"Problema do Brasil é falta de elite", diz Marina

Pré-candidata do PV à Presidência falou ao iG na manhã desta terça-feira

iG São Paulo |

Nascida em uma família de seringueiros no interior do Acre e alfabetizada somente aos dezesseis anos, a senadora Marina Silva (AC), pré-candidata do PV à Presidência da República, diz rejeitar o discurso tradicional da esquerda de que o problema do Brasil está na “elite”. “Tenho que fazer uma crítica, porque a gente, que é de esquerda, passou muito tempo dizendo que o problema do Brasil era a elite, a elite, a elite. Hoje, eu entendo que o problema do Brasil é a falta de elite”, afirmou Marina ao iG . “Elite é quem tem uma visão estratégica do Brasil.”

Marina, que visitou a redação do iG nesta terça-feira, relembrou o tempo em que atuou ao lado do seringueiro Chico Mendes. “O Chico Mendes, por exemplo, era elite. Entendeu que tinha outro jeito de explorar a riqueza da floresta. Elite não eram aqueles barranqueiros de rio”, acrescentou.

Adriana Elias/iG
A pré-candidata do PV, durante a visita ao iG
Confira os destaques da visita de Marina:

PV nos Estados e relação com Gabeira

Arrecadação e relação com empresários

Religião

Apoio do eleitorado jovem

Pragmatismo e fisiologismo na política

Saída do PT e candidatura presidencial

Propostas de governo

Lista cívica e Constituinte exclusiva

Entrevista do vice Guilherme Leal

Os bastidores da visita

A pré-candidata relembrou os motivos que a levaram a trocar o PT pelo PV, como a discordância com a política do governo Lula para a área ambiental . Alegando que "há vida após o PT" , ela negou que tenha dificuldade em assegurar a montagem de um palanque forte em alguns Estados como o Rio de Janeiro , onde o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) se lançou ao governo com apoio do pré-candidato tucano ao Palácio do Planalto, José Serra. 

Acompanhada na visita pelo vice Guilherme Leal, Marina prometeu uma "campanha modesta" ao falar sobre as perspectivas de arrecadação e seu relacionamento com o empresariado . Tratou ainda de temas como o apoio do público jovem , o impacto de sua religiosidade na campanha e da ideia de criar uma Constituinte exclusiva para a realização de grandes reformas estruturais.Também elencou propostas de governo para áreas como educação, segurança e saúde. E, entre as promessas para o caso de vencer as eleições, assegurou que combaterá o fisiologismo e o pragmatismo que atingem os partidos brasileiros, entre eles sua própria legenda.

 Governo Lula e política ambiental

“Dentro do governo, você tem pessoas e gestores públicos que estão completamente aliados a esta agenda. Mas é claro que existem outros que estão na posição contrária. Eu, por exemplo, tinha muita dificuldade com o ministro Mangabeira Unger, com o ministro [Reinhold] Stephanes, em alguns aspectos. E a ministra Dilma [Rousseff] coordenava o processo e, de alguma forma, o pensamento dela era acolher ali a maioria dos ministros. E a decisão final era do presidente Lula. Então, essa diversidade da sociedade existe também no governo e não tinha como ser diferente. A diferença que é nos estamos propondo para a sociedade, um acordo social e fazendo já essa discussão num processo eleitoral, para que estejamos comprometidos majoritariamente com essa transformação. Acho que seria uma grande perda de tempo passarmos uma eleição, em 2010, no inicio do século 21, discutindo as mesmas coisas para obtermos os mesmos resultados, quando o mundo todo está discutindo outras coisas e já alcançando novos resultados”

“Os grandes projetos foram licenciados na minha gestão. Eu não tinha como principio retardar os empreendimentos. Eu tinha como princípio licenciar os empreendimentos da forma correta. E foram licenciados os mais difíceis: hidrelétrica do Madeira, do Rio São Francisco, BR-163; só pra citar os mais difíceis. É óbvio que, comigo, não teria uma licença como tivemos em Belo Monte"

“Quando você age na gestão pública com o principio da probidade, da impessoalidade, da constitucionalidade, você faz aquilo que eu disse: ‘perco o pescoço, mas não perco o juízo’. Porque, depois, a sociedade vai cobrar e vai cobrar caro. E deve cobrar caro”

“Eu não daria uma licença por pressão política. Se eu tenho alguém da área técnica que está dizendo que o problema não está resolvido, então eu obrigo esse técnico a dar a licença? O presidente Lula nunca fez isso comigo" 

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PV nos Estados e relação com Fernando Gabeira

“Eu não percebi, para ser bem sincera, em nenhum lugar do Brasil, qualquer militante ou filiado do PV que seja contrário a esta candidatura. O que existe é uma visão de que as políticas de alianças, em algum contexto, não levam a prejuízos à candidatura majoritária. Na opinião da direção nacional, favorece mais se tivermos candidatura própria [nos Estados]. É isso que está sendo debatido com essas direções. Não existe essa história de que há pessoas que têm divergências com a candidatura”

