`Quero ser governador¿, declara o apresentador Wagner Montes

Deputado estadual mais votado no Rio diz que personagem de Tropa de Elite 2 foi inspirado nele, mas não conta sua história

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Há cerca de 30 anos, Wagner Montes aproveitava a audiência de “O Povo na TV”, então exibido pela TVS ( hoje SBT ) para emplacar bordões como “Bandido bom é bandido morto”. Três décadas e duas eleições depois – a mais recente lhe garantiu 528.628 votos nas urnas pelo PDT –, o criador do “Escraaaaaacha” ( máxima que destacou no "Balanço Geral", programa diário que apresenta na TV Record-RJ ) diz que é homem mudado: não defende mais a pena de morte, critica as milícias, e acredita que os “conviventes com o crime não devem ser apenados”. O próximo passo, ele diz, é chegar ao comando do Rio de Janeiro. “É um sonho, serei um bom governador”, afirma.

André Durão
Mudança de opinião: "Hoje sou a favor da pena de vida", diz Wagner Montes

“Mas vamos dar tempo ao tempo. E o nosso tempo é o tempo de Deus”, diz o apresentador, que é evangélico. “Deus tem um plano para a vida da gente. Vou deixar Deus definir isso aí. Agora penso em fazer um bom mandato”. Enquanto entrega o futuro político nas mãos do Criador, Wagner Montes não revela em quem votou no 1º turno, mas assegura: “Não vou apoiar a Dilma. Meu partido está apoiando a candidatura dela". Perguntado se ficará neutro, desconversa. “Pode até ser". 

O discurso religioso de Wagner Montes não chega à sua plataforma política, ele garante. “Sou hiper a favor de que as pessoas tenham seu Deus e sejam devotas. Respeito todas as religiões. Mas eu acho que a religião atrapalha a fé”. Falante e “hiperativo”, como se define, Montes assegura que, apesar dos anseios políticos, não pensa em disputar a presidência da Assembleia Legislativa no próximo mandato, como se especula nos corredores da Alerj.

“O poder pelo poder não me fascina”, afirma. “A praxe na Casa é o partido com a maior bancada, no caso o PMDB, ficar com a presidência e o segundo partido com a maior bancada ( o PDT ), com a primeira secretaria. Sou fiel ao PDT, que é quem vai decidir. Em fevereiro, tem a votação da Mesa Diretora, aí nós vamos ver”, diz.

O deputado também desconversa sobre a sucessão municipal de 2012. “Acho muito cedo, qualquer conversa só servirá para desestabilizar o Eduardo ( Paes, prefeito do Rio pelo PMDB ). Ele está fazendo um governo. Bom ou mal é o eleitorado que vai julgar nas urnas. Não sou candidato a nada agora, a não ser a cumprir o meu mandato e fazer outro grande mandato”.

Tropa de Elite 2: “Falei, ‘André, vai homenagear outra pessoa’”

Desde a estreia de Tropa de Elite 2, Wagner Montes tem respondido a perguntas sobre possíveis semelhanças entre ele e o personagem do ator André Mattos, o deputado Fortunato ( um político apresentador de TV que se envolve com milícias ). Montes afirma que “está tranquilinho” com a polêmica, e diz que as diferenças são claras: "Nunca fui preso". Por fim, ele conta que em uma entrevista sobre o filme, Mattos, seu colega na TV Record, teria admitido que os trejeitos do apresentador inspiraram o personagem. Wagner soube da “homenagem” e, ao encontrar o ator, brincou: “André, vai homenagear outra pessoa.”

Wagner Montes diz que dorme cinco horas por dia, em média. Isso depois de tomar um Frontal ( sedativo ) e recostar no “pezinho” da mulher – presente à entrevista do deputado. “Se não tiver pezinho da Sônia Lima, eu não durmo”, ele diz, para alegria da companheira, que abre um sorriso.

André Durão
Casado há mais de 20 anos com a atriz Sônia Lima, Wagner Montes ressalta: "Sou muito, muito, ciumento. Mas hoje estou melhor"

Além de Sônia, a cadela maltês Annie Aparecida é outra que não pode faltar na cama do deputado. “Sou a terceira amante do Wagner, para dizer a verdade. Casado ele é com a polícia. A primeira amante é o twitter, a segunda, a Annie e eu venho depois”, relata Sônia, aos risos. O casal está junto há 23 anos e tem dois filhos.

Ao longo da entrevista ao iG , o BlackBerry do apresentador não para de emitir sinais sonoros. Eram mensagens via twitter. “Adoro, fico sempre ligado”, ele conta. “Monitoro o tempo todo. Acho que o mínimo que eu posso fazer é dar atenção às pessoas. Olha como o povo é ( pega o telefone e lê uma mensagem ): “Precisamos contar com seu apoio para aumentar o efetivo do terceiro batalhão”. “Eu tenho que dar atenção”, explica.

