Clima de “paz e amor” favoreceu Fogaça, diz analista

26/10 - 21:09

Marina Morena Costa, do Último Segundo

A administração de José Fogaça (PMDB) na Prefeitura de Porto Alegre obteve da população nota média de 5,9, segundo pesquisa Datafolha. A aprovação do prefeito é de 47%, e 19% desaprovam seu governo. No entanto, o candidato à reeleição na capital gaúcha venceu sua adversária Maria do Rosário (PT) por 58,95% a 41,05%. 

Para a cientista política Márcia Ribeiro Dias, professora da PUC-RS, a razão desta aparente contradição pode estar na “indefinição das candidaturas, que não mostram no que são diferentes do governo atual”. “O eleitor está agindo no contexto que foi construído pelas candidaturas e isso favorece quem está no poder, uma vez que você não vislumbra com clareza o que pode mudar ao eleger outro prefeito”, avalia a pesquisadora.

Segundo a cientista, o discurso em Porto Alegre mudou das eleições passadas para as atuais. A tradicional polarização política da cidade deu lugar à “lógica da conciliação” e houve uma hegemonização das candidaturas.

AE
Fogaça vota no segundo turno com a filha

“Ao mesmo tempo que a falta de identidade faz com que o eleitor opte pela continuidade do governo, sendo que todos ‘são a mesma coisa’ aparentemente, a solução, que seria a radicalização do discurso, tem uma resposta negativa no debate político”, explica Márcia. “O eleitor porto-alegrense está lobotomizado [com partes do cérebro ‘desligadas’], não tem direito à agressividade. Mas esse discurso impacta porque a polarização do meio político não é mais bem vista.”

Leia a análise que a cientista política faz do cenário porto-alegrense:

Como explicar o fato de José Fogaça (PMDB) não ter uma administração bem avaliada, mas estar na frente nas pesquisas, com grandes chances de ser reeleito?

Essa é aparentemente a grande incógnita desta eleição. Há uma tendência do candidato à reeleição largar na frente no início da corrida eleitoral, porque ele é mais conhecido e tem uma visibilidade maior, por ter uma cobertura jornalística dupla (como prefeito e candidato). Com isso há um favorecimento natural, mas o fato de ele ter uma administração que não é bem avaliada pela população e mesmo assim tender a reeleição é uma contradição.

Isso pode ser explicado pelo contexto de Porto Alegre, que durante 16 anos foi governada pelo PT. Ao longo desses anos, o partido construiu uma hegemonia na cidade, que gerou movimentos de contra hegemonia na oposição e a polarização da disputa. Tínhamos em Porto Alegre o PT e anti-PT. Essa radicalização levou a uma animosidade política muito grande na cidade. Isso desgastou muito o contexto político local.
O discurso do Fogaça em 2004 [eleição na qual o político se elegeu prefeito de Porto Alegre, interrompendo a hegemonia petista] é o discurso da harmonização. “Não queremos o PT, mas não somos radicalmente contra o que eles fizeram, podemos dar continuidade.” Isso segurou o eleitor que queria uma mudança, mas tinha receio de perder as conquistas do governo anterior. Em substituição a essa lógica de polarização radical, veio o discurso de que ninguém pode brigar, da harmonização, do caminho do meio. Na verdade esta é a lógica da política brasileira: a da conciliação. Nestas eleições, cada vez que uma candidatura endurecia contra o prefeito, a resposta era: “Este é o discurso de quem não sabe fazer alianças, não sabe governar junto, de quem só quer radicalizar”.

As eleições correram num clima de “paz e amor”?