“Eu vou falar sobre a questão de amizade e respeito que eu tenho com o Gabeira. Seria injustiça se eu mordesse essa isca de que o Gabeira é um traíra, que está fazendo isso e aquilo. Não seria justo com ele, com a biografia dele e com o esforço que ele fez para que eu me filiasse ao PV, com o esforço que ele tem feito para viabilizar o palanque dele, com o Democratas e o PSDB apoiando e, ao mesmo tempo, ele dizendo, muito transparentemente, que me apoia. Não é porque as coisas aparecem nas manchetes que eu vou acreditar nelas em lugar de acreditar e não no que está sendo produzido na prática, na política real”

“Essa a historia dos cartazes pode ser ampliada com a lupa que quiseram. Mas, na verdade, havia um entendimento de que não haveria cartazes, nem da Marina e nem do Serra. E uma comunidade muito simples trouxe os cartazes. E o entendimento é de que já que haveria para um, não haveria para o outro. Se formos olhar para os fatos e não carregar nas versões é possível ver que há menos problemas do que a nossa vã filosofia pode imaginar” 

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Arrecadação e relação com o empresariado

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“O empresariado de vanguarda já está inteiramente alcançado. É só ver a importância que tem o Guilherme [Leal] como meu vice. Há um grande número de pessoas, que, como ele, não têm essa visão de opor meio ambiente e desenvolvimento, como se fossem corpos estranhos. Pelo contrário, são pessoas que aprenderam que a integração dessas duas coisas favorece tanto ao seu negócio, quanto à visão de que eles têm de contribuir com um mundo melhor [...]. Acho que aqueles que fazem um discurso atrasado, de opor meio ambiente e desenvolvimento, prestam um grande desserviço. E uma boa parte já compreendeu que este discurso não serve”

“Temos que desmistificar essa coisa de ver o Guilherme como uma fonte de recursos. Ele está neste lugar pela contribuição que ele dá, pela pessoa que ele é. É o empresariado de vanguarda no Brasil, por isso ele está aqui. Nossa campanha será modesta, com cidadania. Não sei o valor. Não vamos nos equiparar a outros partidos. Vamos ter cidadania para fazer a campanha com dignidade, mas modesta”

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Religião

“Eu nunca fiz isso [usar o fato de ser evangélica para obter votos] quando era católica. Nem vou fazer como evangélica. Agora, as identidades aparecerão. Se eu fosse artista e você me perguntasse se vai usar o fato de ser artista, isso viria naturalmente, com certeza. Se eu sou acadêmica e sou respeitada, isso viria naturalmente. As pessoas vão se identificar, eu vou tratá-las como cidadãs que são. Não posso privar a comunidade cristã e evangélica de se aproximar de mim pela identificação que tem. Isto seria lhes subtrair o direito democrático, assinado na Constituição. O que eu posso dizer é que não vou

satanizar os outros candidatos, como já vi fazerem com o Lula. De dizer que ele era isso e aquilo. Isso não condiz com a minha atitude e os valores éticos que eu defendo. O Deus que me ama é o Deus que ama o Serra e que ama gente que vota na Dilma ou que não vota em ninguém. Vou falar da fé que eu tenho. Eu me reúno com pastores, sim. Mas nos lugares adequados para conversar com eles. Me reúno com padres, acadêmicos, empresários. Não vamos criar dois pesos e duas medidas”

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Apoio dos jovens

“É possível fazer política, não apenas pelo calculo pragmático de quem tem mais dinheiro, de quem tem mais palanque, de quem aposta em projetos de poder pelo poder. É isso que faz com que eles [jovens] se mobilizem. Eu já me mobilizei por isso. Lula me fez andar nos rios mais distantes, nos lugares mais

íngremes, com malária e tudo o que você pode imaginar, acreditando nesse sonho. E chegamos até aqui. A juventude não é pragmática, é sonhadora e tudo que fizemos na prática é pelo seu sonho”

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Pragmatismo e fisiologismo da política

“Eu não estou dizendo que os membros do PV são perfeitos. Assim como os do PT não são, ou do PSDB. Mas todos do PV não são imperfeitos. Cometem erros? Devem cometer. Eu cometo muitos erros. Mas talvez esses a que vocês se referem não cometemos. Existe uma qualidade política neste país que não pode ficar refém de acusações contra o PV, PSDB ou PT. Ou a gente luta por isso ou então tem que se aposentar. Estou há 30 anos acreditando que não é assim”

“Já estamos combatendo [o fisiologismo no PV]. Quando nós assumimos que quem for julgado em segunda instância não terá legenda no partido já foi uma boa sinalização. Essa é uma coisa positiva. [...] De uma coisa eu tenho clareza: de que, assim como o PT, partido que do qual eu estava saindo, não era perfeito, o PV também não é. Isso não significa que eu não vou combater esses erros, tanto dentro do meu próprio partido, quanto na sociedade”