Enquanto concede a entrevista, Wagner Montes aproveita para carinhosamente “implicar” com a sogra. “Ela é minha segunda mãe, mora com a gente. Eu faço questão”. Também destacava a semelhança com o filho mais velho, Wagner (24). “Ele é a minha cara quando eu era mais novo, não é?”.

O primogênito não se assemelha apenas fisicamente com o pai. Assim como Wagner Montes, o filho estuda direito e já pensa em entrar para a política. “Nosso filho mais novo, Diego (20), é artista. Ele faz musicais, dança, sapateia, canta e interpreta. Ela estuda 18 horas por dia, de segunda a segunda”, diz. “Agindo dentro da lei, eles contam com meu apoio para serem o que quiserem". 

A seguir, acompanhe a entrevista.

iG: Quais foram as questões pelas quais o senhor mais trabalhou neste primeiro mandato?

Wagner Montes: Quando fui para a Assembleia, falaram que eu iria ter dois “calcanhar de Aquiles”: Alessandro Molon (PT), que era presidente da Comissão de Direitos Humanos na época, e Marcelo Freixo (PSOL), que até então era membro da mesma comissão. Cheguei lá, expus minha forma de pensar e fui agindo com retidão. E pela primeira vez na história do parlamento do Rio de Janeiro a Comissão de Segurança Pública, que eu presido, fez audiência conjunta com a Comissão de Direitos Humanos. Articulação minha, do Molon e do Freixo, que depois assumiu a Comissão de Direitos Humanos. Começamos a trabalhar em conjunto. O Freixo “é tu-do-de-bom”. Tem coisas que ele não concorda comigo, mas eu já aprendi muitas coisas com ele. Tenho a maior humildade de dizer que aprendo com ele.

iG: Um ponto de vista que o senhor tinha e o deputado Marcelo Freixo ajudou a remodelar?
Wagner Montes: Nenhuma mãe, nenhum pai, cria o filho para ser marginal. Se ele envereda para o caminho do crime, a família também sofre. Isso tem que ser respeitado. Esse panorama geral o Freixo me ajudou muito a entender. Imaginar que a mãe do preso sofre. Não é porque um é bandido que a dor da mãe é menor do que a mãe de um trabalhador, um chefe de família vítima. Eu queria muito que o Freixo voltasse para a Alerj, graças a Deus que ele voltou. Temos um caminho a trilhar.

iG: O senhor já mudou muito de ideia em relação ao que defendeu no passado?
Wagner Montes: Tenho que ser humilde para reconhecer que fui a favor da pena de morte, agora mudei. Sou a favor da pena de vida. Se a pena de morte fosse implantada no Brasil só morreriam pretos, pobres e prostitutas. Não é feio mudar de ideia. Feio é não ter ideias para mudar.

iG: E divergências com o deputado Marcelo Freixo, existem?
Wagner Montes: O Freixo é contra a redução da maioridade penal. Respeito. Mas ele sabe o seguinte: nós estamos no país da hipocrisia. Os políticos acharam por bem e decidiram que o cara com 16 anos de idade pode votar. Por que não podem ser responsabilizados pelos atos criminosos que cometem? O cara mata um chefe de família, um trabalhador, e na hora de ser responsabilizado vem com a história do “di menor”. E aí o máximo que pode acontecer com ele, o menor, são três anos de medidas sócio-educativas. Quando ele não foge antes.

iG: O senhor disse que apoiou o governador Sérgio Cabral quando achou certo, como no caso das UPPs, mas que fez oposição também. A quê?
Wagner Montes: Votei contra algumas mensagens do Executivo. Aumento de salários para os professores, fui a favor. Dos fazendários, fui a favor. Agora, quando o Executivo mandou mensagens com X% de aumento e eu achava muito pequeno e que tinha de ser maior, como os de médicos e policiais, por exemplo, eu e outros companheiros votamos contra o governo. Perdemos porque a maioria lá é da base de apoio. Tudo eu votei com o Freixo. Pode conferir lá.

iG: Quando o senhor foi eleito em 2006, intensificou-se o debate sobre milícias. Gostaria de saber sua opinião sobre o problema.
Wagner Montes: Fui um dos 25 deputados que subscreveram a criação da CPI das milícias. Fui o responsável pela relatoria da aprovação da CPI, por ser presidente da Comissão de Segurança Pública. E o Freixo conduziu de maneira maravilhosa a CPI. Todos os membros da comissão trabalharam muito, em especial a deputada Cidinha Campos. Eu ajudei. Como presidente da Comissão de Segurança Pública recebia muitas denúncias e repassava todas para o conhecimento do Freixo.

