PT tenta forçar 2º turno para eleger Mercadante em São Paulo

Escalado como plano B para a disputa paulista, senador pretende reverter experiência petista no maior colégio eleitoral do País

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Desde sua fundação, no começo dos anos 1980, o PT jamais conseguiu eleger um governador em São Paulo. A sequência de candidatos derrotados no berço do partido e principal colégio eleitoral do País tem na conta nomes como José Dirceu (candidato em 1994), Marta Suplicy (1998), José Genoino (2002) e Aloizio Mercadante (2006), que neste ano foi novamente escalado; desta vez, às pressas, como uma espécie de plano B da legenda para a disputa.

Antes da definição, o nome preferido do presidente Lula, principal articulador da estratégia petista pelos Estados-chave, era o do ex-ministro Ciro Gomes (PSB-CE), que chegou a mudar seu domicílio eleitoral para São Paulo. A tática previa que, com Ciro fora da disputa presidencial, a candidata Dilma Roussef f (PT) teria mais chances de ser eleita no primeiro turno; teria, de quebra, a garantia de um palanque forte em São Paulo, onde se concentram nada menos do que 30 milhões de eleitores. No fim, Ciro não abriu mão de disputar a Presidência, mas foi rifado pelo próprio partido. Contrariado, decidiu não atender ao apelo do presidente.

Foi neste contexto que Lula e o partido escalaram Mercadante, um dos nomes com menos rejeição no partido, para a disputa. O petista, desgastado após o escândalo dos aloprados, em 2006, e com o anúncio da renúncia “irrevogável” (que revogou pouco depois) da liderança do governo na Casa, entrou na campanha quando as pesquisas já apontavam uma alta probabilidade de o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) ser eleito logo no primeiro turno.

Mercadante tinha a seu favor uma coligação que reuniu 11 partidos – entre os quais o PDT, de seu vice, Coca Ferraz – além de Lula, maior cabo eleitoral dessas eleições. A coligação o levou a se apoiar em Netinho de Paula (PC do B), candidato ao Senado em sua chapa e espécie de porta-voz de Mercadante na periferia. Houve, no entanto, momentos de desconforto causados pelo aliado PR, que patrocinou a candidatura do palhaço Tiririca à Câmara dos Deputados. O slogan do candidato – “vote em Tiririca: pior que tá não fica” – causou incômodo no PT, que exigiu a retirada do nome de Mercadante nas aparições do palhaço na TV.

Tabuleiro

Embora tenha acumulado duas derrotas eleitorais seguidas, Alckmin sempre apareceu à frente dos demais candidatos nas pesquisas – e apenas a duas semanas da eleição a possibilidade de a disputa ser decidida no segundo turno foi apontada em um levantamento de intenção de voto.

Até a última semana, o comando da campanha petista apostava no potencial de transferência de votos de Dilma para Mercadante, já que muitos eleitores da presidenciável afirmavam nas pesquisas a intenção de votar em Alckmin para governador. O desafio ainda era encostar no tucano em algumas cidades onde as projeções apontavam “desequilíbrio” em favor de Alckmin, como Ribeirão Preto, Franca, Piracicaba e cidades do Vale do Paraíba.

A três dias das eleições, Mercadante tinha vantagem em Diadema, Mauá e Campinas e se aproximava do principal adversário em cidades como Osasco e São Bernardo do Campo. Para bater o tucano no interior, Mercadante passou boa parte da campanha criticando o que classificou de “abuso” dos pedágios nas rodovias paulistas.

“O eleitor sabe que o pedágio é um fator impeditivo para que haja mais desenvolvimento no interior. É um problema logístico, que encarece os produtos e os empresários ponderam (na hora de escolher o candidato)”, explica Edinho Silva, presidente do PT em São Paulo.

