PT contraria tradição e lança apenas lista de compromissos

Sem programa de governo consolidado, Dilma diz que é mais 'fácil' informar o eleitor por meio da televisão

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Pela primeira vez desde a volta das eleições diretas para presidente da República, o PT não vai apresentar um programa de governo detalhado. A candidata Dilma Rousseff distribuiu hoje, faltando apenas seis dias para o segundo turno, um documento de 17 páginas, das quais apenas cinco são dedicadas a propostas, intitulado Os 13 compromissos de Dilma Rousseff para o debate na sociedade brasileira , com intenções e diretrizes superficiais, com tiragem de apenas 100 exemplares.

Dilma justificou a ausência de propostas consistentes, a exemplo das que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou ao longo de cinco disputas presidenciais, alegando que os detalhes foram mostrados nos programas de televisão. "Só falta vocês começarem a achar que o povo lê mais do que vê televisão", disse Dilma. 

Agência Estado
Documento foi lançado em evento em São Paulo
Segundo ela, a escrita é uma forma ineficiente de comunicação com o eleitorado. "Nós fazemos programa de TV e de rádio todos os dias. Não acho pouco porque o método mais fácil de comunicação com o eleitor é televisão e rádio. O mais difícil é página escrita. É muito mais abrangente rádio e TV", afirmou.

Dilma não é a única a não apresentar um programa consolidado - o rival tucano José Serra (PSDB) também não produziu um documento do gênero. No entanto, o texto lançado hoje pelo time petista não condiz com as diretrizes do programa de governo de Dilma, que provocaram polêmica no início deste ano por preverem um viés estatizante para um eventual governo da ex-ministra da Casa Civil.

Além dos 13 pontos divulgados hoje, a campanha apresentou documentos temáticos igualmente superficiais para as áreas de juventude, educação, meio ambiente, ciência e tecnologia, cultura, saúde e pessoas com deficiência.

As 17 páginas mostradas hoje resultam de quatro meses de trabalho de uma comissão integrada pelos 10 partidos que compoem a coligação que apoia Dilma mais o PP. Diante da centralização das decisões de campanha nas mãos do presidente Lula e um grupo formado exclusivamente por petistas, a comissão de programa de governo foi a forma encontrada para acomodar os demais partidos.

Em campanhas anteriores, o programa tinha um papel central. Um exemplo é o fato de que na eleição de Lula em 2002 a coordenação ficou a cargo do então prefeito de Ribeirão Preto Antonio Palocci, que depois passou a ocupar papel central no governo.

Embora o documento apresentado hoje seja assinado pelos 10 partidos, apenas quatro (PT, PC do B, PSB e PMDB) compareceram ao ato de lançamento (fechado para a imprensa) além do candidato derrotado ao governo de São Paulo Celso Russomanno (PP).

Tanto a demora na apresentação do programa quanto a centralização das decisões foram objeto de reclamações dos partidos aliados. "É claro que para nós, do PC do B, (o programa) já deveria ter saído no primeiro turno. De certa forma a campanha teve que ouvir os partidos. Achamos sempre que a participação nas decisões da campanha deveria ser mais ampla. A frente tem que funcionar. Não pode ser só um partido", disse o presidente nacional do PC do B, Renato Rabelo.

Segundo Dilma, as diretrizes apresentadas hoje são uma espécie de garantia aos demais partidos da coligação. "Eu chamo esses compromissos de a 'construção da nossa governabilidade' porque eles refletem uma força política desses 11 partidos que se expressam em 50 senadores e mais de 350 deputados. Estamos formalizando, inclusive para o futuro. É um compromisso formal", disse ela.

Para o coordenador do programa, Marco Aurélio Garcia, a melhor forma de divulgar o trabalho é a resumida. Segundo ele, os documentos pesados de centenas de páginas mostrados por Lula em 89, 94, 98, 2002 e 2006 - considerados por analistas políticos uma contribuição do PT à democracia - estavam errados. "Acho que é um erro porque ninguém lê", justificou.

Garcia irritou-se com a insistência dos jornalistas no tema. "Nós chamamos isso de programa de governo. Se você não estiver contente crie um partido", resmungou. A própria Dilma admitiu que os compromissos são genéricos. "Obviamente eles são gerais, não são metas. Eles têm o compromisso de diretriz. É a síntese do que pretendemos fazer com o Brasil", afirmou.

Propostas

Nas cinco páginas de propostas há poucas ideias que não tenham sido iniciadas ou formuladas no governo Lula. O verbo "ampliar" e suas conjugações aparece 17 vezes em cinco páginas. Os redatores da campanha também abusaram dos verbos "continuar", "prosseguir" e "aprofundar". Exemplo: "O governo Dilma será de todos os brasileiros e brasileiras e dará atenção especial aos trabalhadores".
"É para ser superficial mesmo", admitiu Russomanno.

Segundo o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, o texto reflete o caráter continuista de um possível governo Dilma. "A grande novidade é a continuidade com avanço", disse ele.

Entre as propostas, destacam-se os compromissos com a reforma política, reforma do Estado, reforma tributária e erradicação da miséria. O texto, no entanto, não diz quais serão as mudanças nem de onde virá o dinheiro.

Dilma se compromete ainda a construir 6 mil creches, 10 mil quadras cobertas, promover uma "ampla mobilização" para erradicar o analfabetismo, investir na melhoria de vida das grandes cidades, criar uma defesa civil nacional, ampliar a rede de tratamento para dependentes em crack, implantar o Vale Cultura, aumentar os investimentos e a poupança, manter o sistema de câmbio flutuante e blindar o país contra ar crises econômicas externas.

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