“O que precisamos é fazer um realinhamento histórico entre o PT e o PSDB. Isso eu não estou dizendo agora porque eu sou candidata. Quando eu nem pensava em ser candidata e eu escrevi um dos meus primeiros artigos na Folha de S. Paulo tratando disso. [...] Não deu certo [neste governo] porque o PT quis governar sozinho e ficou refém do fisiologismo do PMDB. O PSDB tentou governar sozinho e ficou refém do fisiologismo do Democratas. Se tivéssemos conversado, talvez tivéssemos qualificado melhor a base de sustentação”

“Eu acho que o Zequinha [Sarney] não pode ser confundido com seu pai [o presidente do Senado, José Sarney]. Seria a mesma cosia que exigir da minha filha, que é psicóloga, que seja ambientalista, porque eu discuto estes temas. Ele é alguém que vem da política tradicional, que de fato tem uma relação verdadeira com essa agenda do ambientalismo"

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Saída do PT e candidatura presidencial

“Acho que, num determinado momento, você tem que desequilibrar as estruturas. Você acha que eu, como militante da sociedade, ia buscar o terceiro mandato como senadora? A minha decisão foi, depois de 16 anos, de não tentar. Estava participando de um movimento chamado Brasil Sustentável, estávamos criando o Instituto Democracia e Sustentabilidade, que presido e do qual vou me afastar agora. Daí, veio o convite do PV, que me deu a possibilidade de fazer uma revisão programática do partido e colocar a sustentabilidade como eixo estratégico. Tomei a decisão em três fases. Primeiro saí do PT, depois me filiei ao PV, depois decidi se seria candidata à Presidência da República"

“Eu deixei o PT por ele não assumir a bandeira da sustentabilidade como eixo estratégico da sua atuação. A questão da ética eu sempre defendi e iria continuar defendendo dentro do partido. As generalizações que são feitas são injustas com o PT. As pessoas que erraram devem pagar o preço, devem ser punidas. Mas não se deve haver generalização. Não vejo fazerem essas generalizações com o Democratas, com o PSDB. Por que com o PT? Não é porque eu sai do PT que eu vou fazer esse discurso fácil. Eu combatia os problemas éticos dentro do PT. Como vou combater de dentro do PV”

“Eu acho que essa coisa de [dizer que a candidatura é para] marcar posição, existe um grupo que é interessado em plantar esse joio. Mas acho que 12% já uma posição bem marcada. E isso é apenas o começo”

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Propostas de governo

“Eu tenho uma posição contrária [ao uso de energia nuclear]. É uma energia cara e não é segura. Nós temos fontes que são renováveis, limpas e seguras e igualmente caras. E para uma fonte cara que não é segura é melhor colocar biomassa eólica”

“Educação é uma prioridade. Uma prioridade, como direito e como alavancagem da dinâmica de desenvolvimento. Entendendo que, para isso, vamos ter de investir mais e melhor, apostando da educação infantil e universidade. Valorizando os professores num processo de formação continuada e restabelecendo o valor simbólico que tem o professor. É um problema grave essa falta de valorização econômica e social do professor”

“A escola de tempo integral tem uma grande contribuição. Nós temos que ter sistemas mistos, mas a escola de tempo integral ajuda e favorece. Entendo a escola de tempo integral não como um depósito de crianças, onde os agentes parentais não são responsáveis por relações efetivas que essas crianças que precisam ter. Mas como um espaço onde a criança pode ser estimulada, onde essa criança pode ser melhor recebida na ausência desses agentes parentais”

“Eu defendo uma reforma da segurança pública no Brasil. Qualquer coisa que se faça em cima dessa base, que está completamente deteriorada. Qualquer estrutura a ser criada pressupõe esse saneamento. Hoje, no Brasil, temos quase uma esquizofrenia entre esses sistemas, que não conseguem se comunicar e criar essas sinergias”

“[Defendo a] implementação de Sistema Único de Saúde. Não basta mais dinheiro, tem que ter a qualidade desses investimentos. Eu acho que, se nós viabilizarmos a emenda 29, já vai favorecer muito a saúde. Pensar na saúde principalmente a partir do que é a concepção do SUS, que é atenção no atendimento básico"

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Lista cívica e Constituinte

“A idéia não é minha. Essa idéia é do senador Pedro Simon. Ele sugeria que se fizesse uma Constituinte exclusiva para as reformas que não saem. Eu defendo a criação de um modelo novo, uma lista cívica como acontece na Itália. Candidaturas avulsas. Falando hipoteticamente, seria possível sair candidato sem vinculo partidário, para defender o que você acredita, uma forma de oxigenar. O que não podemos é nos conformar com a ideia de que as reformas são importantes. Os candidatos vão para o  debate e quem ficou 16 anos no governo diz que vai fazer a reforma. Depois, pede mais quatro anos para fazer o que não deu para fazer"

"Sempre defendi que essas reformas fossem feitas. E não é por ter estado no governo, sem poderes para isso, defendendo isso, que eu iria sair e ficar amordaçada. Senão, a vida pararia por aqui, né? Há vida após PT"

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Assista ao vídeo com os bastidores da visita de Marina Silva ao iG

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