para o sacrifício” por lealdade ao candidato à Presidência tucano José Serra.

“Rita Camata é uma perda importante. Talvez fosse a melhor deputada federal do Estado, tem um perfil de longa duração no Congresso. É progressista. Infelizmente agora, por lealdade ao Serra, assim como ficou fora do Congresso em 2002 para ser vice dele, largou o PMDB para apoiar o projeto Luiz Paulo/Serra e novamente vai para o sacrifício”, explica Petersen.

Desta vez, no entanto, nenhum dos Camata fica na vida pública, já que ele saiu da disputa eleitoral – segundo a deputada, seu marido “se aposentou”. Para Petersen, a situação de Rita se complica junto com a de Luiz Paulo e a do PSDB no estado e no Brasil.

“Consolidando essa derrota (do PSDB), não se fortalece o partido, pelo contrário. Já se ventila a possibilidade de Hartung vir a ser candidato a prefeito (de Vitória). É um modo de dizer a Luiz Paulo que nem prefeito ele vai poder ser. Rita Camata pode ser candidata a prefeita, mas tem as mesmas dificuldades. Não tem espaço para os dois”, analisa o cientista político.

Desiludida, Rita não cogita a possibilidade de concorrer a qualquer governo municipal e diz que não é política “de carreira”.

“Ah, não, não (cogito ser prefeita). Eu não aguento mais esses arranjos políticos. Todo mundo já pensando em 2014, 2016. Eu não estou na política para fazer carreira, eu estou por ideal”, justifica a deputada, que chega a se questionar se permanece na vida pública. “Não sei (se continuo na vida pública). Eu vejo a cada legislatura uma renovação que, dentro dos meus princípios, vejo se deteriorando. E isso desanima muito. Mas, por outro lado, acho que quem tem ideal e vê a política como instrumento de transformação e de servir também se afasta”, disse.

O que quer que aconteça, a deputada faz questão de ficar com a família e chorou ao falar do filho de dez anos de quem teve de ficar afastada durante a campanha.

“Foram meses de muita luta e a minha família sofreu muito. Principalmente, meu filho de 10 anos (começa a chorar). Fiquei um período longo... Ligava só de manhã, porque ele estuda em Brasília. Depois já não ligava, porque não tinha tempo. E, no final do dia, era ele chorando, ‘to com saudade’. É essa coisa de gente ter que se desdobrar”, emociona-se Camata.

Rita se consola com o restante de seu mandato de deputada e considera que “ainda tem empreitada” até fevereiro, quando deixa o cargo. Ela espera aprovar uma emenda constitucional que beneficia pessoas com deficiência. Pensando em seu futuro, durante a entrevista com o iG, Camata, que é jornalista por formação, chega a brincar.

“Eu posso ser jornalista, né? A profissão que eu nunca exerci!”, sugere.

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