Se Mercadante conseguir levar a eleição para o segundo turno, e Dilma confirmar o favoritismo e vencer as eleições já neste domingo, a direção do PT em São Paulo terá o cenário dos sonhos a partir do dia 4. É a data marcada para que desembarquem no Estado dois presidentes da República para fazer de São Paulo a principal peça do tabuleiro para os planos do partido a partir de 2011.

Nas contas do vereador José Américo (PT-SP), um dos coordenadores da campanha de Mercadante, se Mercadante conseguir chegar a 34% dos votos válidos, e os candidatos do PV, PSB e PP não perderem votos, a possibilidade de segundo turno em São Paulo se tornará viável. Para isso, o senador teria que obter 3% do eleitorado de Alckmin nesses últimos dias. “Em 2002, as pesquisas apontavam que era impossível que o Genoino fosse para o segundo turno e ele foi”.

A aposta no PT é que Alckmin repita neste ano o desempenho que teve nas eleições municipais de 2008, quando, favorito, perdeu força na reta final – na ocasião, ele não foi sequer para o segundo turno. Na atual campanha, no entanto, o candidato (que, diferentemente de 2008, tem desta vez o DEM ao seu lado) ainda se mantém próximo dos 50% dos votos válidos, apesar do bombardeio contra ele protagonizado por Mercadante e os candidatos Celso Russomanno (PP) e Paulo Skaf (PSB). Foram seis debates transmitidos ao vivo desde o início oficial da campanha. Em todos, Alckmin e o governo tucano foram o principal alvo das críticas.

Mercadante, por exemplo, centrou fogo, além dos pedágios, na situação da segurança pública e na promessa de acabar com o sistema de aprovação automática na rede pública de ensino paulista. Sem efeito nas pesquisas, Mercadante subiu o tom contra o adversário apenas em raras ocasiões, como no debate promovido pela TV Record, a três semanas da eleição, quando responsabilizou o tucano pelos ataques promovidos pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) a policiais no Estado, em 2006. Na TV, levou ao ar promessas feitas por Alckmin quando ele era candidato em 2002 e que não foram cumpridas – entre elas, o compromisso de que não haveria pedágio no trecho Sul do Rodoanel. Mercadante chegou a chamar o rival de “frango de padaria”, porque, segundo ele, rodava em torno das mesmas promessas e nunca saía do lugar.

Para estancar os ataques, Alckmin passou também a fazer críticas ao adversário na propaganda de rádio e TV. Tentou, por exemplo, colar em Mercadante a pecha de senador que se ausentava durante votações, no Senado, de interesses de São Paulo. A resposta do senador às acusações custou minutos escassos de seu programa de TV – menor que o do ex-governador.

Segundo Edinho Silva, apesar dos ataques dos rivais, a campanha conseguiu tornar claras as diferenças de projetos entre os dois principais candidatos. Para ele, o eleitorado, aos poucos, se identificou com o projeto petista, o que explica o crescimento do candidato na reta final da campanha. Historicamente, é na reta final que os candidatos do PT em São Paulo começam a ganhar força e se aproximar ao menos do segundo turno.

Lula

Outra marca da campanha petista foi o esforço em tentar transferir a Mercadante a popularidade do presidente Lula. Durante os três meses de campanha oficial, o senador não perdeu a chance de destacar, em comícios, debates e entrevistas, sua atuação como líder do governo nem de destacar números relativos à gestão Lula. Disse, em várias oportunidades, que só não foi ministro do governo porque tinha como missão “cuidar” dos projetos de Lula no Senado. Lula, por sua vez, concentrou eventos em São Paulo nas últimas semanas das eleições.

A ideia era mostrar para o eleitorado, sobretudo concentrado na classe média paulista (historicamente resistente ao PT), que o governo Lula proporcionou melhorias na renda do brasileiro e que, por isso, o partido merecia uma oportunidade no comando do maior Estado do País.

“A classe média perdeu o medo do PT em São Paulo porque ganhou muito no governo Lula”, define o prefeito de Osasco Emídio de Souza (PT), que coordenou a campanha de Mercadante.


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