O discurso no primeiro turno imprimiu esse tom. Durante a campanha tivemos grandes possibilidades de mudança com três candidaturas femininas fortes [Maria do Rosário (PT), Manuela D’Ávila (PCdoB) e Luciana Genro (PSol)] e aconteceu uma coisa inédita em Porto Alegre, uma campanha com discurso homogêneo. Parece que houve um “complô” entre os marqueteiros para não radicalizar a campanha. O discurso ficou chapado, porque todos diziam a mesma coisa: “muda o que precisa, mantém o que está bom”. Nesse cenário, quem se favoreceu foi o autor original do discurso, o Fogaça. Isso reflete a indefinição das candidaturas, que não mostram no que são diferentes do governo atual. O eleitor está agindo no contexto que foi construído pelas candidaturas e isso favorece quem está no poder, uma vez que você não vislumbra com clareza o que pode mudar ao eleger outro prefeito. Mesmo sem ter grande popularidade, é provável que o prefeito ganhe porque o adversário não mostrou uma identidade forte.
Ao mesmo tempo que a falta de identidade faz com que o eleitor opte pela continuidade do governo, sendo que todos “são a mesma coisa” aparentemente, a solução, que seria a radicalização do discurso, tem uma resposta negativa no debate político. O eleitor porto-alegrense está lobotomizado, não tem direito à agressividade. Mas este discurso impacta, porque a polarização do meio político não é mais bem vista.

Ireno Jardim/Divulgação
Manuela apoia Rosário no último dia de campanha

E no segundo turno? Como a campanha de Maria do Rosário atuou neste contexto?

O discurso do PT mudou bastante no segundo turno. Mudou a organização da campanha, a propaganda eleitoral televisiva ficou mais agressiva e fez uma cobertura mais enfática com relação aos problemas da prefeitura. As diferenças começaram a aparecer. A campanha adquiriu uma identidade mais forte.

Maria do Rosário tinha chances?

A campanha evoluiu muito. A militância do PT estava muito encolhida, no primeiro turno. O desgaste do partido, a questão nacional, os escândalos de corrupção, uma série de questões abalaram as convicções do eleitor petista. Nas ruas via-se somente pessoas pagas agitando bandeiras, mas na semana passada a militância do PT voltou às ruas de uma forma evidente. O segundo dado é a transformação da campanha televisiva, que mudou o tom, está mais agressiva, voltada para os problemas evidentes na cidade. Acho que existe chance de vitória, mas as pesquisas dizem outra coisa.

Os votos de centro-esquerda sempre foram do PT em Porto Alegre. O fato de Maria do Rosário e Manuela D’Ávila terem brigado pode ter feito a petista perder votos?

O discurso da Manuela foi a expressão máxima dessa harmonização, do “bom mocismo”, do caminho do meio. Esse discurso realmente surpreendeu vindo do PCdoB. Na verdade, a Manuela captou um eleitorado que estava muito mais próximo do Fogaça do que da centro-esquerda. O PCdoB estava aliado com PPS, que é o antigo partido do Fogaça e o discurso que conduziu a campanha foi o mesmo que o PPS apresentou em 2004. Certamente Manuela não dividiu voto com o PT. Parte do eleitorado dela foi para o Fogaça no segundo turno, não porque ela rompeu com a Maria do Rosário, mas sim porque este eleitor nunca foi do PT. A saída da Maria do Rosário é conquistar os eleitores indecisos, que se abstiveram e que não estão de acordo com este discurso da mesmice.

AE
Fogaça em ato com o senador Pedro Simon

Como esta eleição pode influenciar o cenário para as eleições de 2010?

A influência do nacional nas eleições municipais existe, mas é muito sutil. Porque na verdade o eleitor não pensa na questão nacional. Na eleição municipal, pesam os problemas e os serviços da cidade. As coisas em jogo estão muito mais próximas do cidadão. Uma das falhas da Maria do Rosário foi acreditar que chamar o Lula para sua campanha atrairia votos. A presença do presidente não ampliou a margem de eleitores da petista.

Algumas alianças nacionais há tempos não se reproduzem aqui no âmbito local. Por exemplo, o PP é adversário ferrenho do PT aqui, mas aliado nacional. O PMDB e o PT são aliados nacionais, mas aqui há um racha gritante. O PSDB e o DEM, principais adversários do PT no plano nacional, não são fortes em Porto Alegre – apesar de a governadora do Rio Grande do Sul ser do PSDB. É um contexto bastante contraditório porque aqui não se reproduzem as alianças nacionais. Há uma diferença importante na natureza das eleições municipais para as nacionais.

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