iG: Mas no início o senhor não era a favor?
Wagner Montes: Não. Todo mundo no começo achava que milícia seria o quê? Policiais civis, militares e bombeiros que moravam em determinadas comunidades e resolveram se juntar para expulsar o tráfico. Esse era o panorama no início. Mas foi de quatro anos para cá que eles começaram a mostrar as garras. Eu me lembro que ainda estava na CNT e comecei a meter o cacete neles, porque eles começaram a cobrar dos moradores taxa de proteção e a fazer Justiça com as próprias mãos. Isso não existe. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém em poder paralelo.

iG: O senhor assistiu Tropa de Elite 2?
Wagner Montes: Na pré-estreia, com o Freixo e o (José) Padilha.

iG: O Freixo e o Padilha já explicaram que o personagem do ator André Mattos, um deputado apresentador de TV e ligado a milícias, não tem nada a ver com o senhor. Mas algumas pessoas fazem essa interpretação... A construção do personagem foi infeliz?
Wagner Montes: Não acho. Você viu quanta gente falou comigo ( no restaurante, durante a entrevista )? Viu alguém falando do filme? Ninguém falou. Eu não acho que o Padilha foi infeliz, eu não acho que o Pimentel ( Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope e co-roteirista do filme) , que é meu amigo, foi infeliz. Não acho. Eu acho que se todo mundo tivesse ido à entrevista coletiva da pré-estreia não teria tido problema nenhum, porque o Zé Padilha foi taxativo.

A atriz Sônia Lima, mulher de Wagner Montes, interrompe a fala do marido.

Sônia Lima: Deixa eu falar para você, como atriz. A gente quando recebe um personagem, busca referências para compor esse personagem. E ele ( André Mattos ) usou o lado apresentador do Wagner, porque ele é uma referência como apresentador. Depois, ele usou uma outra referência de deputado. Só que não são todas as pessoas que têm essa informação e aí acabam fazendo essa leitura.

Wagner Montes: Mas eu quero acabar de fazer essa colocação. Na coletiva, o André explicou que o personagem dele era um político que quis um programa de televisão para ter mais poder. E explicou: ‘Eu sou fã do Wagner, na construção do meu personagem predominou o Wagner’. Ora, tem um monte de apresentador por aí, se lembrar de mim é uma honra. Foi ótimo. Mas falei para o André, "vai homenagear outra pessoa". O André é muito doce. Ele me falou "sabe que na hora eu só pensei em você como meu ídolo?". Tudo bem, jogo jogado. Eu não vesti a carapuça. Nem posso, nunca fui preso. E quando o deputado no filme foi preso, repare no gesto que ele fez ( e junta as mãos como se estivesse algemado e as eleva na altura do rosto em referência ao deputado Natalino Guimarães ex-DEM, preso em 2008 por porte ilegal de armas, formação de quadrilha e favorecimento pessoal ).

iG: O senhor disse que não está apoiando Dilma no segundo turno, diferentemente do que faz o PDT. Votou na Dilma ou no Serra?
Wagner Montes: O voto é secreto, não posso contar.

iG: E no segundo turno, já tem candidato?
Wagner Montes: Vou ver.

iG: Se a Dilma procurar o senhor ela tem chance?
Wagner Montes: Se o Lula fosse o candidato eu votaria no Lula. E respondo por quê, não fico em cima do muro. Nos últimos 29 anos, nenhum presidente investiu tanto no Rio como o Lula. Tenho acompanhado os debates, estou ouvindo o Serra e a Dilma.

iG: Mas a tendência neste momento é Dilma ou Serra?
Wagner Montes: Se fosse uma questão de gratidão seria para a Dilma. Porque o Lula fez tanto pelo meu Estado que seria uma maneira de eu retribuir. Mas acho que além da gratidão você tem que pensar lá na frente. Aquele que tiver mais adequado na forma que eu penso, principalmente na área da segurança pública, na área da saúde, na área da educação, é aquele que vai levar meu voto.

iG: O senhor já disse que é precipitado falar em prefeitura 2012. Mas a ideia de ser prefeito ou governador o agrada?
Wagner Montes: Sim. Costumo dizer que qualquer jogador tem o sonho de jogar na Seleção Brasileira. Sonho em governar meu Estado. E tenho certeza que serei um grande governador. Deus tem um plano para a vida da gente. Agora, no entanto, sou candidato a terminar meu mandato bem e a fazer outro bom mandato.

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